E daqui a dez anos?

Em dez anos, estarei a uma semana dos meus 32 anos, mas o que o futuro me reserva? Estar formada, definitivamente! De mestrado, quase certo. De doutorada, não sei. Aprovada no CACD, espero!

Há 10 anos atrás eu nem sabia o que eu queria direito. Não sabia de muitos conceitos da vida que hoje já consigo ver com mais clareza, afinal de contas, estava indo completar meus 12 anos, estava na sexta série e a única coisa que me preocupava na vida era ficar na piscina em dia de chuva.

Um belo dia, pesquisando coisas aleatórias na internet, descobri um artigo falando sobre lugares abandonados e vi uma foto do Hotel del Salto, na Colômbia. Me bateu aquele momento de nostalgia, e fui atrás de fotos que acabamos tirando lá. A primeira vez foi em 3 de janeiro de 2000, e a segunda no primeiro dia do ano de 2012, ou seja, batendo na trave dos 12 anos de diferença entre elas.

Mas o que tem esse tal de Hotel del Salto?

Esse “salto” do nome do hotel é por causa da atração natural bem na frente dele, o chamado “Salto del Tequendama”, uma cachoeira do rio Bogotá, que teve seu auge de turismo no século XIX, e inclusive foi descrito por Alexander von Humboldt, importantíssimo naturalista alemão que descreve em um de seus livros:

A grande parede de pedra, as paredes da cachoeira e banhado por sua brancura e a regularidade das suas camadas horizontais lembra o calcário Jurássico; os reflexos de luz que invadem a nuvem de vapor flutuando infinitamente acima da cachoeira ; a divisão ao infinito dessa massa de vapor cai em grânulos molhados e deixa para trás algo como uma linha de chifre; o som da cachoeira como o rugido de um trovão e repetido pelos ecos das montanhas, o abismo da escuridão; o contraste entre os carvalhos de acima que lembram a vegetação Europeia; e as plantas tropicais que crescem ao pé da cachoeira, tudo o que vem junto para dar este caráter individual uma cena indescritível e grande.

Salto del Tequendama, em 2000.

Salto del Tequendama, em 2000.

Acontece que do fim do século XIX para agora, muita coisa mudou em Bogotá. Uma hidrelétrica foi construída próxima à boca do Salto, o que fez o fluxo da água diminuir bastante. Fora isso, a cidade cresceu muito, e a falta de planejamento urbano contaminou o rio Bogotá, que passou a receber todo o esgoto da capital da Colômbia.

Antes que a situação de desgaste ambiental se tornasse tão feia, em 1928 uma francesa construiu um hotel do outro lado do penhasco, como uma forma de receber os turistas que iriam até lá. O Hotel del Salto era um dos mais luxuosos da Colômbia, e sempre contava com grandes jantares e convidados ilustres.

Como dito antes, a situação ambiental se agravou, causando muito mau cheiro nos arredores do Salto e dessa região em particular do rio Bogotá, o que expulsou os turistas, e acabou levando o hotel à falência. Desde então o hotel é considerado abandonado.

Mas o que tem a ver esse título de 10 anos e esse Hotel del Salto? E por que passei duas vezes por esse salto, sendo que a Colômbia tem muito mais para se ver?

Respondendo à segunda pergunta, eu sou “obrigada” a passar pela frente do Salto toda vez que vou pra fazenda do meu tio em Santandercito. Nas três vezes que eu fui, tenho que passar pelo Salto no caminho.

E no início do ano 2000, eu tinha 8 anos. Era uma criança ainda com memórias muito limpas de tudo, o que me fazem lembrar de cada detalhe. Tínhamos saído da nossa casa em Bogotá, onde o meu tio havia pedido um táxi para a gente, já que iríamos pra fazenda do meu outro tio. Ele havia acordado meio cansado, até fraco, digamos, e não pode ir com a gente – ele faleceria cerca de um ano depois – e fomos direto pra estrada.

