7 fotos e 7 histórias

Uma das características mais marcantes do ser humano em tempos mais atuais é a de eternizar momentos através de fotos. A história recente é cheia de vários casos em que fotos retratam sentimentos diversos, especialmente em momentos mais marcantes.

O viajante e o turista comuns também gostam de retratar esses momentos com câmeras. Uma forma de lembrar para sempre (ou pelo menos por um bom tempo) aquele lugar incrível, aquela comida maravilhosa, aquele artista de rua talentoso e também os famosos “aha-moments”, que são aqueles momentos de descoberta instantâneos, que muitas vezes te fazem cair o queixo.

Aqui separei 7 fotos minhas e suas histórias. O post será longo, e terei o maior prazer de escrever, assim como espero que vocês tenham o mesmo sentimento lendo.

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Foto 1: Satisfação na subida
Onde: Bastião dos pescadores, Budapeste, Hungria.
Quando: 14 de abril de 2013.

Aqui no Camilla Pelo Mundo eu destaquei bastante a minha experiência na Hungria, que de fato foi incrível e inesquecível. Porém eu nunca postei essa foto, apesar de ter falado um pouco sobre a história dela nesse post.

Era o meu primeiro dia em Budahome, um domingo ensolarado. Combinei de encontrar com a minha roomate em Margaret Island, onde ela estaria num piquenique com outros intercambistas. Eu teria que ir comprar meu chip de celular e o meu passe de ônibus e não poderia ir com ela, mas eu prometi que eu iria até lá depois.

Essa Margaret Island é aquela ilhazinha ali ao fundo cheia de árvores, no meio do Danúbio. Escrevi sobre ela aqui. Então, depois de caminhar bastante e morrendo de medo de me perder, acabei a encontrando numa rodinha de pessoas, todas rindo e felizes, contando suas histórias de seus países, tirando fotos, e claro, comendo.

Em 30 minutos parecia que eu já os conhecia há vários dias e estávamos em sintonia. Juro que me senti muito bem, e feliz. Até então, com um dia de estadia, a minha viagem para BP tinha valido a pena.

Então alguém, no fim da tarde, sugeriu que fossemos ao Castelo de Buda, já que algumas pessoas ainda não tinham ido até lá. Acabamos pegando o tram até o “sopé” do Castelo e subimos tudo a pé. O meu condicionamento físico era (e é) péssimo, e como eu ainda não estava ainda adaptada com o clima nem nada, aquela subida foi horrível. Aquele castelo tinha que ser bom!

Era domingo e o Castle Hill não estava tão cheio assim. Meio que por causa disso, chegamos e conseguimos conhecer muito dali. Então paramos no Fisherman’s Bastion, que é uma espécie de vista point da cidade, e a minha reação ao olhar tudo aquilo sob o pôr-do-sol foi incrível! Eu jamais havia me emocionado tanto com uma paisagem!

Meses antes eu jamais imaginava que eu poderia estar ali! Depois de sofrer um acidente feio no pé e ter deixado o trabalho para viver essa aventura, subir aquilo tudo e se deparar naquele lugar lindo cheio de gente ao redor, mas no fundo sozinha já foi uma vitória! Queria eu poder compartilhar aquela imagem e a sensação com a minha família, especialmente.

O máximo que eu pude foi tirar uma foto, que ajuda a expressar no mínimo a compreender como foi esse momento. A cara cansada e os óculos parecem ocultar, mas nunca estive tão feliz em ~apenas~ observar paisagens.

 

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Foto 2: Primeira vez.
Onde: Praça Vermelha, Moscou, Rússia
Quando: 7 de janeiro de 2012.

Ah, a minha aventura na Rússia <3. Sempre sonhei em conhecer esse país, mas não sabia como. Felizmente eu conheci o intercâmbio pela AIESEC onde a mãe Rússia é um dos principais suppliers, sempre recebendo gente. Quando fiz intercâmbio pela primeira vez, no fundo sabia que ali que era o lugar, o meu destino!

