A “feijoada” de Boyacá

Meu avô é colombiano e ele vem de uma região não tão conhecida assim pelo público brasileiro, que é o departamento de Boyacá. Cresci ouvindo histórias dele sobre as montanhas, a cidadezinha onde ele nasceu, as fazendas e os animais dele e sempre fiquei com uma imagem bem bucólica na cabeça sobre Boyacá.

Chegando lá pela primeira vez em 2000, fomos até Sotaquirá, o pueblo onde ele nasceu, e iríamos almoçar Índios. Sim. Índios!!! Agora explica para uma criança que não iríamos comer os índios (indígenas), mas sim um prato chamado Índios (sem canibalismo, pfvr).

Não comi aquilo ali de jeito nenhum da primeira vez. A aparência não me era boa a princípio e aquele nome me fazia pensar que aquela carne do prato era de uma pessoa (mesmo não sendo, obviamente).

Alguns anos atrás (2012), voltamos à Colômbia e como sempre pegamos a estrada e fomos até Boyacá. Dessa vez eu decidi que eu iria sim comer os famosos Índios! Não teria escolha mesmo…

Na casa de uma prima foi um enorme banquete com muita música e animação! Ela providenciou todos os ingredientes, os cozinheiros, chamou alguns músicos que cantavam música boyacense e ela chamou toda a nossa família que ainda morava na região.

Chegou a hora e todos fomos servidos com Índios. O prato estava bem cheio, mas não tão assustador quanto da primeira vez. Antes eu me lembrava de uma sopa com um pedaço de carne no meio, mas eu cheguei a conclusão de que eu “pensei que tinha visto isso”. Os Índios são um prato cheio de vários ingredientes.

Comida sotaquireña: Índios

Comida sotaquireña: Índios

Ele tem essa carne de boi e porco meio que assada na brasa, uma couve especial encontrada só em Sotaquirá preenchida com uma espécie de massa, milho, batatas, e uns feijões grandes. Não sou muito fã de carne assada, mas até que consegui comer um pouco. A couve com a massa é bem gostosa, e me impressionei com o tamanho dos feijões!

Tinha muita comida ali e não consegui comer tudo. Fora isso o prato é pesado, e você acaba sentindo isso durante o resto do dia. O que achei da comida? Gostei! E comeria de novo uma segunda vez.

Para completar o post, o meu avô me contou a história do surgimento do “Índios”, e como esse prato ficou famoso (pelo menos no interior de Boyacá). Ele fala que quando os nossos antepassados que eram colonizadores vindos da Espanha, chegaram à Colômbia, eles se instalaram na região montanhosa de Boyacá. Porém lá viviam uma tribo indígena que resistiu bravamente à ocupação de suas terras.

Ele também colocou no meio a história do Sotaire, que era um líder indígena que lutou contra os espanhois para impedir a colonização da região. Porém ele foi preso, e reza a lenda de que numa eventual fuga, ele se refugiou numa montanha bem alta dali, mas acabou se jogando lá de cima para não ser capturado novamente.

Com o líder indígena morto, os outros índios acabaram virando empregados dos espanhois, sendo como domésticos, cavaleiros, agricultores e afins. Fiz a analogia da feijoada no título, pelo fato de que os “Índios” foram criados com a sobra de comida que esses empregados tinham. A couve é única na Colômbia, a carne é assada na brasa, de maneira bem rústica e assim sucessivamente.

Só que assim como a feijoada, os Índios se tornaram bem populares entre os espanhois, e este passou a ser um prato bem apreciado por todos os habitantes da região. Então, o prato foi batizado de “Índios” para homenagear seus criadores! Vale também lembrar que a cidadezinha que o meu avô nasceu, Sotaquirá, recebeu este nome em homenagem ao índio Sotaire.

Conversar com o avô dá nessas histórias, certo? Além do mais, vale compartilhar esse prato diverso e bem delicioso da região mais charmosa da Colômbia.

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