Me conte mais da mãe Rússia

Quando eu decidi ir pra Rússia lá por 2011, a única coisa que vinha na minha cabeça era “be there”. Estar ali em um país milenar, com grande importância na história recente, e principalmente, enormes diferenças com o Brasil já era um grande motivo para sentir orgulho de mim mesma, especialmente em termos de amadurecimento pessoal. Afinal não é todo mundo que de cara viaja pro outro lado do mundo sozinha pela primeira vez sem enlouquecer com novo idioma, nova temperatura, novos costumes, e por aí vai.

Euzinha, no primeiro dia na Rússia!

Euzinha, no primeiro dia na Rússia!

Muitos motivos me fizeram escolher a Rússia como destino, que já discuti aqui lá nos primeiros posts. Mesmo assim muitos detalhes incríveis só me fizeram confirmar o que eu já imaginava. Baseado no post sobre a Hungria e suas curiosidades, resolvi fazer um semelhante com a Rússia através da sugestão de amigos que me acompanham por aqui.

– Todo mundo aprendeu nas aulas de geografia na escola que a Rússia é o maior país do mundo, mas ela já foi bem maior há umas duas centenas de anos. A área dela se extendia da Polônia até o Alaska e cobria grande parte de alguns países independentes hoje como a Ucrânia, Finlândia, os Países Bálticos, o Cáucaso e o Cazaquistão por exemplo.

– Sim, você leu certo. O Alaska fez parte da Rússia até 1867, quando foi vendido aos Estados Unidos por cerca de 120 milhões de dólares atuais. O nome “Alyaska” em russo é algo como “península” e foi vendido devido à necessidade da Rússia em conseguir dinheiro, aliado ao desejo dos Estados Unidos em ampliar o seu território. Na época, eles ainda estavam interessados em conquistar a Colúmbia Britânica no Canadá e criar uma conexão direta. Isso obviamente nunca aconteceu, e grandes reservas de ouro e petróleo foram achados no Alaska. Os Estados Unidos saíram do lucro com essa transação.

– Eu cheguei na Rússia no dia 7 de janeiro, durante o Natal. Você leu certo de novo, que o Natal é comemorado nessa data. Isso se deve ao fato de que a Rússia demorou a aderir ao calendário gregoriano e quando o fizeram, acabaram readaptando as comemorações em novas datas. Uma semana depois, no dia 14, o “ano novo velho” é comemorado, fazendo com que os russos comemorem o “ano novo” duas vezes por ano.

– Os russos são extremamente místicos e religiosos. Um dos momentos em que essa fé é demonstrada é no ritual do “Batismo do Senhor”, onde as pessoas celebram o ritual do batismo mergulhando em lagos ou rios. Nada muito trivial assim, mas o detalhe é que esse ritual acontece lá pelo dia 18 de janeiro no ápice do inverno! Eu presenciei esses mergulhos e eles aconteciam com uma temperatura externa de -20 graus!

– Acha que se come muita comida japonesa no Brasil? Na Rússia se come muito mais (sem brincadeira)! Existe todo tipo de sushi em TODO lugar, em qualquer restaurante mais eclético por exemplo. A principal diferença é a quantidade de sushis em uma porção. Lá uma porção é de 4 a 6 peças, e aqui em Manaus por exemplo, uma porção chega a ter 12 peças.

– Qualquer chuvinha te impede de ir pra escola/faculdade? Na Sibéria os alunos da educação infantil só são liberados com a temperatura bairando os -40 graus, e os alunos um pouco mais velhos só a partir de -50 graus.

– A Rússia é um dos países com taxa de crescimento populacional decrescente. Adivinha só o motivo principal de acordo com pesquisas sobre o assunto? Muitos homens morrem por cerca dos 40 anos devido a consequências do alcoolismo. Alguns dizem também que não é mais um costume russo ter mais de um filho, especialmente após a queda do regime soviético e da crise econômica de 1998. O governo russo atualmente está tentando inibir o consumo de vodka e ajudando financeiramente famílias com mais de um filho.

– Pelo motivo acima (ou não), a população feminina é maior que a masculina na Rússia.

– Quando se fala em Rússia, muitos pensam logo em Vodka. Água em russo significa “Voda”, e Vodka seria algo como “aguinha”.

– Outra coisa semelhante: Sabe aquele cachorrinho lindo, o Husky Siberiano? “Russo” em russo significa “Russki”, e com o aportuguesamento da palavra, Russki virou Husky. Então o nome do cachorro literalmente é “Russo Siberiano”.

– Os russos são um povo que pode literalmente aguentar qualquer clima. Além do inverno rigoroso bem conhecido, os russos podem enfrentar verões escaldantes pra lá dos 40 graus em cidades na beira de praias ou rios e imensa secura em cidades bem do interior.

