Morando em estilo soviético

Desde dentro do trem, em Moscou, eu percebi algo muito pertinente na aparência das cidades. Os prédios residenciais pareciam seguir o mesmo estilo, especialmente aqueles que já aparentavam ter alguns bons anos de existência.

Pesquisando um pouco em livros que possuo sobre o assunto, após o fim da Segunda Guerra Mundial, havia um grande déficit habitacional na União Soviética, e, especialmente após a era Kruschev (aportuguesadamente, ou algo como Rrushchov lido em russo) a construção destes conjuntos habitacionais, os novostroiki (Novas Construções) ganhou força.

Esses prédios tem foma de paralelepípedo, que pode até lembrar os blocos do Plano Piloto em Brasília. Pela aparência externa, nota-se que estas construções não são bem cuidadas, e quando entramos dentro do hall comum, temos certeza de que não há trato algum, e por tempos.

Levei um susto quando entrei num novostroiki pela primeira vez. Tinha saído da estação de trem, e a mãe da minha hostess (a pessoa que ia me abrigar no meu intercâmbio) estava, coincidentemente, fazendo um jantar, e fui direto para a casa dela. Quando abriram a porta, eu vi a situação deplorável em que aquele interior se encontrava. As paredes já estavam no cimento, já que a tinta havia corroído. As escadas estavam deterioradas ou quebradas – e o pior, para uma pessoa sedentária que nem eu, subir cinco andares de escada a pé era o fim! Perdi as contas de quantas vezes cheguei com falta de ar ou com o meu coração palpitando até o apartamento.

Esses prédios não tem uma administração para áreas comuns, muito menos um síndico para cuidar destes assuntos, e os prédios vão ficando sem cuidado, sem ter ninguém para se importar com isso. Cada um, também, cria a porta que quiser, deixando qualquer designer de interiores maluco! :)

O apartamento da mãe da minha hostess, a Tanya, era muito bonitinho e cuidado. Mas duas coisas me chamaram a atenção. Não há distinção entre cozinha e sala, sendo tudo em um cômodo, e lendo isso em outros livros, descobri que era uma maneira do governo soviético projetar apartamentos assim, para que os familiares se conhecessem melhor, não só de uma maneira boa, feliz, mas também deles descobrirem possíveis violações que alguém pudesse estar fazendo contra o governo soviético. Era comum que familiares delatassem outros, maneira de conseguir prestígio naquela época. Outra coisa que me chamou a atenção era o fato de todos os membros da família compartilharem o mesmo banheiro, e em quase todas as casas, ele era separado entre chuveiro com banheira (com máquina de lavar dentro!) e vaso sanitário.

O apartamento da minha hostess era menor, com uma pequena cozinha e com dois pequenos quartos (descobri, depois de muito tempo, que estava dormindo na sala!), mas com uma área comum também mal cuidada (com direito a cebolas jogadas no hall durante todo o tempo que estive lá), mas com uma grande vantagem que só tinha visto ali: um elevador!

Depois de visitar outros amigos, essa questão do hall mal cuidado nem me estranhava mais. Eu tinha amigos que viviam em piores condições que as minhas, e logo me senti bem (e aliviada) por morar em uma casa bem localizada e com uma ótima estrutura. Às vezes me estranho por não estar mais lá!

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