Primeiros relatos na Rússia

Comprei minhas passagens! Sairia de casa na quarta de manhã e chegaria no meu destino domingo à noite. Fácil, não?! Sairia de Bogotá, na Colômbia, onde passava férias, às 7 da manhã, em direção ao Panamá. Fiquei das 8 da manhã até as 4:30 da tarde no aeroporto de Tucumen, no Panamá fazendo nada! Foi bem entediante, no mínimo, mas uma preparação do que estava por vir.

Cheguei aqui em Manaus às 20:30 da noite, e passei uma noite em casa, e no dia seguinte, 5 de janeiro, minha agenda estava cheia! Era o meu último dia no Brasil, e tive que fazer as últimas compras, como algumas comidas, produtos de higiene, etc, e terminar de arrumar a minha mala. A noite ia chegando, e o friozinho na barriga aumentava. Me despedi da minha família no aeroporto e fui em direção à minha longa jornada solitária!

O meu voo pra São Paulo saía às 2:30 da manhã, e ele foi quase vazio. Acho que no máximo umas 50 pessoas embarcaram, algo muito difícil, já que, em todas as vezes que fui pra São Paulo, o voo saía sempre lotado. Cheguei cedo em Guarulhos, e o meu próximo voo saía apenas às 21:30 da noite. Testei minha resiliência passando 13 horas no aeroporto!

Mas a minha maior dificuldade nesse tempo foi uma: a minha mala de mão preta! Estava saindo de Manaus, super quente, e estava indo pro oposto, no ápice do inverno. Comprei uma mochila de 80 litros em Bogotá e pretendia levar meu casaco pesado, botas, e roupa térmica ali. Só que cerca de uma hora antes de ir ao aeroporto, vi um rasgo enorme nela, e decidi levar uma outra bolsa, para não correr riscos. Não podia despachar essa bolsa preta, afinal de contas, minha proteção para o frio estava ali. Tive que carregá-la quando eu ia almoçar, ir ao banheiro, e em quase todo lugar que o carrinho de bagagem não passava. No fim do dia, comecei a chutá-la ao invés de carregar, afinal, meus braços já doíam muito. Lição: comprar uma mochila mais resistente da próxima vez.

É meio comum que eu fique doente nas minhas viagens. Chegando em São Paulo, me senti bem enjoada, e o único remédio pra isso que tinha era o Dramin. Só que esse remédio me dá sonolência, e foi uma batalha pra me manter acordada naquele aeroporto. Fiquei com medo de dormir ali e ser furtada, algo assim, mas mesmo assim dormi, e relaxei.

Até que o meu check-in estivesse aberto, passei muito tempo procurando o que fazer. Palavras cruzadas, livros, passear por ali, internet… Até que o check-in abriu, e eu pude entrar! Mas ainda faltava muito tempo para o embarque começar. Nesse meio tempo, fiquei conversando com um grupo de adolescentes que estavam indo estudar inglês em Londres. Eles me perguntaram pra onde eu ia, e quando eu falei que era pra Rússia, eles ficaram boquiabertos, e ficaram super encantados com o voluntariado! Talvez futuros membros da AIESEC, quem sabe?!

Após muitas palavras cruzadas feitas, eu vi o A330 da KLM chegando no gate. A hora estava chegando, finalmente! A fila de embarque começou a se formar, e daí eu falei pra mim mesma: “É agora. A partir de agora é você, e só você! Vamos aproveitar essa experiência o melhor possível!”

Fiquei ao lado de outro menino, da minha idade mais ou menos no avião. Ele estava indo pra Londres, e apesar de estarmos na mesma situação, eu parecia estar mais segura do que ele. As primeiras horas do voo foram bem turbulentas. Logo após o jantar, fui ao banheiro, coloquei minhas roupas térmicas e minha bota, e tomei mais um Dramin para poder dormir. Eu acordei com aquela sensação de que o avião estava caindo. Estávamos sobre a França, fazendo os procedimentos de pouso já. Uma bela noite de sono e uma bela surpresa ao acordar tão perto de Amsterdam.

