Um dia maluquinho em Moscou

Quando você vai fazer intercâmbio, pode contar que o que você vai mais trazer no seu destino são as histórias! Uma das mais engraçadas foi a minha ida de volta até Moscou!

Desde o início do meu intercâmbio, eu já estava sondando os outros trainees a irem viajar comigo depois que saíssemos de Saratov. Um dia, na casa de um brasileiro, estávamos discutindo sobre coisas que haviam em Moscou, e em outras cidades do Leste Europeu. Um dos brasileiros estava com uma camisa do Real Madrid e eu brinquei: quem sabe a gente não consegue assistir a algum jogo do Real por aí?

Esse brasileiro, o Pedro, entrou no site da UEFA, e olha a surpresa: o próximo jogo do Real seria contra o CSKA em Moscou, bem na época que pretendíamos viajar mesmo! Bingo! Vamos assistir então uma partida da Champions, e vamos nos programar pra ir!

Alguns dias depois, durante a festa do ano novo Chinês, que os chineses organizaram, o Pedro falou que tinha descoberto um site que entregava os ingressos da Champions na nossa casa, e logo, uma amiga russa, a Sasha, se intrometeu, e falou: “ah, existe uma excursão que sempre sai de Saratov para assistir aos jogos da Champions aqui na Rússia! Ano passado eu fui em uma, e foi bem legal!”

Logo pedimos pra Sasha conversar com essa pessoa que organizava essa excursão, para colocar os nossos nomes nessa lista. Passaram os dias, e na noite do dia 20 de fevereiro do ano passado, partiríamos a Moscou!

Nós iríamos pra Moscou, mas não voltaríamos a Saratov. Naquele dia, foi o primeiro dia de várias despedidas, onde tive que dar adeus à Tanya, minha host mother, o Sasha, o filho dela, e alguns outros amigos russos que fiz no meu X.

Foi bem chato me despedir deles. Eu realmente queria ter interagido mais com eles, e sinto que eu poderia ter feito muito mais coisas por eles, mas de qualquer maneira, a recepção que eu tive, foi incrível.

Enfim, três ônibus saíram de Saratov, e a Sasha quis sentar bem no final, e imagina, foi horrível pra mexer, e além do mais, passamos a viagem toda sem ventilação. Sorte a minha que eu sentei do lado da janela, onde eu sentia o frio natural vindo do lado de fora. (Risos!)

Foram 14 horas de viagem, e logo quando começamos a ver alguns resquícios de cidade grande, comecei a sentir um alívio, pois estava muito cansada, queria comer algo, e as minhas costas estavam doendo muito. :( Mas aí veio o maior desafio até então, se locomover em Moscou!

O problema foi que nós chegamos, e o ônibus estacionou nas redondezas do estádio, e a Sasha não conhece Moscou. Daí vem o problema: não sabíamos qual a estação de metrô mais próxima! Ela ficou perguntando de pessoas no caminho, informações, e ficamos rodando que nem barata tonta atrás de qualquer estação!

Mas tinha um pequeno agravante em toda essa situação. A minha mala fez o favor de quebrar quando eu estava saindo do meu apartamento em Saratov…

Justamente o meu puxador foi imprensado pela porta do elevador, e no meio da viagem, ela acabou caindo! :( Eu tive que dar um jeito de puxar aquela mala no meio da neve, e como sempre, mais ainda esse dia, fiquei pra trás!

Claro que eu recebi ajuda dos meninos, especialmente do Rhushabh, o indiano. Tadinho dele, ele criou uma engenhoca com um cachecol do CSKA que ele tinha comprado na ida, e foi puxando a minha mala. Mas mesmo assim, a mala estava bem difícil de puxar, então, imagina a cara de felicidade de todo mundo até encontrarmos uma estação de metrô!

Daí veio o segundo problema: nós não sabíamos em qual estação descer! O Pedro havia encontrado um hostel pra gente, mas tinha esquecido de ver a localização dele! A sorte que o nosso amigo indiano high-tech era o único com internet no celular (eu não tinha, pois a Katya achava internet no celular “desnecessária” e se recusava a me ajudar a por! Onde isso existe no meu mundo?!) e viu que ficava perto da Tsvetnoy Bulevar. A sorte que havia uma estação com esse nome (Risos x2). Partiu!

Então, a viagem de metrô foi super tranquila. Não sentimos qualquer dificuldade, e logo nos ambientamos com tudo. Mas aí o terceiro problema apareceu. Chegamos na estação, mas onde ficava esse hostel?!

Segundo a página desse hostel no hostelworld.com, para chegar lá, era meio confuso. Tinha que entrar numa ruelinha, subir uma escada, dobrar depois de um prédio rosa e pronto! Chegaria no hostel!

Essa tal ruelinha fica bem do lado da estação de metrô. Dobramos e seguimos em frente. No fim dela, havia uma escada. Ok. Andando mais pra frente, havia um prédio rosa. Ok. Havia uma abertura ao lado desse prédio rosa, e entramos. Era pro hostel estar lá! Cadê?! Fiquei procurando alguma placa, alguma coisa, e tcharam! Ali estava o hostel! Quase chorei de emoção! Não haveriam mais malas, nem falta de localização que nos impedissem de rodar em Moscou!

Depois de almoçar, ficamos de encontrar a Katya, o Kolya, e a Aline, três amigos, perto da praça vermelha, e iríamos juntos pro estádio. Nesse meio tempo, encontramos a Yasmin, uma outra brasileira do Rio que estava de passagem por Moscou, e estava indo embora hoje à noite. Nem parece, mas é ótimo encontrar brasileiros no exterior, especialmente na Rússia!

