Saratov, a capital do Volga

Eu já citei algumas vezes que eu fui fazer intercâmbio na Rússia, que eu gostei muito, e tal, mas não falei muito da cidade em que passei alguns dos momentos mais divertidos da minha vida!

Saratov é uma cidade de 840 000 habitantes situada na margem esquerda do rio Volga, na região centro-sul da Rússia. Eu pesquisei bastante antes de decidir ir até lá, especialmente por que estava em dúvida pra ir numa cidade na Polônia, e para Novosibirsk, a “Chicago da Sibéria”.

Na verdade, eu queria muito ter ido pra Novosibirsk no início desse processo de intercâmbio. Eu me lembro que quando eu era pequena, gostava de ficar observando atlas, e eu fiquei bem confusa ao abrir na página que mostrava o mapa da União Soviética, já que era um país enorme com outros países pequeninos ao redor. Bem no meio do mapa, eu vi o nome dessa cidade e comecei a imaginar que raios teria em Novosibirsk, e que país louco era aquele! Creio que devia ter uns 4 anos e não entendia nada ainda de geopolítica internacional. Hehe.

Quase que eu fui pra Novosibirsk, mas não teria como ir para União Soviética por motivos óbvios, já que o ano de 2011 estava entrando na reta final. Quando eu estava quase indo convencer a minha mãe a ir pra essa cidade que sempre me intrigou, eu comecei a sondar Saratov. Acho que nunca tinha ouvido falar dessa cidade antes, e fui pesquisar.

Gostei muito da história dela, e senti uma necessidade imensa de ir pra lá. Agora o porquê disso foi bem intrigante pra mim desde o início.

No início do Século XX, o Império Russo era a potência mais ameaçadora do continente europeu. Embora alguns autores afirmem que o Império era sempre o mais atrasado e retrógrado, a verdade é que numa situação de sobreposição de poderes criada por Bismarck no fim do século XIX, onde a França arrasada pelo Congresso de Viena conseguiu se manter à altura e manter a paz com uma Inglaterra bagunçada, mas poderosa devido ao sucesso da era Vitoriana, enfraqueceu a recém unificada Alemanha, comandada por um Kaiser louco e que destruiu o quebra-cabeça de Bismarck com algumas gafes sem sentido. Nesse contexto, o Império Russo era o país mais estável de todos os Europeus, e havia ganhado moral com a esmagadora vitória sobre Napoleão.

Enfim, no país mais temido da Europa, Saratov era um centro cultural ascendente no período pré-revolução russa, com renomadas universidades e conservatórios de música, além de possuir pelo menos 4 séculos de história. Ali, era a terceira maior cidade do país, apenas perdendo para então capital, e na época, uma das maiores cidades do mundo, São Petersburgo, e o centro industrial de Moscou.

Como todos sabem, a revolução começou, e em 1922 a União Soviética nasceu, e com ela, algumas políticas militares começaram a aparecer. Para Saratov, pouca coisa mudou até a Segunda Guerra Mundial e a batalha de Stalingrado.

A cidade de Stalingrado (hoje, Volgogrado) era o coração industrial da URSS, e os comandantes nazistas acreditavam que após tomar essa cidade, eles enfraqueceriam os soviéticos significativamente, e logo chegariam aos ricos poços de petróleo do Azerbaijão, onde deixariam o plano de conquista mundial e da “superioridade da raça ariana” a um passo de ser concluído.

Por sorte, a resiliência e bravura do povo soviético, aliada às táticas militares do general Jukov, os nazistas foram derrotados, enfraquecendo significativamente Hitler, e abrindo espaço à União Soviética e aos aliados a tomada de Berlim em 1945. Mas o que Saratov tem a ver com isso?

Saratov é uma cidade vizinha de Volgogrado, e muitas das batalhas foram travadas próximas ao círculo urbano da cidade, o que abriu a possibilidade aos soviéticos de instalarem uma base militar estratégica ali. Após a guerra, Stalin ordenou que a cidade fosse considerada “fechada” aos estrangeiros e outras nacionalidades soviéticas. Esse isolamento do mundo selou o destino atual da cidade, que passou anos sem ter um desenvolvimento tecnológico, e com pouquíssima infraestrutura estratégica. Por exemplo, o aeroporto da cidade é super subestimado, mesmo estando numa região com potencial turístico.

Apenas com a dissolução da União Soviética no natal de 1991, Saratov foi aberta aos estrangeiros, e à maioria dos soviéticos. Quando eu me toquei que eu poderia ir para um lugar que vedaria a minha presença há 20 anos, logo fiquei animada (por incrível que pareça!). Outros fatos me chamaram a atenção. Por eu ser estrangeira, poderia chamar mais a atenção, e ao invés de me preocupar com isso, mais estímulo recebi pra ir até lá!

Fiquei matched, ou seja, aquela vaga era minha! Comprei minha passagem até Moscou e cheguei lá após uma viagem de quase 19 horas de trem, fato que já contei por aqui.

Após chegar lá, eu vi algumas coisas que eu já esperava, e outras não. Eu já esperava ver neve por todo o lado, pessoas com aparência reservada, coisas exaltando a época soviética, dentre outras. Mas eu jamais esperaria receber tanto carinho da minha host mother, e amizades verdadeiras vindas dos outros trainees! Às vezes, quando eu saía da casa da minha host mother, triste por ter passado um dia sem ter conversado com alguém daqui de casa, ela me dava um abraço, um beijo, e um boa noite em russo! Fora as vezes que ela me emprestava algum chapéu de pelo de raposa pra proteger a minha cabeça, ou algum casaco mais grosso quando estava mais frio. Sem contar todos os jantares, frutas, e todos os MM’s que eu recebia todo dia. :)

A cidade é linda! Se já a achei incrível durante o inverno, não sei nem o que esperar durante o verão! Saratov é um balneário turístico bem importante na beira do rio Volga, e segundo a minha host, ela passa o verão inteiro deitada na praia. E pela cidade ser antiga, muitos prédios da época ainda continuam. Construídos em madeira, e pintados sempre com cores brilhantes, esses prédios lembram um pouco aquilo que eu costumava ver na TV como construções da época czarista.

Se alguém me perguntar se vale a pena ir pra Saratov fazer seu intercâmbio, a resposta com certeza é sim, apesar das dificuldades que passei para ter a definição de onde eu iria trabalhar. Pra mim, a recepção daquelas pessoas, as amizades que criei, todo o carinho dos professores e alunos da escola que trabalhei e todo aquele ar cultural do interior da Rússia vale todo e qualquer esforço. Já prometi pros meus amigos que eu voltaria lá. Gostaria saber quando, mas ainda irei.

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