O pouso foi meio complicado. O aeroporto de Schipol, em Amsterdam estava sofrendo vários atrasos e cancelamentos por causa de fortes ventos. Deu pra sentir o vento fazendo o avião cambalear, mas chegamos! Amsterdam é linda vista do alto! Vários canais e pontes, e já anotei na minha agenda como um futuro destino! :)

Eu estava relativamente na frente do avião, e saí logo. Quando saí, um policial me abordou com um cão farejador, e com uma voz meio desconfiada me perguntou se eu ia ficar em Amsterdam, ou se eu iria para outro lugar. Eu abri um sorriso e disse que estava indo pra Rússia. Então o policial me perguntou, também com um sorriso: “Pra onde, Moscou?!” e eu: “Sim!”, mostrando meu cartão de embarque pra Moscou. Ele ficou super animado, e me deu as instruções de como chegar no gate de embarque do meu voo. Mais um impressionado ao ver uma brasileira pequenina indo a um lugar tão longe!

Saí andando rápido, quase correndo. O voo pra Amsterdam tinha atrasado um pouco, e o de Moscou iria sair em meia hora. Nem deu tempo de comprar aqueles tamancos holandeses, ou pelo menos um souvenir. Quando estava desesperada para encontrar o meu gate, olho pro lado, em uma parede de vidro, e vejo o avião da Aeroflot prostrado, ao meu lado (Sim, eu ia de Aeroflot!). Nessa hora eu me toquei: “Gente, estou indo pra Rússia! Não estou acreditando!” Era melhor acreditar mesmo. Cheguei na fila, e vi vários russos lá, todos bem mais altos que eu, e de cara fechada. Passei pelos scanners e logo embarquei. Fiquei no corredor ao lado de dois russos de aparência mal-humorada, e logo percebi alguns detalhes marcantes ali. Primeiro, o uniforme das aeromoças, que possui o martelo e a foice, símbolos da União Soviética, um resquício da antiga Aeroflot soviética. Depois, o próprio olhar, meio blasé das aeromoças com os passageiros. Quando uma dessas me serviu um jantar, e percebeu que eu era estrangeira, ela meio que fechou a cara, e não me serviu mais nada. Ela também não me deu um papel que eu tinha que entregar na imigração. Quase a minha entrada foi barrada por causa disso.

Enquanto todo esse tempo, surgia uma dúvida marcante: eu iria chegar em Moscou, e o que eu ia fazer? Eu desembarcaria cerca de umas 8 da noite, já noite, e teria que partir pra Saratov logo. Será que eu iria fazer tudo isso sozinha? Enquanto eu estava em Bogotá, comecei a pedir ajuda e dicas tanto de brasileiros que estavam em Moscou, quanto russos também da AIESEC. Eu iria chegar bem no natal ortodoxo deles, e será que alguém iria se dispor a me ajudar? Ainda bem que encontrei essa pessoa. Cerca de um ano antes, comecei a falar com o Vasily, da AIESEC em Moscou. Ele se ofereceu pra me ajudar, e logo após saindo da sala de desembarque, comecei a olhar ao redor pra ver se ele estava ali ou não. Se não, eu iria a um hotel perto, e no dia seguinte, compraria minha passagem de trem. Quando já tinha perdido as esperanças, eu ouço alguém se dirigindo a mim, falando algo como: “Poxa, pensava que eu já tinha te perdido em algum lugar”.

A ajuda dele foi ótima e essencial para o meu sucesso nesse início de aventura. Sou extremamente grata a ele até hoje pela ajuda. Com a passagem comprada, e de quebra, um tour pela Krasnaya Ploschadi (Praça Vermelha) em pleno natal, com papai noel russo inclusive, parti em rumo à Saratov num trem antigo, mas confortável. O resto da história fica em outro post, mas pra finalizar, me lembro de um dos momentos mais tocantes que eu tive em dois meses em terra russa. O trem partindo e o meu amigo ali, me dando tchau. Me senti numa daquelas cenas de filmes de drama, onde as pessoas nunca mais se vêem. Até hoje, ainda não o reencontrei, mas felizmente, temos a internet como ponte disso.

Anúncios

Um comentário sobre “Primeiros relatos na Rússia

Os comentários estão desativados.