A Katya estava super nervosa. Ela tava bem chata nesse dia, na verdade. Segundo ela nós havíamos nos atrasado (eram 17h), e iríamos perder o jogo (!!!!!). Corremos pra pegar o metrô, e encontrar aqueles ônibus da excursão, para pegar os nossos ingressos.

Só que a Katya quis ir correndo ao encontro desses ônibus, literalmente. Eu não conseguia mais andar rápido, o meu coração tava palpitando muito, e logo senti os efeitos do sedentarismo no meu corpo. Ela quase estava me xingando, por não andar rápido! O jogo só começava às 21, eram ainda antes das 18, estávamos ao lado do estádio, e reclamando assim sobre tudo? Naquela hora eu tava feliz, pois era o meu último dia que eu ouviria uma reclamação vinda dela.

Pegamos os ingressos, e fomos pro estádio. A menina tava com tanta pressa, que não me deixou nem comprar água na parte de dentro do estádio (dentro! Já havíamos entrado com os ingressos) pois ela tinha medo que perdêssemos nossos lugares ali. Até parece que ela sabia tudo de futebol europeu. É só assistir a qualquer transmissão de futebol europeu, seja na Inglaterra, ou na Espanha, até na Rússia mesmo, que as pessoas só chegam mesmo nos momentos anteriores à partida. Vale ressaltar que ainda era 19:30 da noite.

Ingresso do jogo

Fiquei morrendo de raiva com essa inflexibilidade dela, e fui sozinha, no meio de um monte de marmanjos, comprar algo pra beber ali. Comprei um refrigerante e voltei. A menina não havia nem se tocado que era muito mais perigoso eu ter descido até lá, sozinha, estrangeira, e pior, com cara e sotaque de espanhola ir comprar algo pra beber do que ela ter simplesmente esperado cinco minutos e “perder o lugar” que sinceramente, ficaria vago sempre.

Não escondi a chateação com ela, mas ao mesmo tempo quis relaxar e aproveitar o momento. Me juntei com os meninos, e fui curtir o jogo!

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Estádio de Lujniki! :)

Então, foi muito bom ouvir a música tema dos jogos da Champions ali, na minha frente, junto às pessoas mexendo aquela bandeira em forma de bola de futebol estrelada no meio do campo! Também foi ótimo ver o Cristiano Ronaldo, o Kaká, o Mourinho pequenininhos, mas bem ali perto de mim! Hehe.

Mas ali aconteceu um fato meio tenso, que marca um pouco o racismo que alguns grupos de pessoas ainda cometem na Rússia. A UEFA é contra o racismo, e sempre prega isso nos estádios, e nesse jogo não foi diferente. Antes do jogo começar, anúncios em russo e em espanhol foram feitos, anunciando que os torcedores respeitassem as diferenças e que a UEFA é contra o racismo. A parte em espanhol, dos visitantes, foi falada antes, e depois em russo. Quando a parte em russo foi falada, um pessoal da nossa excursão, que estava perto de nós, começou a cantar uh uh uh uh uh, meio que imitando macacos. Isso foi ridículo, e outras pessoas perto de nós começaram a vaiar.

Vale lembrar que alguns minutos antes, uma pessoa, provavelmente desse grupinho sem noção, pediu do Kolya que ele saísse de perto deles, pois a presença dos “amigos” dele os estava incomodando. Como não queríamos briga, nos afastamos um pouco, e ficamos tranquilos até o fim do jogo. Para as minhas amigas e eu, não havia muito problema, pois as meninas eram russas, e eu sou branquinha, com aparência europeia (inclusive perdi as contas das vezes que fui confundida com russas!). Mas para os outros intercambistas, era mais evidente essas diferenças físicas entre os russos. O Rhushabh é indiano, e com cara bem indiana; o Pedro, o brasileiro, é negro; e o Márcio, outro brasileiro, tem uma aparência meio árabe.

Mesmo assim, independente das diferenças, quem se mostrou ser “retrógrado e inferior” foi esse grupo. Estávamos ali justamente com o intuito de abrir a sociedade, colocando aspectos culturais internacionais, para a agregação de valores junto a eles. Espero que um dia, eles cresçam e tenham uma consciência mais aberta do mundo que eles vivem.

Enfim, o CR7 marcou pro Real, e o CSKA empatou no final. Foi um empate com gosto de vitória, e isso foi um incrível motivo de orgulho para o torcedor. Essa felicidade se mostrou evidente no caminho pra casa! O metrô ficou lotado de pessoas gritando: “THÊÉSCAÁ, THÊÉSCAÁ” (CSKA em russo, hihi), super orgulhosas e mostrando suas camisas e seus cachecóis do time.

Metrô Sportivnaya lotado com torcedores felizes do CSKA!

Metrô Sportivnaya lotado com torcedores felizes do CSKA!

Pra completar aquele dia, eu tive que me despedir da Katya, da Alina e do Kolya, que estavam voltando para Saratov logo depois do jogo. A Katya com certeza, apesar dos estresses, foi a pessoa que mais me ajudou no meu intercâmbio, e não sei como exprimir minha eterna gratidão por ela. O Kolya e a Alina sempre estiveram presentes, e também aprendi muito com eles. Foi uma despedida sem sal, mas triste na estação de metrô, e marcada por um dia ruim entre nós, mas nada que apague o grande carinho e admiração que tenho por essas pessoas.

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