Sisi, a imperatriz da Áustria

Pensa numa pessoa popular na Áustria, Hungria, e no mundo, por que não? Todos sabem a história dela de cor, mulheres acham ela linda e de certeza muitas a invejaram pelo estilo de vida e privilégios que ela recebeu. Estou falando da Imperatriz Elisabeth da Áustria, ou simplesmente Sissi, considerada um mito até os dias de hoje.

Vou contar a história dela. A princesa Elisabeth von Wittelsbach nasceu em uma das mais famosas cortes da Europa e passou sua infância na linda Baviera. Aos 15 anos, ela foi acompanhar sua mãe e irmã para um encontro com o imperador austríaco Francisco José I. Até então, a irmã estava prometida ao jovem monarca, mas ele se apaixonou por Elisabeth ao invés da sua prometida, que estava de luto e estava vestindo preto.

Retrato de Sisi em 1861

Retrato de Sisi em 1861

Os dois se casaram e aparentemente começaram a viver uma vida de conto de fadas. Os dois tiveram quatro filhos e Sissi se tornou um mito da beleza. Os filmes feitos sobre ela mostravam uma princesa alegre e que aproveitava a vida, mas relatos de hoje em dia mostram justamente o contrário.

A imperatriz estava tendo uma vida infeliz na corte e além do mais, era mal vista por todos devido à preferência pela Hungria sobre a Áustria. Ela também não tinha um bom relacionamento com a sogra, que escolheu o nome da primeira filha de Sissi sem consentimento, e a impediu de participar da educação dela. Em uma viagem para Budapeste, as duas filhas que tinha até então ficaram doentes com diarreia, e a mais velha morreu com apenas dois anos.

A jovem Sissi é uma das pessoas que possui um dos mais antigos registros de anorexia do mundo. A cintura dela era muito fina, de aproximadamente a largura de um pescoço comum e pesava cerca de 50 kg em mais de 1,70 de altura. O IMC dela seria considerado de risco nos dias de hoje.

Após a morte de Sophia, sua filha mais velha, Sissi se recusou a comer por vários dias (hábito que cultivaria ao passar por momentos difíceis) e criou alguns hábitos alimentares no mínimo peculiares. Ela não comia nenhum tipo de alimento sólido, e possuía espremedores especiais para toda a sua comida. Reza a lenda de que Sissi pedia pra espremer um bife cru para que ela pudesse tomar o caldo que saísse dele.

Ela também era bem vaidosa. Ela tinha um cabelo bem comprido, chegando até na altura dos joelhos, que costumava decorar com flores de ouro branco cravejado com diamantes. A escovação diária do cabelo levava horas! Fora isso, ela se pesava três vezes ao dia. Outra coisa interessante foi que ela proibiu pinturas e fotografias oficiais dela aos 30 anos, para criar uma imagem de beleza jovem eterna cultivada até hoje.

Sissi também viajou bastante. Ela passou anos viajando pela Europa, e além pela paixão pela Hungria, passou um bom tempo em Corfu, na Grécia, onde também se apaixonou.

A paixão pela Hungria era evidente. Sissi era uma presença constante na ópera de Budapeste e passava grande parte do seu tempo no palacete de Godollo, que já escrevi sobre aqui. Ela também criou laços políticos especiais com Gyula Andrássy, que acabou virando primeiro ministro da Hungria após o pacto que criaria a Áustria-Hungria. Ela serviria como ponte política entre ele e o imperador.

A saúde e vida pessoal da imperatriz começaram a desandar, e ela viajou e passou uma temporada na Ilha da Madeira para se recuperar de uma tuberculose. Após voltar à Áustria-Hungria, e ao casamento com o imperador, ela decidiu ter mais um filho, e ele ficaria sob os cuidados dela. A sogra Sophie morreu e o controle da vida dos filhos novamente seria de Sisi.

Os anos passaram e a tragédia abalou a família imperial de novo. O filho mais velho, Rudolf, que herdaria o trono, acabou se suicidando com a sua amante. Um ano depois, seu grande amigo Gyula Andrássy também morreu e após isso, ela se tornou extremamente depressiva, reclusa e só passou a usar preto. Suas incríveis viagens passaram a ser uma válvula de escape para a imperatriz.

Elisabeth recusava a presença de seguranças, e em 1898 um fanático italiano a assassinou em Genebra. Ele estava desesperado por atenção e procurou matar a primeira pessoa famosa pela frente. Ao descobrir que a Imperatriz da Áustria estava na cidade, ele a atacou com uma espécie de estilete e fugiu. Sisi estava fazendo compras com uma amiga e não havia percebido que estava ferida. Elas iriam até um encontro em um barco no Lago Genebra, onde começou a passar mal.

Isso se deu pelo fato de que os espartilhos de Sisi eram tão apertados que o ferimento no coração quase não sangrou. Ela morreria no dia seguinte.

O Imperador Francisco José ficou extremamente triste com a morte de Elisabeth e passou os anos seguintes tentando se aproximar do novo herdeiro do trono Austro-Húngaro, o seu sobrinho Francisco Ferdinando. Ele morreria em um atentado em Sarajevo a 1914, que acabou sendo um estopim para a Primeira Guerra Mundial. Em cartas para sua filha Gisela, ele admitiu que a morte de Ferdinando era um alívio para uma grande preocupação. O imperador morreria em 1916.

Essa história digna de romances de Hollywood é cativante para os austríacos e também para os húngaros. Para eles, Sissi é sua eterna imperatriz e sua figura é estampada em todos os cantos de Viena.

