Você pode me encontrar dentro do metrô

Andar de metrô é muito bom! Não só pela rapidez do sistema mas também pela praticidade. Já tive a oportunidade de andar de metrô em vários países, o que me deu uma visão e compreensão maior dos sistemas de transporte público destes lugares em geral.

Por ter passado mais tempo na Rússia e na Hungria, consequentemente passei bastante tempo indo pra lá e pra cá nos metrôs de Moscou e Budapeste. É sobre eles que vou falar hoje.

Eu fui antes pra Rússia, e nos meus primeiros posts falei como foi a experiência de chegar em Moscou e sentir aquele ambiente novo.

Primeiro que os três aeroportos de Moscou são conectados com o centro da cidade através do Aeroexpress, que pára nas estações Kievskaya, Beloruskaya e Paveletskaya, cada uma com baldiações e infraestrutura adequada. E Moscou tem a obrigação de ter essa infraestrutura devido à sua enorme população, de quase 12 milhões de habitantes. Os governantes soviéticos tinham conhecimento disso e foram ao trabalho.

Em 1923, logo após o fim da guerra civil e da formação da União Soviética, o conselho para a formação do metrô já estava pronto. Os soviéticos contrataram engenheiros ingleses, com know-how avançado devido ao metrô de Londres, que havia sido o primeiro do mundo. As obras começaram, e as primeiras 13 estações foram abertas em 1935. Em 1933, antes mesmo do metrô ser inaugurado, os primeiros engenheiros ingleses foram deportados segundo acusações de espionagem, devido ao amplo conhecimento que eles adquiriram do solo de Moscou.

A partir de então houve a abertura de diversas linhas e estações em Moscou. Vale ressaltar que a construção do metrô é encarada como assunto vital para a Rússia, devido à integração do transporte urbano – que ainda era precário em Moscou nos anos 1930 –  e pela difusão da propaganda soviética através de belas estações, decoradas com ouro, lustres magníficos, mármore e estátuas.

De fato a propaganda soviética através do metrô foi bem sucedida, já que a intenção era causar o deslumbre na população. O povo deveria se esforçar bastante em seus atos para que eles pudessem ser bem recebidos com uma linda infraestrutura.

Metrô de Moscou: divino!

Metrô de Moscou: divino!

O metrô acabou servindo de bunker durante a Segunda Guerra Mundial, especialmente pela sua profundidade – e as obras de novas estações não pararam. Reza a lenda que existiam abrigos especiais em certas estações, que seriam ligados diretamente ao Kremlin e à sede da KGB. Ah, durante a Guerra Fria todas as estações em construção tinham que ser construídas com uma engenharia anti-nuclear.

De fato, o metrô de Moscou é muito bonito e sempre figura nas listas de melhores metrôs do mundo. Ele recebe 8 milhões de pessoas por dia, e até hoje já transportou mais de 2 bilhões de pessoas! Quando eu fui, em 2012, a passagem custava 28 rublos. Hoje já custa 30, e se utiliza um cartão de plástico com uma leitura especial, pioneira desse tipo de tecnologia no mundo.

Apesar da variedade de estações, é super fácil se locomover pelo metrô de Moscou. Quando eu estava lá, só andei nele. Em Budapeste, a realidade é totalmente diferente de Moscou. Primeiro pelo tamanho da população. Em Budapeste a população está chegando aos 2 milhões e ao contrário das 12 linhas que Moscou tem, Budapeste tem apenas 3, e uma que em processo de planejamento e construção já leva 42 anos, a “famosa” linha M4. Diz que ela fica pronta ano que vem.

Mas se engana quem acha que o metrô de Budapeste não é importante! Na verdade, em um contexto mundial, o metrô de Budapeste é sempre referência. Antes citei que o metrô de Londres é o mais antigo do mundo, e Budapeste, adivinha só, é o segundo mais antigo do mundo!

As construções começaram em 1894 e terminaram em 1896, já que o imperador Francisco José tinha planos de melhorar o transporte urbano na Avenida Andrassy (a mais fina e cara de Budapeste) sem “poluir” a paisagem com bondes e ônibus. Em Moscou, o metrô foi construído através de túneis abaixo do solo – o que deixa as estações mais profundas. Já em Budapeste, eles cavaram o espaço, e após pronto, simplesmente cobriram com terra.

Isso era algo que me intrigava toda vez que eu andava pela M1 – que está em uso desde a inauguração, em 1896. Era só descer uns 10 degraus abaixo da calçada e pronto, ali já passava o trem.

Mesmo com mais de 100 anos depois da inauguração, a M1 (linha amarela) ainda preserva traços arquitetônicos originais, incluindo a extensão e largura dos trens, azulejos, e até algumas fotos mais antigas. Fora que o trem toca uma musiquinha retrô toda vez antes de parar nas estações.