Pela AIESEC mesmo, acabei conhecendo um menino do escritório de Moscou, que queria dar “match” em outro intercambista (quando eu ainda nem pensava em viajar) e acabei mantendo contato com ele. Assim que decidi o meu destino no interior da Rússia, o contatei pedindo ajuda, já que eu chegaria em Moscou de noite e num feriado. Super solícito, ele disse que ia me buscar no aeroporto e me ajudaria a comprar a passagem de trem para Saratov.

Dito e feito e ele foi me buscar! Uma pessoa incrível e me ajudou em todos os momentos. Correu pra pegar o Aeroexpress comigo, me ajudou a comprar passagens e trocar dinheiro, e ainda me levou no Mc Donald’s pra comer, haha. E ainda por cima, foi o meu guia de turismo na Praça Vermelha.

Então, eu sou do Norte e mesmo tendo viajado para o exterior antes, eu nunca havia visto neve. Nunca! Naquele dia, as temperaturas na capital russa beiravam os 2, 3 graus positivos, mas nada de neve, apesar da umidade. Naquele momento eu percebi uma coisa que já me deixou muito chateada: a minha câmera não tirava fotos boas à noite por causa do frio. Prontamente o meu amigo me ajudou e tirou a câmera dele da mochila e começou a tirar minhas fotos, haha.

Nesse meio tempo, eu acabei vendo um montinho na neve. Me emocionei tanto e perguntei se aquilo era neve mesmo! Ele disse que sim (claro, né), por que havia nevado alguns dias antes e haviam colocado toda a neve da praça naquele cantinho. A caboclinha orgulhosa da Amazônia foi lá e se jogou no monte de neve, toda feliz! Sentei, me deitei, e o meu amigo rindo de mim tirando fotos.

O detalhe é que no fundo da foto, vemos o GUM, que é o shopping mais caro de Moscou e um dos mais requintados do mundo. Os oligarcas bilionários vivem fazendo compras lá. Se algum ricaço ou qualquer outra pessoa achou estranho essa pessoa aqui feliz no monte de neve, tanto faz, tanto fez. O importante foi que eu literalmente “me joguei” nessa aventura.

 

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Foto 3: Vista para a eternidade
Onde: Cemitério, Sotaquirá, Colômbia.
Quando: Algum dia de janeiro de 2003.

Apresento-vos o Vale de Sotaquirá, terra do meu avô. A Colômbia ainda é uma incógnita para muitos brasileiros, e mesmo assim, muitos vão saber um pouquinho mais sobre Bogotá e Cartagena. Essa região é a Andina no departamento de Boyacá e cresci com histórias sobre fazendas, vales lindos, montanhas e tudo mais, tudo vindo das memórias do meu avô.

Não era a minha primeira visita a Sota, mas foi a primeira com uma câmera digital. A qualidade da foto não está boa, por causa da tecnologia da época, mas fiz questão de pegar a câmera emprestada da minha prima para tirar essa foto.

Nesse cemitério estão enterrados o meu bisavô e alguns parentes. Olhando um pouco mais fundo, é possível perceber que esse cemitério fica numa colina, e é preciso uma boa pernada para subir. O choque vem na hora da descida, quando você se depara para o vale e as montanhas no fundo.

Aquela vista foi tão marcante pra mim, que desde então eu penso em como aquelas pessoas que estão enterradas ali são privilegiadas. Literalmente elas estão “descansando em paz”.

Passei 9 anos sem viajar para a Colômbia e quando voltei, não só recriei essa foto, mas também tirei várias outras, e o clima de paz ainda persiste! Sotaquirá é uma cidade bem pequena, na verdade um povoado, que passou muito tempo esquecido no seu clima bucólico. Hoje muitas coisas já chegaram por lá, como internet no meio das fazendas e até um hotel, coisa inexistente em 2003. Mesmo assim, algumas coisas nunca mudam, e o vale continua do mesmo jeito, deixando a vista do cemitério tão bonita quanto foi em épocas passadas. Não me importaria de ser enterrada ali.