O táxi era uma Brasília, e fomos apertados, pois éramos 5 na minha família mais o motorista. No meio da viagem a minha mãe e a minha tia brigaram, pois a minha tia era a responsável pela filmadora, e ela havia esquecido de carregar. Minha mãe se estressou e fechou a cara. No meio tempo, meu avô pediu para que o motorista parasse no tal Hotel del Salto, pois fazia muito tempo que ele não iria pra lá.

A primeira impressão que tive foi de deslumbre. Se senti mal cheiro, não me importei, e se tinha algo muito feio no abandono do hotel, não percebi. Pra mim tudo era muito bonito! A beleza da cachoeira com aquele lindo prédio rosa. E não havia ninguém além de nós! Tiramos muitas fotos, e ficamos apreciando muito a paisagem.

Eu e a minha família fazendo pose ao lado do Hotel del Salto. Foi uma foto tirada de uma foto, meu scanner não está funcionando mais. :/

Eu e a minha família fazendo pose ao lado do Hotel del Salto. Foi uma foto tirada de uma foto, meu scanner não está funcionando mais. :/

Da segunda vez que tirei foto, foi ano passado, justamente a caminho da fazenda do meu tio. Fomos em comboio em família, diferente da outra vez, mas acabamos por nos encontrar num restaurante na estrada. O meu avô queria parar lá mais uma vez – e eu também – pois ele estava louco para tirar uma foto lá.

Antes de chegar, vi duas coisas que já me chocaram muito. A primeira foi a falta de conservação da estrada, que geralmente são muito boas na Colômbia, onde alguns pedaços já estavam interditados, pois parte do asfalto já tinha cedido no precipício. A segunda foi a quantidade de espuma no rio Bogotá. Um sinal impecável de poluição.

Chegamos no Hotel del Salto e levei um susto! Estava tudo lotado, cheio de turistas tirando foto, carros estacionados em plena estrada, e várias barraquinhas de chorizo, almojábanas, tamal e tantas outras coisas na beira do precipício – literalmente.

Hotel del Salto em 2011. Tinha tanta gente e carros estacionados, que só eu pude descer com meu avô para tirar foto.

Hotel del Salto em 2011. Tinha tanta gente e carros estacionados, que só eu pude descer com meu avô para tirar foto.

Fiquei arrasada com aquela poluição visual e todas aquelas pessoas falando, que me deixaram com um gostinho de nostalgia imenso. Não se poderá apreciar a cachoeira com tamanha paz e serenidade como eu tive oportunidade de apreciar. Mas eu só tinha 8 anos! Uma criança ainda não sabe ainda apreciar coisas que um adulto já consegue, e apesar de eu conseguir lembrar de muita coisa da primeira vez, a memória mais forte será a da segunda vez, já com 19 anos.

Além do mais, havia tanta neblina, que surgiu com o excesso de dejetos de mais 10 anos de uma população de mais de 7 milhões de habitantes, que deixou a cachoeira quase invisível! Não dá pra culpar que era a época diferente do ano, mas não. Se eu fosse dois dias depois na minha segunda ida em 2012, seria exatamente 12 anos desde a primeira visita.

10 anos conseguiram mudar a minha percepção de mundo, e no caso do Salto del Tequendama, concebi uma memória breve, apagada por 10 anos de muitas mudanças na minha vida, sejam de atitudes, de amigos, de crescimento e até de situações. Esse restinho de lembrança do ano 2000 foi deixado de lado com uma nova imagem que testemunhei. Muita poluição visual, uma cachoeira engolida pela neblina, e claro, uma nova visão de mundo, pois afinal de contas, não dá pra comparar uma mentalidade de uma menina de 8 anos para a de uma mulher de 19.

E daqui a 10 anos, o que vai ser do Salto del Tequendama? Será que o fluxo d’água do rio Bogotá vai parar de novo (como parou em 2003, quando fui pela segunda vez à fazenda do meu tio)? Será que a estrada vai ceder ainda mais, deixando aquele trecho na montanha intrafegável? Será que vão finalmente concluir as reformas e abrir o tão esperado Museo del Salto, que reabrirá as portas do Hotel? Será que vão proibir os comerciantes ambulantes a venderem a sua comida ali?

Isso só o tempo vai dizer. Só esperando 10 anos mesmo.

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