Metrô 1 em Budapeste. Pequeno, charmoso e conservando detalhes antigos.

Metrô 1 em Budapeste. Pequeno, charmoso e conservando detalhes antigos.

Apesar de Budapeste não ter muitas linhas de metrô, o sistema de transporte público é bem integrado com muitas rotas de ônibus, trams, trolleybuses e até trens metropolitanos. Dá pra comprar um ticket que vale em todos os transportes. Eu acabei gastando 17500 forints (170 reais) por 6 semanas de uso. Era só apresentar para o fiscal e pronto.

Mesmo assim, eu torço para que essa linha M4 termine logo. A última parada dela será em Bosnyák Ter, que é a 2 paradas de ônibus da minha casa na Hungria. Quando eu quiser visitar a escola, já quero ir de M4 (parte)!

Falando em acesso à Budapeste, não existe nenhuma linha que vá até ao aeroporto, nem um trem que vá do metrô até lá, como em Moscou. Existe uma linha de ônibus, a 990, que faz o trajeto Aeroporto Ferihegy – Köbanya Kispest, que é a última estação do M3, a linha azul.

Falando em linha azul, ela ainda tem trens soviéticos nela (alguns com dizeres russos para “feito em 1978”, “feito em 1980” e assim vai).

Das linhas de metrô de Budapeste, a minha favorita (e a de todo mundo) é a M2 (vermelha). O meu ônibus ia direto pra Keleti e pra Blaha Lujza (estações da M2) e me acostumei a andar até lá sempre. Ela é a mais limpa e moderna de todas, com uma boa infraestrutura, propagandas de tudo que é tipo, e também, é mais rápida. A linha M1 (amarela) como disse, é bem antiga e pequena. Dá pra sentir uma volta no tempo ali. A linha azul (M3) é de longe a pior de todas. Ela é suja, mal cuidada, tem cheiro de mofo (sério), trens (soviéticos) caindo aos pedaços, e muito lenta. Já fiquei esperando trem lá por 10 minutos, o que é muito para o metrô, e uma dessas vezes, acabei perdendo o ônibus da minha viagem pra Viena. Tive que gastar mais 25 euros pra ir de trem duas horas depois.

E só pra concluir, existe uma diferença enorme entre os mapas dos metrôs de Moscou e Budapeste. Vários fatores, como políticos, financeiros e até ambientais (no caso de Budapeste) levaram a essa disparidade. Lembrando que o porte das cidades é diferente, mas um sistema não perde para o outro.

O "complexo" sistema de metrô de Moscou

O “complexo” sistema de metrô de Moscou

Metrô de Budapeste, já incluindo a linha M4 e a futura linha M5, sem previsão de início das obras.

Metrô de Budapeste, já incluindo a linha M4 e a futura linha M5, sem previsão de início das obras.

Ambos servem muito bem a população, além de serem referência em muitos aspectos. Eles me trouxeram boas lembranças (com exceção da M3 de Budapeste, hehehe), além de serem super fáceis de ajudar qualquer turista menos acostumado.

 

 

Vendo a história se materializar na minha frente

A primeira vez que viajei para a Europa foi no verão de 2010. A animação era imensa, e meus olhos e ouvidos estavam sempre atentos ao que a guia iria dizer. Acabamos contratando um desses roteiros em uma agência de turismo, onde fizemos um tour de ônibus e guia por alguns países.

Saiu tudo muito bem, e tivemos uma experiência incrível. Muita gente critica essa forma de viagem, mas não gostaria de dissertar sobre isso agora. E sim, queria contar uma experiência com uma guia incrível que fez um dos momentos mais marcantes da história tornar forma na minha frente.

Era o nosso princípio de tour. Tínhamos chegado em Paris, fomos a Versailles no dia seguinte, e no terceiro dia, o roteiro era Quartier Latin – Notre Dame – Passeio pelo Sena – Louvre. O passeio pelo Quartier Latin foi incrível, não só pelo local em si, mas também pelos comentários da guia. Um certo momento, ela parou num prédio, e falou que no último andar, em uma tal janela, um jovem soldado chamado Napoleão Bonaparte vivia, e que sempre cortejava a Josephine quando ela passava pela rua.

Primeiro choque de realidade da Europa: perceber que pessoas muito importantes da história passaram por aqueles mesmos lugares que você estava passando no momento.

Andamos por todo o bairro (Quartier Latin significa “Bairro Latino”), e acabamos chegando em Notre Dame. Lá, ela comentou alguns fatos curiosos, dentre os quais, dois me chamaram a atenção.