 

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Foto 4: Gabi e as pombinhas
Onde: Piazza San Marco, Veneza, Itália.
Quando: 19 de agosto de 2010.

A foto não está muito bem “tirada” (créditos para a excelente fotógrafa, na época), mas marca uma viagem muito especial que eu fiz pra Europa com a minha família. A Bi era pequenininha ainda e ficou empolgada com as pombinhas da Piazza San Marco, que já se acostumaram com os turistas e ficam rodeando a todos.

Ela mal sabia falar e durante a viagem aprendeu a falar “pombinha”. Diferente de outras crianças, ela se empolgou com os passarinhos (mesmo sendo pombas, pq né) e se divertiu correndo atrás delas. Esse dia também tem outra foto marcante dela, “brigando” comigo, com uma carinha brava e um dedinho, meio que se estivesse apontando, mas não vem ao caso agora.

Esse dia também foi marcante pelo fato de Veneza ter se tornado uma surpresa pra mim. Eu não queria ir para lá de jeito nenhum e aquele dia quente aparentemente estaria confirmando minhas expectativas, mas não. Aquele mundaréu de turistas não tinha conseguido esconder a beleza que tinha feito dessa cidade o grande destino que é.

Momentos depois, fomos passear no Grand Canal, e no passeio de gôndolas estava incluso uma apresentação com um cantor e um sanfoneiro. Aquele foi o cartão de visitas: ~você está na Itália~. Lembram do a-ha moment? Esse com certeza foi um.

 

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Foto 5: Observando Monterey
Onde: Monterey, Califórnia, Estados Unidos.
Quando: 3 de maio de 2014.

A Costa da Califórnia é linda demais! Monterey, Carmel by-the-sea e o Big Sur oferecem vistas sensacionais! Após um dia na estrada com lindas vistas, paramos numa cidadezinha chamada Monterey, que ainda conserva muito da história colonial da Califórnia, lembrando que esta cidade foi a primeira capital do estado.

Um dos principais lugares da cidade é a Cannery Row, que é uma rua que preserva muitos aspectos da arquitetura colonial, além de possuir várias lojas e restaurantes bons. Ali também dá pra ver a majestosa vista de Monterey Bay, com direito a uma pequena praia, mirantes e afins. Ninguém estava nadando ou surfando ali, mas tinha muita gente brincando na areia, um fim de tarde qualquer.

Nessa hora, uma banda estava tocando uma espécie de música peruana, bem agradável. Tinha também um ventinho bom, crianças correndo e pessoas tirando fotos. Me apaixonei pela vista e comecei a tirar fotos. Fotos da bandeira da Califórnia, da rua em movimento, das pessoas na praia, e eu encontro essa por acaso.

Fico imaginando o que esse rapaz estaria pensando. Seja o quer que fosse, esse lugar seria o ideal para escapar da vida e pensar um pouco. Pensar é bom. Nos leva a refletir sobre aspectos da vida que estão dando errado, o que podemos fazer para acertar, e também nos ajuda a estabelecer planos e metas.

Se eu estivesse no lugar desse homem, eu sairia satisfeita dali qualquer fosse o meu pensamento. Talvez o Oceano Pacífico pudesse me dar a resposta.

 

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Foto 6: Uma forma de libertação
Onde: Lennon Wall, Praga, República Tcheca.
Quando: 4 de maio de 2013.

Fui pra Praga com a minha roomate e ela queria muito ir ver essa Lennon Wall. Honestamente eu pensava que essa parede era só um muro todo pichado por uns jovens comuns, e não sabia o por quê dela querer visitar esse muro e não gastar nosso tempo vendo outros lugares interessantíssimos de Praga.

Alguns momentos depois a ficha caiu. Outro a-ha moment me deu um insight importante, já que eu me considero tão sabida em história assim. Nos anos 80, essa parede comum começou a ser pintada por pessoas comuns com frases de músicas dos Beatles e citações de John Lennon.