– Existem alguns canais de televisão que abaixo do logo da emissora indicam a temperatura vigente na cidade que você está.

– Os russos dirigem bem mal (tenho infelizmente más lembranças de motoristas). Veja-se os inúmeros acidentes de trânsito bizarros no youtube.

– Falando em direção, é comum que os carros de polícia possuam câmeras filmando a estrada. Essas câmeras não são posicionadas pra filmar eventos esporádicos como o meteoro de Chelyabinsk, e sim para evitar práticas de corrupção.

– O site mais acessado na Rússia é o vkontakte, que é uma rede social que só bomba por lá. Eles tendem ser bem mais ativos no VK do que no Facebook por exemplo. Eles chegam a abusar do VK, postando todo tipo de meme (sim, memes) e fotos bem malucas. Tem uma menina que conheci que postou fotos completamente nua na neve e – pasmem – também postou fotos dela cortando o antebraço, e lambendo o sangue que saía dela.

– Russos não sorriem nem falam por favor ou obrigado para desconhecidos (salvo raríssimas – MUITO RARAS exceções). Mas caso você conheça um russo por 10 minutos, eles já se tornam extremamente amigáveis, e se você os conhece por mais de uma semana, você tem um amigo para sempre.

– Já falei por aqui o meu martírio com o Chá. E reafirmo que russos AMAM chá.

– O sistema de aquecimento a vapor é bem potente, deixando as casas bem aquecidas durante o inverno. Você até chega a esquecer que está batendo -30 graus lá fora.

– Russos não usam smiles ou emoticons na internet. Eles usam parênteses! Se for algo feliz, como “Nós vamos sair mais tarde :)” vira “Nós vamos sair mais tarde))))”. Se for algo triste, como “Eu sinto a sua falta :(” vira “Eu sinto a sua falta(((((”

– Eita povo supersticioso! Eles não se cumprimentam debaixo de portas, nem dão flores em números ímpares e ao esquecer algo em casa, eles PRECISAM se olhar no espelho. Tudo isso é sinal de má sorte.

– Mas eles também são super educados e pontuais. Ao cumprimentar alguém no inverno, eles sempre tiram a luva, e ao entrar na casa de alguém, tiram os sapatos.

– O maior museu do mundo é o Hermitage, que fica em São Petersburgo! Anos antes, ele era o palácio de inverno da família real.

– Muitos russos tem nostalgia da época soviética, especialmente no que tange à bravura do país perante a Guerra Fria e à muitos serviços soviéticos que prestavam (assim dizem eles). Também é bem comum de ver monumentos homenageando a URSS e estátuas do Lênin em quase todas as cidades russas. Mas estátuas do Stalin? Essas são bem difíceis de encontrar (fora dos cemitérios de estátuas).

– Falando do Lênin, morto em 1922, seu corpo está embalsamado e está em exposição em plena Praça Vermelha. Já comentei sobre ele aqui.

– Moscou é uma das cidades mais caras do mundo, e uma que tem mais bilionários. Moscou também tem mais Porsches do que em ~toda~ a Alemanha.

– Falando na Porsche, é bem comum ver um Lada (carro de fabricação soviética) ao lado de uma Ferrari em Moscou.

– E falando em carros, Moscou é uma cidade que tem um dos trânsitos mais terríveis do mundo. Mesmo assim, todos ainda compram carros.

– O nome do pai é o nome do meio dos russos. Se nasce um menino, o nome do meio é o nome do pai mais “ich” e se nasce uma menina, o nome do meio é o nome do pai mais “ovna” ou “evna”. Geralmente os russos se apresentam com o seu nome mais o nome do meio. Me lembrei agora do nome da diretora e de uma professora da escola que eu trabalhava. Elas se apresentavam como Vera Vassilievna (Vera, filha do Vassili) e Larisa Alexeeva (Larissa, filha do Alexei).

– Os sobrenomes também sofrem uma alteração de acordo com o sexo. Para os homens, o final do sobrenome é “ev, ov, in, y” por exemplo. Para meninas, essas mesmas terminações ficam como “eva, ova, ina, ya”.

– E terminando de falar sobre nomes, os russos tem o seu nome, e um diminutivo, que é o que eles normalmente preferem ser chamados. Minha host se chamava Ekaterina, mas gostava que a chamassem de Katya. Minha host mother se chamava Tatiyana, mas se apresentava como Tanya, e assim vai. Outros nomes diminutivos são bem estranhos. Uma amiga minha de nome Sofiya era chamada de Sonya (acho meio nada a ver um com outro), e qualquer pessoa chamada Alexander ou Alexandra tem seu diminutivo como Sasha (Sério, não entendi).

Podia falar aqui bem mais, mas já tou chegando a 1500 palavras (risos). Sem problemas, pois vou continuar a escrever tudo sobre a Rússia por aqui. ;)

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