O desmembramento da Hungria

Quando pensamos nas consequências da Primeira Guerra Mundial, logo pensamos no Tratado de Versailles e de toda a humilhação (sim, esta é a palavra mais adequada) sofrida pela Alemanha em uma guerra que ela nem causou. Não seria adequado aqui revisar toda a sobreposição de poderes e a paz armada vivida até 1914, ou muito menos o comportamento infantil do Kaiser germânico que destruiu bobamente quase todas as relações diplomáticas da Alemanha, consequentemente influindo no fadado Tratado.

Eu vim falar de outro tratado que causou uma espécie de humilhação da Hungria, o famoso Tratado de Trianon. Ele foi assinado em 1920 e desmembrava a Hungria de três grandes e importantes regiões, a Eslováquia, a Croácia e a Transilvânia causando grandes consequências, além da diminuição drástica do exército húngaro.

Temos que voltar um pouco no tempo, lá para o século XIX. A Hungria era uma nação que conviveu séculos sem nenhuma guerra étnica, apesar da presença de diversas minorias vivendo no seu território, como eslovacos, croatas, sérvios e outros. Em 1867, um acordo foi firmado com o Império Austríaco onde uma mutualidade de poder aconteceria. Esse pacto foi vantajoso para ambos os lados, já que a Áustria estava sofrendo uma queda de poder na Europa, e a Hungria “subia de categoria”, podendo ter seu parlamento único e poder de voto.

Na Primeira Guerra Mundial, a aliança da Áustria-Hungria com a Alemanha irritou a tríplice aliança, especialmente a França. Logo, a disseminação do sentimento anti-magiar nas minorias que viviam na Hungria se acentuou de uma forma que houve uma promessa de “doação” de territórios aos povos da “Pequena Entente”, que eram os Romenos, os Sérvios, Checos e Eslovacos. Essa doação de territórios seria uma maneira de enfraquecer a Hungria de modo que ela não viesse mais a ser um problema.

A guerra acabou, e a lei da autodeterminação dos povos se fortaleceu até a assinatura do Tratado de Trianon (Trianon é um salão localizado no Palácio de Versailles), que a Hungria assinou sob protesto, assim como a assinatura pela Áustria do Tratado de Saint Germain, com basicamente as mesmas condições.

O país ficou fraco, como já se imaginava. A Hungria perdeu cerca de 75% do seu território e cerca de 1/3 de sua população étnica húngara passou a viver fora das fronteiras. Essas pessoas perderiam direito à nacionalidade húngara em um ano após a assinatura do tratado. Fora isso, a Hungria perdeu o acesso ao Mar Mediterrâneo que possuía com os portos na Croácia. A maior parte de suas linhas férreas foi perdida nestes territórios doados, e o país não conseguia arrecadar investimentos internacionais, tanto pela guerra, e também pelo fato de Budapeste não ser um centro financeiro tão ativo quanto Viena.

Antigas fronteiras da Hungria em comparação com o território atual.

Antigas fronteiras da Hungria em comparação com o território atual.

A economia da Hungria, predominantemente agrícola não teve tantos investimentos e a industrialização demorou a se firmar no país. Fora isso, a Hungria foi condenada a pagar indenizações para os novos países vizinhos.

Quis escrever esse post por alguns motivos. Estou relendo “A era dos extremos” do Eric Hobsbawm e essa definição de auto determinação dos povos mexeu mais comigo agora que tive uma vivência de campo. Muitos húngaros lamentam a enorme perda do seu território durante a Primeira Guerra, especialmente a região da Transilvânia. Por lá, muitos húngaros étnicos ainda vivem, e para muitos, essa condição foi extremamente forçada e sem sentido.

A Transilvânia é, no coração de muitos húngaros, uma parte eterna do seu território. Muitos não aceitam e nem consideram a Romênia como a atual detentora do território. Mas de certeza é de se entender. Imagina que um belo dia, aqueles boatos absurdos da internacionalização da Amazônia se concretizem e eu, e todos os que nasceram por aqui sejam extirpados de sua nacionalidade e cultura Brasileira devido a implicações diplomáticas de terceiros. Certamente iria me sentir violada e triste. Só quem já passou por alguma situação semelhante pode dizer algo assim.

De qualquer maneira, essa história da autodeterminação dos povos acabou não dando certo (veja a Iugoslávia e a Checoslováquia como exemplo) e a Hungria se aliou a Hitler na Segunda Guerra Mundial, o que eventualmente causou um pequeno ganho de território, mas revertido ao fim da guerra. O Leste Europeu, por diversas razões é um berço de múltiplas nacionalidades e etnias, hoje, com sucesso, vivendo pacificamente dentro de suas fronteiras.

O que se resta não é chorar pelo que aconteceu e sim procurar maneiras de aumentar a cooperação entre países. A União Europeia certamente acendeu a chama do “europeu”, acima do húngaro, do checo, do alemão, do austríaco e de outras nacionalidades. Mas quem olha para a história e vê que uma divisão e interpretação mal feitas, com objetivos de pura vingança e estrelismo mudaram os rumos da história. Talvez 40 milhões de pessoas não tivessem sido mortas na Segunda Guerra se esses tratados arcaicos não fossem feitos.

 

 

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