Com o passar dos anos, esses dizeres começaram a “evoluir” para críticas ao regime comunista da Tchecoslováquia. O muro chegou a ser pintado algumas vezes, mas logo depois, novas frases sobre amor e paz já estavam escritas, junto com flores.

Esse muro passou a realizar um ideal muito mais profundo, mas que qualquer pessoa pode associar. A tão “proibida” liberdade de expressão do regime comunista foi desafiada com frases de amor numa parede. Aquelas pessoas que só queriam paz estavam conseguindo meios de se expressar de uma maneira muito simples, mas na época, polêmica: escrevendo.

Não é a toa que muitos jovens tiram fotos na Lennon Wall. Geralmente somos nós os que estão associados à vontade de mudança, e da difusão do amor e da paz no mundo, por mais utópicos que esses sentimentos sejam. E por mais simples que uma atitude como escrever possa parecer simples, esses jovens estavam desafiando algo muito mais complexo. De uma maneira ou outra, eles conseguiram o que queriam.

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Foto 7: Vá até onde der
Onde: Museu Albertina, Viena, Áustria.
Quando: 28 de dezembro de 2012.

Então, eu estou de muletas na foto, e o motivo é simples. Eu sofri um acidente na Alemanha e não gostaria de contar os detalhes aqui, e acabei ficando o resto da viagem de muletas e com o meu pé todo machucado. O mais plausível seria voltar pra casa e deixar essa viagem para lá.

Mas não, eu quis seguir com essa viagem até o fim! Era algo muito planejado e desejado por mim e a minha mãe, e eu ia conseguir andar o máximo que pudesse. Desistir não estava nos planos.

Essa bota rosa era bem fofinha e acabou não prejudicando o meu pé, mas ela não era impermeável, o que me deu muito frio no inverno chuvoso de Viena (como dá para se ver na foto). Acabei pensando: “Esse frio vai servir como uma compressa de gelo nos meus pés”, e fui, com frio e com dor.

Acabei andando o centro de Viena num dia, e fui pra Schönbrunn no outro. Subi desde o palácio até a Gloriette sem reclamar, e chegar ao alto, foi uma vitória por si só. Voltei pra Munique e continuei andando, e assim segui até chegar em casa. E assim ganhei novas histórias para contar, algumas até aqui no site.

Essa foto mostra o quanto eu me “deixei levar”. Estava ali e iria aproveitar de qualquer maneira, entendeu? ;) Absolutamente nada podia me derrubar, e desistir, em qualquer instância, não está nos meus planos.

 

 

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Influência póstuma. Até quando?

Um dos fatos mais curiosos sobre a Rússia de hoje é o fato de ainda existirem inúmeras demonstrações de saudade e apoio à União Soviética. Leia-se: esses movimentos ainda existem, porém uma pequena parte da população a apoia de fato!

E uma dessas demonstrações curiosas, especialmente para os olhos de uma pessoa “ocidental” é a presença de várias estátuas do líder da Revolução Russa em pontos importantes de várias cidades russas. Mas não é só em estátuas que a figura do Lênin é retratada. Muitas avenidas e outros lugares possuem uma representação direta ao líder comunista.

O que acontece é que os mais velhos sentem uma espécie de “saudade” da União Soviética, pois em certos pontos, ela ainda “funcionava” em meados dos anos 1960 e 1970. A educação era excelente, a ciência era vanguarda, eles tinham uma boa infraestrutura de vida e o país ainda era uma potência militar e há pouco havia ganhado uma guerra.

Veja acima que não citei questões de perseguição política, repressão e outras coisas que não entram no mérito específico deste post.

Praça Lênin com o próprio Lênin ao fundo.

Praça Lênin com o próprio Lênin ao fundo.

Quando a União Soviética se dissolveu, muitas coisas “pararam” na Rússia modernas. Com a ajuda de uma crise financeira grave e recessão profunda, uma parte da população sofreu bastante. Alguns dizem que o Partido Comunista nunca tinha sido tão forte nesse tempo de recessão (meados de 1998), já que muitos tiveram uma “comprovação” de que o capitalismo não funcionava mesmo.

