Partiu aventura e pé na estrada!

Viajar para um outro país sem sequer entrar num aeroporto pode ser uma jornada e tanto, especialmente quando você mora no norte do Brasil e pretende chegar no Mar do Caribe em pouco mais de um dia. Esse trajeto é constantemente feito por muitos amazonenses para chegar na Venezuela, e fui pra lá no início de 2007.

Um desses primos já havia feito essa viagem e havia gostado muito, e queria companhia para ir novamente. Acabamos indo eu, minha mãe, dois primos e duas tias, e o destino seria a Isla de Margarita, no Caribe venezuelano. Como eu tinha 15 anos e ninguém se arriscava a ir dirigindo, contratamos um tour de ônibus que esse meu primo conhecia, e decidimos ir.

Normalmente, a viagem de ônibus é bem mais longa que a de carro, tanto pelo tamanho do veículo (e consequentemente, velocidade), número de paradas e tudo. Os mais apressados chegam no Caribe em menos de 24 horas, e nosso ônibus levou 1 dia e meio até lá.

Caminho pela estrada até o Caribe

Caminho pela estrada até o Caribe

Saímos de Manaus às 21h, e o ônibus partiu pela BR 174, que é a estrada que liga Manaus à Venezuela. Grande parte do trajeto na estrada era tranquilo até pouco depois de Presidente Figueiredo (ainda no Amazonas).

Depois de Figueiredo, precisaríamos entrar na reserva indígena Waimiri Atroari, perto da represa de Balbina, mas na época eles fechavam o acesso à estrada a partir de meia noite. Quem chegava após isso tinha sua entrada barrada até a reabertura dos portões, lá pelas 6 da manhã.

Chegamos um pouco antes da meia noite e não precisamos ficar na porta da reserva. Mas a partir de então, a viagem se tornou turbulenta. A estrada na reserva não estava boa, e só sentíamos o ônibus passando por todos os buracos possíveis. Após atravessar a fronteira com Roraima (a reserva continua), os buracos pareciam ser piores, e dava até pena da suspensão do ônibus.

Pouco a pouco, já notávamos uma diferença sutil na paisagem. A floresta amazônica continua em Roraima mas em um certo ponto, já começávamos a ver montanhas e um diferente tipo de vegetação próximo à Boa Vista. O amanhecer foi bem bonito!

Fizemos uma parada estratégica em Boa Vista numa espécie de café da manhã regional, onde pudemos ir ao banheiro (havíamos parado na estrada de madrugada, mas o lugar era horrível!) e comer alguma coisa rápida. Não deu tempo de parar na cidade, mas pelos lugares que vi, Boa Vista parecia ser uma cidade organizadinha e bem bonitinha. Seguimos direto pela 174 e começamos a ver muitas lindas montanhas e um cenário incrível!

Algumas horas depois, chegamos na última cidade do Brasil antes da fronteira, chamada Pacaraima (muitos ainda a chamam de BV-8 devido à época que Roraima ainda era Território Federal). Comemos num restaurantezinho de comida caseira (que estava muito boa, btw), e aguardamos a hora de seguir viagem. Pacaraima é uma cidade pequena, de fronteira, onde muitas casas ainda são de madeira e onde muita coisa lembra um grande bairro.

Você meio que sente o cheiro da fronteira. O clima, a situação… tudo parece ser diferente! Antes de chegarmos até à divisória oficial Brasil-Venezuela já víamos um grande movimento de pessoas indo e vindo, comércios bombando, pessoas querendo trocar seus reais por bolívares (moeda da Venezuela) e tudo.

Na fronteira, existe um monumento representando a fronteira com a bandeira dos dois países e uma pequena alfândega. Lá foi a primeira vez em que tive que carimbar meu passaporte para atestar que eu estava saindo do Brasil. Após esse passo, passamos um ou dois km na estrada até chegar a alfândega venezuelana. É obrigatório parar lá, já que é onde você encontra o oficial da imigração, que carimba seu passaporte e coloca a quantidade de dias que o seu visto é válido. O processo era bem manual, nada moderno. Mesmo assim, foi bem tranquilo e sem incidentes.

A qualidade da estrada na Venezuela é impressionante! Juro que a estrada é como um tapete! E logo quando entramos no país, eu só via belas paisagens com riachos de cor azul, montanhas ao fundo, grama bem verdinha, e de vez em quando, alguma tribo indígena aparecia na beira da estrada.

Ponto de atenção é para o Monte Roraima. Essa montanha que fica na tríplice fronteira Brasil-Venezuela-Guiana lembra uma cama, por ser bem alta, e no fim, reta. As nuvens desciam de lá de forma com que parecia uma cachoeira! Simplesmente lindo!

Mas confesso que nosso ônibus foi parado diversas vezes por soldados, ou algo do tipo. Eles entravam, pediam pra ver nossos passaportes, conversavam com os motoristas e iam embora. Em certo ponto, eles paravam quase toda vez.

Naquela noite havia chovido. E justamente quando estávamos passando por uma parte da estrada que ficava à beira de um precipício (fui descobrir isso na volta). Deu um medo, mas quando menos percebi, dormi e acordei. Já estávamos entrando em Puerto La Cruz, aonde iríamos pegar o ferry boat com direção à Isla Margarita.

O porto de Puerto La Cruz era bem bonitinho e organizado. Havia uma cantina com boa comida (e PIRULIN!!!!), onde tomamos café da manhã. Pois havia um último “problema” antes de ir para Margarita. O ferry que nos levaria havia quebrado (que levaria o ônibus, a passagem era mais barata, o barco era velho e a viagem era de 4h), e seríamos realocados para outro (que não podia levar o ônibus, a passagem era o dobro da anterior, o barco era novo e moderno e a viagem seria de 1h). Não vi nenhum problema nisso! ;)

E depois de 1h de barco e 18 horas desde que saímos de Manaus, chegaríamos a Margarita. Coloquei dicas sobre a Isla de Margarita neste post, mas a conclusão é: viajar na estrada pode ser uma aventura, e se a viagem for de Manaus à Venezuela, muitas histórias aparecerão.

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