Vivendo em um vilarejo soviético

Em fevereiro, minha hostess me chamou pra passar o fim de semana “at the village”. Sem hesitar, falei que sim, e logo me animei com a possibilidade! Fomos até a rodoviária, compramos nossas passagem de ônibus e esperamos pelo dia. Um outro brasileiro já foi me alertando dizendo que lá não tinha nada!

A princípio iriam eu, todos os intercambistas, a mãe, e o irmão da minha hostess. Acabaram indo todos os trainees, a Katya e uma amiga dela. Fomos de ônibus e partimos na sexta de manhã. O trajeto de ida não foi muito confortável, mas deu pra se relaxar. Ainda mais, fiquei conversando com um outro brasileiro, e jogamos conversa fora por umas 2 horas.

A paisagem era bem triste, já que tudo estava coberto de neve e o silêncio do ônibus me fazia sentir num vazio total. Do nada, minha hostess nos chamou, dizendo que estávamos chegando. A pergunta na minha cabeça era: chegamos onde?!

O ônibus parou no meio do nada! O que quebrava o hábito eram algumas casinhas de madeira, construídas uma longe da outra. Algumas dessas casinhas tinham as paredes tortas, lembrando muito algum cenário de filme de terror. E lá tinha muita neve, mais do que o normal em Saratov!  E era neve pura, daquelas que se podia pegar um monte e comer, já que ninguém podia ter pisado, ou passado por ali.

Vilarejo em que passei o fim de semana

Fomos deixados na estrada principal, e tínhamos que andar um bocado até chegar à casa onde passaríamos aqueles dias. E como eu era a mais sedentária, fiquei pra trás! Foi muito exaustivo (no meu caso) chegar lá. :)

Fomo logo recebidos pela “babuska” da Katya, e logo nos acomodamos nas camas à nossa disposição. O interior da casinha era interessante. As paredes eram todas cobertas com tapetes persas e imagens de santos ortodoxos. A cozinha era bem rústica, e só havia uma pia à disposição de tudo na casa! O aquecimento era feito com uma espécie de tambor gigante que ficava bem no centro da casa. Vale ressaltar que nem todos os cômodos da casa eram aquecidos. Mesmo me sentindo no meio do nada, abrigada por uma tenda siberiana, ainda me senti “perto” do mundo, já que ali tinha TV via satélite com alguns canais (todos em russo).

A casa ainda tinha um anexo onde os avós da Katya criavam um rebanhozinho de cabras. Tivemos sorte! No dia seguinte da nossa chegada, uma das cabras teve filhotinhos, e nós ajudamos a aquecê-los e a limpá-los! :)

Nunca em toda a minha vida, eu comi tanta batata quanto lá! E eles cozinham a batata de uma maneira tão especial que até hoje não sei como preparar aqui! Foi o nosso primeiro jantar, e pra fechar, comemos uns biscoitinhos maravilhosos!

Apesar do bucolismo, de toda a sensação incrível que estava sentindo naquele lugar, havia um grande problema. Não existe saneamento básico no vilarejo, sendo aquela pia da cozinha, o único cano que saía água da casa. Eu estava nos meus dias, e ir pro banheiro era, digamos, nojento. Os meninos não tiveram problema algum nas idas ao banheiro, eu, por outro lado, faltava morrer! A sorte foi que a avó da Katya possuía uma espécie de balde adaptado para urina, e esse balde ficava dentro de um cômodo da casa, que não tinha aquecimento. Apesar do frio de vários graus abaixo de zero, ir no banheiro ali era bem melhor do que ir na casinha com apenas um buraco no chão que ficava fora de casa, no escuro e mais frio ainda.

A questão do banho também era tensa. Os avós da Katya tomavam banho no “banya”, ou seja, aquela famosa sauna russa onde as pessoas ficam nuas, e se batendo com um umas folhas nas costas. Me chamaram pra ir no banya com o pessoal, e nesse caso, nem fiz questão!

No dia seguinte, fomos passear no bosque. Eu relutei muito em ir, já que eu estava me sentindo suja, e cansada por não ter dormido a noite bem. Acabei indo, e achei aquele bosque lindo! Literalmente eu me senti no filme do Bambi, no meio de uma trilha com árvores cheias de neve, e vendo uma corredeira que só não era congelada pela energia cinética. Lindo :)

Bosque

Passamos outra noite lá e tínhamos que partir às 5:30 da manhã do dia seguinte rumo à Saratov. Acordar naquela hora foi horrível. Tínhamos ido dormir muito tarde e já estávamos com preguiça do frio que iríamos sentir! Após tomar correndo um café da manhã só com panquecas, saímos no breu e frio da noite. Estava muito escuro. O vilarejo não tem iluminação pública, e naquela hora, nenhuma casa estava com as luzes acesas. Apesar do medo constante em escorregar, tive uma bela recompensa! Nunca vi um céu estrelado tão bonito, e apesar do frio, sono e fome, o firmamento me deu a mensagem de que tudo valeu a pena.

Daí, pra encerrar mesmo, esperamos o ônibus de volta. A Katya bateu o pé e disse que era melhor esperarmos um ônibus, ao invés de pedir um táxi, que sairia o mesmo preço. Só que a Katya não esperava que o ônibus demorava muito pra passar ali, um vilarejo pequeno. E outra coisa que deixou todo mundo bravo com ela foi o frio. No caminho, encontramos um senhor que disse que, segundo o termômetro da casa dele, estava fazendo -35 graus! Era o mais frio que já tínhamos ficado! Na cidade é quase impossível de fazer esse frio por causa de carros e indústrias, que lançam calor. Dois outros brasileiros estavam morrendo de frio, um não tinha calça térmica e outro não tinha luvas, e os dois não paravam de falar mal da Katya (em português, claro) por ela não ter chamado um táxi. Pra completar, a chinesa sentiu a menstruação dela saindo naquele momento! Acabei emprestando um absorvente pra ela, e ela teve que por ali, no frio!! Não sei como ela conseguiu! :)

Umas 6 da manhã passou o ônibus que estávamos esperando. Quase que esse ônibus (que era uma van) deu problema! Não havia lugar para todos. Eu e outro brasileiro corremos pra sentar, enquanto o chinês ficou de pé por quase toda a viagem, coitado! E lá tava bem frio e desconfortável, mas da situação que estávamos, conseguimos relaxar e dormir. Ao chegar em casa, a primeira coisa que eu fiz foi, definitivamente, tomar um bom banho!

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3 comentários sobre “Vivendo em um vilarejo soviético

  1. Fabi Almeida disse:

    Hola!Tenho muita vontade de conhecer a Rússia,mas tenho receio por causa do idioma.Quando você foi já tinha noção do idioma russo e alfabeto cirílico?
    Bj

    • camillapelomundo disse:

      Oi Fabi!
      Na verdade, o idioma foi o menor dos meus problemas! :)
      O alfabeto cirílico tem algumas semelhanças ao latino, com a exceção de algumas letras, e outras que você nem imagina que exista! Mas após uma pequena estudada nas letras e fonemas, não tive muitas dificuldades na leitura! Fora isso, sabendo coisas básicas, como números, cumprimentos, e algumas expressões, dá pra se virar bem por lá, seja dentro do ônibus, lojas e outros lugares.

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