O medo de avião

Vou confessar algo muito importante por aqui: eu adoro viajar! Acho que não tem nenhuma novidade nisso, mas tenho uma contrapartida: eu odeio voar.

E não é o “ódio” de você não suportar ou literalmente não gostar de algo. O meu caso é o ódio de você ter que enfrentar algo extremamente desconfortável pessoalmente, mas saber que é necessário e importante para sair da sua cidade de vez em quando.

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Sobrevoando algum lugar

 

O meu caso é meio desconcertante. Eu já fiz várias viagens com as mais variadas durações, conexões, e todo tipo de situação, porém eu ainda morro de medo de saber que eu vou ficar a milhares de metros de altitude onde qualquer coisa pode literalmente acontecer.

Toda vez que eu viajo, mais ou menos no dia anterior eu já começo a ficar bastante ansiosa, tensa e nervosa. Eu imagino na minha cabeça todo tipo de situação que possa acontecer comigo e com a aeronave e já começa por aí. Ao entrar no avião, as minhas mãos e pés começam a suar muito, e geralmente eu tenho que apertar a mão de alguém pra pelo menos, me sentir um pouco mais segura.

Mas o meu medo maior é na hora da decolagem e nas manobras que os pilotos fazem para ganhar altitude ou mudar de posição. Nossa, quando o avião vira em alguma manobra, ou quando eu acho que o ângulo de ataque está muito alto na hora da decolagem, eu começo a chorar! Eu choro muito mesmo e não consigo parar, mesmo sabendo inconscientemente que está tudo bem.

O nervosismo e o choro só passam na hora em que o avião se encontra em altitude de cruzeiro, que é quando o avião se estabiliza acima das nuvens e onde o voo é mais tranquilo (e seguro). A tensão volta na hora do pouso, mas confesso que nessa hora eu já estou bem mais tranquila e calma, e só fico de orelha em pé, prestando atenção nos movimentos na aeronave.

Welcome to San Fran!

Welcome to San Fran!

Eu obviamente sei que o avião é o meio de transporte mais rápido e seguro do mundo, e que muitas situações são normais, já que os aviões são projetados para enfrentar inúmeras situações. Situações estas que incluem chuva, neve, altitude, atravessar nuvens densas, gelo nas asas, turbulências, e muitas outras.

Pra piorar a situação, de uns três anos atrás eu comecei a me informar bastante sobre aviação e claro, acidentes aéreos. Para mim, é importante saber os casos de acidentes e o que os motivos que levaram a estes fatos. Também fui atrás de possíveis ameaças para a segurança do avião e toda vez que vejo algo, meu coração dispara de medo.

A maioria dos aviões são projetados para voar com pelo menos uma turbina, em caso de algum tipo de defeito na outra. Esse funcionamento é o suficiente para que o avião volte para algum aeroporto próximo em segurança, e a maioria dos fatos envolvendo turbinas envolvem colisão com pássaros.

Dependendo do porte da turbina, algumas aves batem e não causam tantos problemas, mas geralmente quando estas são atingidas por urubus, que são aves grandes, pode ser que a aeronave tenha problemas. Estava eu em Tefé esta semana, e ao voltar pra casa eu já estava nervosa como sempre. E o pior que bem na hora que o avião estava indo em direção à cabeceira da pista eu avisto quatro urubus voando bem acima da pista!

Eu comecei a chorar ali mesmo! Eles estavam numa altura e posição em que seria fácil que algum destes urubus atingissem a turbina, e a aeronave, um Embraer 195, é relativamente pequena, e com um dano de uma ave destas na turbina seria gigante. Como o aeroporto de Tefé é pequeno, já imaginei como seria se sei lá, acontecesse alguma coisa.

Algumas passagens aéreas e de trem

Algumas passagens aéreas e de trem

Ainda bem mesmo que não aconteceu nada. Porém uma das outras vezes em que me deu bastante medo foi em Moscou. Eu iria em direção a Istambul, e por causa do inverno, estava nevando muito. Eu havia acabado de me despedir da última pessoa que eu havia conhecido na Rússia, que iria decolar para outro destino uns cinco minutos depois de mim. Comecei a chorar no saguão do aeroporto, mas não de medo (ainda), mas de saudade e agradecimento. Ao entrar no avião, vi melhor como estava a pista: Cheia de neve.

Momentos após a entrada no avião, o comandante, com forte sotaque turco estava falando num tom de voz bem preocupado. Ele dizia que havia gelo nas asas e que o avião estava fazendo o defrosting para podermos decolar com segurança. Eu sei que o defrosting é comum, especialmente em regiões um pouco mais frias, porém quando ele não é feito da maneira correta, o gelo nas asas pode causar acidentes. Me lembro de um acidente em particular onde o defrosting mal feito causou problemas e a morte de vários passageiros.

Fora isso, a pista estava coberta de neve, e não duvidaria se ela estivesse com gelo também. Imagina passar por uma pista dessas em velocidades absurdas passando em cima de gelo? As nuvens ali também estavam bem densas por causa da neve, mas surpreendentemente não houve nenhum tipo de turbulência na subida, o que geralmente acontece com nuvens mais carregadas.

Detalhe em turco.

Detalhe em turco.

Fora isso as amadas turbulências! Já passei por cada uma, com gente gritando, copos voando, e até uma criatura sentada na minha frente levantando os braços e se divertindo como se estivesse numa montanha russa. Já atravessei furacão em formação, decolamos numa onda de ventos muito fortes que estavam cancelando voos pelo país, e claro, já vi outros aviões passando bem pertinho do meu, fazendo aquelas faixas no céu, como rastros de passagem.

Também poderia comentar sobre acidentes famosos aqui, já que conheço vários e estranhamente gosto de saber sobre o assunto, mesmo morrendo de medo de voar.

Sobre o medo que eu tenho em si, eu me convenci que eu tenho que buscar a ajuda de um psicólogo. Eu sei que o que eu sinto não é normal da maneira como se intensifica, porém eu sei e continuo confiando nas aeronaves, tripulação e todos os envolvidos na aviação. Mesmo com toda essa consciência positivo, eu não consigo parar de ter medo. E para aqueles que tem medo como eu, só resta uma coisa a ser feita: enfrente esse medo de frente, que conhecer novos lugares é extremamente gratificante, e valerá a pena todo momento de tensão que nós passamos.

Bem no meio do Atlântico

Bem no meio do Atlântico

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