O primeiro foi durante a Segunda Guerra Mundial, onde o Hitler, após a ocupação da França, mandou colocar bombas em TODOS os pontos turísticos da cidade, como a própria Notre Dame, a Torre Eiffel, o Louvre, o Arco do Triunfo, a catedral de Montmartre, dentre outros. Pra quê isso?

Ele temia o pior, mesmo no auge da ocupação alemã da Europa. Caso por algum motivo o Reich entrasse em colapso, ou algum fato extraordinário como a própria morte do ditador acontecesse repentinamente, a ordem era de ativar todas as bombas, e Paris seria completamente destruída. Um gosto de vingança, não?

Mas enfim, quando os soviéticos já estavam se aproximando de Berlim, e o suicídio de Hitler era iminente, o general alemão que estava no comando de Paris recebeu o sinal verde para a explosão dos monumentos, mas ele não o fez. Ele havia se apaixonado por Paris e não teve coragem de causar mal algum à cidade. Na verdade, uma das bombas explodiu, eu confesso que não me lembro em qual monumento, mas foi uma maneira de “despistar” o comando do Reich. Deu certo, e nada mais foi destruído.

Falando em Segunda guerra, os lindos vitrais de Notre Dame foram todos levados para um castelo na Suíça. Eles ficaram escondidos até 1945 com o fim da guerra. 97% de todos os vitrais foram recuperados.

O segundo fato foi sendo contado dentro da própria Catedral, mas não falando do Hitler, mas sim, do Napoleão – novamente.

O Napoleão era super egocêntrico, e quando ele tomou o poder da França, ele queria ser coroado imperador.

Então, ele queria ser recebido como O homem que mudaria a história da França. Tradicionalmente, os reis da França eram coroados na Catedral de Reims, mas Napoleão não queria ser coroado igual a um rei. Ele queria ser coroado em Notre Dame, a catedral mais importante do país, demonstrando também que ele queria sempre estar perto do comando central na capital.

Além do mais, ele não queria que nenhum padre, ou bispo o coroasse, como era tradição com os reis. Ele queria ninguém menos que o Papa.

O Papa vigente na época era Pio VII, que recebeu o convite para a coroação no dia 2 de Dezembro de 1804. O Papa relutou a princípio, mas naquele momento, a Europa estava curvada a Napoleão, e ele não teve escolha, mediante a um ataque que poderia desmoralizar todo o poder da igreja. Ele teria que ir.

Acontece que o inverno dos anos 1804/1805 foi um dos mais rigorosos em séculos, e existe um longo caminho entre Roma e Paris (além de uma cordilheira). O Papa passou um mês viajando, enfrentou temperaturas baixíssimas, cruzou os A;pes, e chegou esgotado a Paris.

Poucos dias antes da cerimônia, Napoleão certificou-se de que a missa da sua coroação fosse única, e a mais marcante da história. Uma missa de coroação naquela época durava cerca de 2 horas. Napoleão queria que a dele durasse 5 horas.

O Papa nem sabia mais o que fazer para aumentar o tempo da cerimônia, mas conseguiu fazer uma grande missa mesmo assim. No dia da grande festa, após algumas horas de missa, chegava o momento: Napoleão seria coroado.

Só que não. No momento final, prestes a receber na cabeça a coroa do Papa, ele se levantou, tomou a coroa das mãos de Pio VII, e se auto-coroou. Por que isso?

Napoleão achou que se o Papa o coroasse, ele daria a impressão de que o Papa era mais importante que ele. Para ele, nenhuma pessoa no mundo era superior a Napoleão Bonaparte

O Papa havia viajado durante um mês no inverno, e Napoleão entrou para a história por ter colocado a coroa em sua própria cabeça.

Eu já achei essa história que a guia me contou simplesmente incrível, e a riqueza de detalhes que ela deu, foi sensacional! Mas algo completaria o meu dia logo depois.

Após passear pelo Sena, almoçamos e fomos ao Louvre. Lá está o quadro de Jacques-Louis David, chamado simplesmente de “A coroação de Napoleão”. Esse quadro mostra a coroação da Imperatriz Josefina – por Napoleão – e um Papa cabisbaixo atrás dele. Foi o meu aha-moment da minha viagem toda! Eu consegui visualizar toda a situação, estando no lugar onde tudo aconteceu, e visualizando através de uma pintura linda como tudo pode ter acontecido.

Quadro da coroação da Josephine

Quadro da coroação da Josephine

A partir daquele momento, eu quis saber ainda mais de todo e qualquer detalhe de todo lugar que eu passava! Já era fascinada por história antes, e a partir daquela viagem só quis saber mais e mais.