Sob o olhar de Stalin

Em Praga, de fato existem vários monumentos que representam diversas fases e culturas que marcaram a vida da população em alguns séculos de existência. Uma dessas eras foi certamente o comunismo, com a então Checoslováquia como um dos membros mais atuantes da cortina de ferro.

Esses países sob a influência da União Soviética absorveram certos aspectos da vida da Rússia, país soviético mais influente. Além da economia planificada, esses países tinham vários aspectos em comum, como na arquitetura caracterizada pelos novostroikis e um certo tipo de modernismo quadrado, fortes investimentos em educação e esporte, e também o culto aos líderes soviéticos, especialmente a Lênin e a Stalin.

Até hoje, Lênin é venerado na Rússia, com a presença de estátuas em diversos pontos nas cidades. Stalin já não tem um bom background, hoje sendo conhecido por frequentar vários cemitérios de estátuas por aí.

Nos anos 1950, a Checoslováquia decidiu homenagear o antigo líder soviético com uma grande estátua em umas colinas na margem esquerda do rio Vltava, bem no parque Letna, de forma com que grande parte da cidade tivesse vista para ela.

O ditador morreu em 1953, e o monumento ficou pronto apenas em 1955. Um ano depois, o então líder soviético Khrushev decidiu abolir o culto a Stalin, fazendo com que muitas dessas estátuas espalhadas pela Europa Oriental fossem retiradas ou destruídas.

A verdade é que os checos não gostavam nem um pouco da estátua. Eles sempre meio que a parodizaram, e esse monumento, em off, era motivo de vergonha para os cidadãos de Praga. Ela era enorme (15 metros de altura e 22 de largura e pesando 17000 toneladas) e pelo formato, com pessoas atrás do ditador, ela foi batizada de “fila do pão”, numa alusão à dificuldade na obtenção de alimentos no regime comunista.

"Fila do pão"

“Fila do pão”

Em 1962, ordens vindas diretamente da União Soviética apontavam que a estátua não ficaria mais ali, mas tudo foi feito de maneira comunista, ou seja, bem na surdina. Eles acharam que a melhor alternativa seria a implosão da estátua com dinamite no meio da madrugada. Acabou que vários pedaços de rocha voaram pelos ares inclusive atingindo algumas casas, e no final, a estátua não foi completamente destruída. Uma notícia bem interessante do El País em espanhol sobre o assunto se encontra aqui.

Uma outra curiosidade importante é que o artista que projetou “a fila do pão” foi obrigado pelas autoridades checoslovacas a executar esse projeto de qualquer maneira. A pressão junto da polícia secreta combinada com a insatisfação da estátua o tornou tão desgostoso que ele cometeu suicídio apenas 3 semanas antes da inauguração.

Hoje em dia, o lugar que abrigava essa fadada estátua tem uma espécie de pêndulo, que lembra um relógio ou algo assim. Ele foi construído após 1991 depois de muita discussão sobre o que fazer nesse antigo parque, que se encontrava abandonado. Na minha opinião, ele ainda continua sendo muito bizarro, e de certo modo, continua sendo uma lembrança do comunismo tão menosprezado pela população, mas mesmo assim, é muito melhor do que possuir um ditador “olhando” por cima de todos, onipotente e onipresente.

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