Daí que vem a força e a admiração por Lênin. Aos olhos de muitos, ele foi um grande herói por ter conseguido acabar com a “hipocrisia” do império e ter dado aos trabalhadores (classes mais baixas) uma força que eles jamais haviam possuído. De fato a memória comunista ainda é muito apreciada, por ser um momento em que eles estavam “no topo do mundo”.

Mas tudo o que sobe, desce. Pouco a pouco, a Rússia está se tornando uma potência mais consolidada e confiável. No famoso grupo BRIC (não, eu não considero a África do Sul um BRIC), a Rússia é o “melhor” país do acrônimo. Dos quatro, ela é a que possui uma inflação mais baixa, a melhor infraestrutura (mesmo que antiga) e possibilidade de abertura com o exterior. Alguns economistas afirmam que em 10 anos, a Rússia estará dividindo o topo da economia mundial com os EUA, a China e a UE (sem considerar crises a partir desse ponto).

E com a constante melhora da economia, a memória de Lênin vai aos poucos se desfazendo. Alguns já consideram enterrar o corpo dele que está em exposição no mausoléu. Outros já consideram mudar os nomes das avenidas e levar as estátuas junto aos “cemitérios”.

Estátua do Lênin no estádio Lujniki

Estátua do Lênin no estádio Lujniki

Tem algumas coisas que merecem seu tempo. Na minha opinião, o tempo dele já passou faz tempo. É hora da Rússia libertar sua “memória” comunista e dar um passo para o futuro.

Sob o olhar de Stalin

Em Praga, de fato existem vários monumentos que representam diversas fases e culturas que marcaram a vida da população em alguns séculos de existência. Uma dessas eras foi certamente o comunismo, com a então Checoslováquia como um dos membros mais atuantes da cortina de ferro.

Esses países sob a influência da União Soviética absorveram certos aspectos da vida da Rússia, país soviético mais influente. Além da economia planificada, esses países tinham vários aspectos em comum, como na arquitetura caracterizada pelos novostroikis e um certo tipo de modernismo quadrado, fortes investimentos em educação e esporte, e também o culto aos líderes soviéticos, especialmente a Lênin e a Stalin.

Até hoje, Lênin é venerado na Rússia, com a presença de estátuas em diversos pontos nas cidades. Stalin já não tem um bom background, hoje sendo conhecido por frequentar vários cemitérios de estátuas por aí.

Nos anos 1950, a Checoslováquia decidiu homenagear o antigo líder soviético com uma grande estátua em umas colinas na margem esquerda do rio Vltava, bem no parque Letna, de forma com que grande parte da cidade tivesse vista para ela.

O ditador morreu em 1953, e o monumento ficou pronto apenas em 1955. Um ano depois, o então líder soviético Khrushev decidiu abolir o culto a Stalin, fazendo com que muitas dessas estátuas espalhadas pela Europa Oriental fossem retiradas ou destruídas.

A verdade é que os checos não gostavam nem um pouco da estátua. Eles sempre meio que a parodizaram, e esse monumento, em off, era motivo de vergonha para os cidadãos de Praga. Ela era enorme (15 metros de altura e 22 de largura e pesando 17000 toneladas) e pelo formato, com pessoas atrás do ditador, ela foi batizada de “fila do pão”, numa alusão à dificuldade na obtenção de alimentos no regime comunista.

"Fila do pão"

“Fila do pão”

Em 1962, ordens vindas diretamente da União Soviética apontavam que a estátua não ficaria mais ali, mas tudo foi feito de maneira comunista, ou seja, bem na surdina. Eles acharam que a melhor alternativa seria a implosão da estátua com dinamite no meio da madrugada. Acabou que vários pedaços de rocha voaram pelos ares inclusive atingindo algumas casas, e no final, a estátua não foi completamente destruída. Uma notícia bem interessante do El País em espanhol sobre o assunto se encontra aqui.

