Memórias de uma criança sobre a fronteira

Geralmente os brasileiros têm a sua primeira experiência de turismo internacional na Argentina, Miami, ou até mesmo Portugal. No meu caso, a minha primeira viagem ao exterior (e a primeira overall) foi pra Colômbia, devido ao fato da minha família morar lá. Morando no Amazonas, tínhamos 3 opções para isso nos anos 1990.

A primeira opção era ir de Varig direto para Caracas, e de lá pegar um voo para Bogotá. Aparentemente, era a maneira mais confiável, mas meus avós não queriam pernoitar lá. A segunda opção era viajar na extinta LAB e fazer uma conexão em Santa Cruz de La Sierra, antes de ir pra Colômbia. A terceira opção, e a escolhida, era pegar um voo para Tabatinga, no interior do Amazonas, atravessar a fronteira a pé para Leticia e pegar um voo para Bogotá.

Era dezembro de 1999 e pegamos o voo MAO-TFF-TBT da Varig com direção à Tabatinga. Chegamos lá e pra começar, uma das nossas malas havia sido arrombada e tivemos que ficar com ela mesmo assim.

Pegamos um táxi no aeroporto e nos dirigimos a um hotel no centro de Tabatinga. A cidade possui uma avenida principal chamada “Avenida da Amizade” justamente para representar a “amizade” entre Brasil, Peru e Colômbia.

Além do mais, Tabatinga tinha uma atmosfera tensa. Nenhum rosto me parecia ser agradável por ali, assim como a própria cidade não me era também nem um pouco. Eu simplesmente não gostei de estar ali, me sentia suja e queria voltar pra casa, ou logo aparecer magicamente em Bogotá.

O hotel (não lembro o nome) era bem velho, e a entrada mais parecia mais a de um cabaré desativado. Não sei por que, mas eu me lembro de ter ficado com fome quase o tempo todo ali, e talvez o motivo fosse bem simples: não conseguia comer nada que era servido. Era a primeira vez que uma criança saía da sua zona de conforto para ir a uma cidade de ar pesado, hotel decadente e comida ruim. Certamente não foi uma boa experiência de estar ali naquelas condições.

Porém o nosso (na verdade, meu) martírio terminaria no dia seguinte. Eu era criança e fiquei com medo de Tabatinga, justamente pela cidade ser o total oposto da minha: pequena, infraestrutura ruim e não muito convidativa. Parecia que o meu dia iria terminar feliz, já que o hotel servira um café da manhã muito bom (surpreendente pra mim), e naquela manhã mesmo iríamos para Bogotá.

Pegamos um táxi e o meu avô me disse que iríamos pra Colômbia nele. Ele só fez ir até uma parte da Avenida da Amizade, um guarda parou a gente e seguimos viagem. Após alguns minutos, e ver algumas diferenças na cidade eu perguntei do meu avô se nós já estávamos na Colômbia, e ele disse que sim. A fronteira é simplesmente assim: você está andando numa cidade e quando percebe já está em outra. Passei anos acreditando que todas as fronteiras do mundo eram iguais à de Tabatinga e de Letícia.

Fronteira comprovando a mesma massa urbana de Leticia e Tabatinga. Atravessando o Amazonas já é o Peru.

Fronteira comprovando a mesma massa urbana de Leticia e Tabatinga. Atravessando o rio Amazonas já é o Peru.

Fomos até o aeroporto de Leticia e nos deparamos com a surpresa de que o voo, de uma empresa aérea chamada Aerorepública havia sido cancelado pois o avião tinha apresentado um problema. Seria um dia a menos em Bogotá, e mais um no interior. No entanto a companhia aérea nos pagou uma diária de hotel em Letícia, que pelo menos me fez sentir muito melhor.

O hotel era moderninho e aconchegante, além do fato de eu possuir uma cama só pra mim (coisa que eu não tinha em Tabatinga). A comida magicamente mudou atravessando a fronteira e eu não passava mais fome. Inclusive me lembro de uma sorveteria maravilhosa em Leticia.

Eu não tive mais a sensação de desconfiança de Tabatinga estando em Leticia. Não sei se era por causa do que fizemos em Leticia ou deixamos de fazer em Tabatinga, ou mesmo do hotel que estivemos hospedados em cada uma das cidades. Fiquei com medo de Tabatinga.

No dia seguinte, fomos no mesmo horário do nosso voo para ir até Bogotá. A novidade: o avião que deveria sair lá pelas 8h30 estava atrasado. Previsão? Só lá pelas 10h. Ficamos ali no aeroporto esperando.

O avião foi atrasando, atrasando, atrasando… decolamos lá pelas 14h. Naquela época não havia restaurantes nem lugares para comer no aeroporto de Leticia, e a única coisa que eles tinham para venda eram Oreos. Foi o que almoçamos.

Se a Camilla de hoje fosse viajar nesse voo que a Camilla pequena foi, certamente ela estaria morrendo de medo. Era o tempo todo turbulências de qualquer maneira, e na época até achei divertido. Uma coisa que me incomodou muito, bem mais que as turbulências foi o fato de um óleo fedorento estar pingando em cima do meu assento (!!!). Ele começou a pingar mais ou menos no início do voo e durou até o final.

Cheguei em Bogotá e conheci todos aqueles parentes que o meu avô falava tanto, e amei. Quando voltamos, tomamos uma decisão crucial: não ficaríamos hospedados no hotel que tínhamos reservado para a volta, aquele mesmo lá de Tabatinga, e sim no de Leticia. Foi bom e creio que no dia seguinte voltamos a Manaus.

Eu, naquele momento, não tinha ideia do problema do tráfico de drogas existente na região e no “esquecimento” das autoridades brasileiras, especialmente devido às distâncias do Alto Solimões. Eu não sabia nem o que uma droga era.

Hoje penso que se eu voltasse a Tabatinga, não teria uma imagem tão negativa do que a que eu tive quando era criança. Hoje conheço a realidade da minha região e não me assustaria tanto com o choque. Creio que a região do Alto Solimões, que não tive oportunidade de conhecer a fundo seja incrivelmente bela!

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