Uma outra curiosidade importante é que o artista que projetou “a fila do pão” foi obrigado pelas autoridades checoslovacas a executar esse projeto de qualquer maneira. A pressão junto da polícia secreta combinada com a insatisfação da estátua o tornou tão desgostoso que ele cometeu suicídio apenas 3 semanas antes da inauguração.

Hoje em dia, o lugar que abrigava essa fadada estátua tem uma espécie de pêndulo, que lembra um relógio ou algo assim. Ele foi construído após 1991 depois de muita discussão sobre o que fazer nesse antigo parque, que se encontrava abandonado. Na minha opinião, ele ainda continua sendo muito bizarro, e de certo modo, continua sendo uma lembrança do comunismo tão menosprezado pela população, mas mesmo assim, é muito melhor do que possuir um ditador “olhando” por cima de todos, onipotente e onipresente.

A casa do terror e o passado negro húngaro

Um dos lugares mais interessantes de se visitar em Budapeste é a Casa do Terror, localizada na Avenida Andrassy número 60, pertinho do Oktogon e de alguns dos endereços mais caros da cidade. Lá, uma exibição permanente mostra fotos, objetos, depoimentos em vídeo e muitos outros detalhes sobre o passado fascista e comunista na Hungria.

Fachada da casa do terror

Fachada da casa do terror

Esse museu é bem moderno, com muitos gadgets e tecnologias, além de ter todo aquele clima sombrio que cercava o comunismo. O prédio é quadrado, com um espaço no meio, e varandas bem estreitas. Nesse prédio se localizava tanto o quartel general do governo nazista, e anos depois, do comunista.

A primeira parte da visita se dá no andar mais alto (ala negra), mostrando como a Hungria foi ocupada pelos nazistas, e quais foram os efeitos da Segunda Guerra Mundial nela, com foco na perda de 2/3 do seu território para países vizinhos, e tristes depoimentos de sobreviventes da guerra e do holocausto.

A segunda parte do museu, um andar abaixo (ala vermelha), foca no período comunista da Hungria e a invasão soviética. Modelos muito bem feitos de salas de comando soviéticas, emblemas comunistas, propagandas comunistas, uniformes e afins me fizeram voltar no tempo, justamente pela riqueza de detalhes.

Algumas partes são bem chocantes, especialmente uma sala que meio que recriava uma reunião (ou um jantar), onde uniformes com o símbolo nazista da Hungria (algo como uma cruz) representavam os participantes. Fora isso, músicas macabras ficam tocando ao fundo, e às vezes, algo como discursos enfurecidos, só pra entrar mais no clima.

A última parte da visita se dá nos calabouços do prédio, onde prisioneiros (especialmente contra o comunismo) eram mantidos em condições horríveis. Algumas celas chamaram a atenção, como uma em que só cabia o corpo em pé, e outra onde o teto era mais baixo, impossibilitando do prisioneiro ficar em pé. Fora que todas elas não tinham janelas nem luz, deixando a pessoa em total escuridão. Vale ressaltar que a ÁVH (polícia secreta húngara) fazia falsas acusações e aplicavam diversos tipos de tortura a seus prisioneiros.

Também é possível visitar a cela onde as execuções eram feitas. Essa seção foi bem real, já que antes havíamos escutado a um depoimento de um antigo guarda detalhando como essas execuções aconteciam.

No lado de fora do museu, é possível ver as fotos dos prisioneiros que ali estiveram, assim como na parte interna. Existem seções dedicadas a homenageá-los, com velas, fotos, e nomes, tudo em um design bem moderno.

Deu pra ver que o museu teve um grande investimento em tecnologia, mas em relação a objetos ele ainda tem muito o que melhorar, porém, nada tira a imensa quantidade de informação que é recebida, tanto através dos museu em si, mas também dos vídeos e de alguns panfletos de papel dadas livremente com a explicação de cada seção.

Visitar esse museu me deu vontade de ler todas essas folhas de papel com a história de cada seção, e também de descobrir mais sobre o passado comunista húngaro. Vale a pena descobrir.