Chocolates, cartões postais, bolsas, canetas, cosméticos, livros e todo qualquer tipo de souvenir de Sissi são encontrados com facilidade em Viena e em Budapeste. Eu mesma comprei um kit de banho da Sissi numa caixinha em forma de coração (risos). Vários DVDs com a sua biografia e seus filmes estrelados por Romy Schneider dos anos 1950 também estão à venda.

Dois dos museus dedicados à Sissi se encontram no seu palácio de verão de Godollo, e um, mais conhecido e completo em Viena, no complexo Hofburg. O ticket do museu Sisi também dá direito à coleção de prataria dos Habsburgo e dos Kaiserappartments.

O museu Sisi é lindo e mostra com detalhes toda essa história que contei da Imperatriz. Ele fica aberto das 9 às 17:30 normalmente e contém audioguias que contam a história dos lugares pedaço por pedaço. Esse museu também possui objetos como diários, roupas, joias, sapatos, e a roupa que ela usava quando foi assassinada, junto de laudo médico e afins.

Fora isso, o museu é bem equipado com tecnologia e tem iluminação interessante. A entrada é um pouco mais de 10 euros e de certeza é uma visita obrigatória em Viena. Fora isso, não dá pra sair nem de Viena ou Budapeste sem algum souvenir da Sissi!

Um tal palacete em Godollo

Como qualquer país com um histórico imperial, a Hungria tem lindos palácios que são dignos de visitação. Um deles é o palácio de Godollo, bem pertinho de Budapeste.

Eu acabei descobrindo esse palácio ao acaso, por causa de uma amiga italiana. Um dia estávamos conversando sobre os nossos dias em Budapeste, e ela havia me dito que a chefe do trabalho dela a havia levado para um palácio fora de Budapeste, onde alguns imperadores passavam o tempo por lá. Esse palácio ficava em Godollo, e ela super me recomendou a ida.

Godollo é uma cidade que faz fronteira com a faixa nordeste de Budapeste, onde eu morava. Lá, um comerciante húngaro muito rico havia construído um palácio para a sua família, e com a subida ao trono do imperador Francisco José e da imperatriz Elizabeth (Sisi), ele começou a ceder seu palácio para que a família imperial pudesse passar algumas temporadas – especialmente durante o verão – hospedada ali. Vale ressaltar que a minha casa era mais próxima ao centro de Godollo do que do centro de Budapeste. :)

A Sisi era apaixonada pela Hungria e tomou Godollo como um refúgio de toda a vida caótica que ela levava. O palácio foi adaptado às necessidades da imperatriz, e o palácio logo ficou conhecido como “palácio da Sisi”.

Após pesquisar como fazia pra ir, animei a Rekha e o Diego pra irem comigo. Verificamos como fazia pra chegar até lá, e descobrimos duas maneiras. Uma com o trem metropolitano, e o outro com trem de linha normal. De qualquer maneira, precisaríamos pagar cerca de 700 HUF em qualquer viagem, já que estaríamos fora dos limites de Budapeste. Em lugares dentro de Budapeste através do trem metropolitano, por exemplo, é necessário somente o ticket de transporte que já havíamos comprado.

De trem metropolitano, o trem saía de Örs Vezér tere e parava uns 30 minutos depois em Godollo. De trem regular, o trem saía de Keleti Pályaudvar e demorava uns 5 minutos a mais. Para o Diego, Örs era melhor, e pra nós, Keleti. Como Örs ficava mais contramão pra mim e pra Rekha do que Keleti pro Diego, acabamos indo por Keleti.

Em Keleti, existem duas cabines de tickets. Uma vende tickets internacionais, e uma para lugares dentro da Hungria. Fomos para os tickets locais e compramos as nossas passagens por cerca de 700 HUF mesmo. Compramos um gyros (sdds) que serviria de almoço, e corremos para o trem (desnecessariamente) pois pensávamos que ele já estaria partindo. Só que ele demorou um tempão ainda….

Então, o trem era bem moderno e confortável. Chegamos em Godollo um tempo depois e fomos tentar descobrir onde ficava esse palácio.

Em Godollo, existem várias placas de indicação de onde fica o palácio, e fomos seguindo. Logo avistamos a fachada e fomos entrando. Ele é bem bonito, pintado de rosa claro, e com uma aparência interna meio hispânica. Compramos as nossas entradas e fomos visitar.

Diferente de outros palácios que visitei, como Versailles e Schönbrunn, Godollo não tem aquela imensa quantidade de turistas, tirando foto de qualquer coisa, empatando o caminho, guias fazendo grupinho nem nada. Isso dá a oportunidade de se aproveitar melhor os pequenos detalhes do palácio, como os objetos, quadros, passagens secretas e tudo.

Existem muitos quadros lá dentro, assim como vários objetos curiosos da época imperial. Uma parte que achei bem curiosa foi a última, que mostrava a restauração do palácio, já que ele foi quase todo destruído depois da Segunda Guerra Mundial. O antes e o depois é de se impressionar! Imaginar que muitos daqueles lugares que passamos não eram mais os originais (e perceber que eles haviam economizado em vários detalhes) foi bem triste, mas é bom saber que em algum lugar, as pessoas realmente cuidam do que é pertencente a sua cultura, e que de alguma forma, ela vai sobreviver.

Depois do palácio, compramos sorvete e fomos apreciar o jardim. Existem algumas outras pequenas construções e estátuas no jardim – que é um dos maiores jardins palaciais do mundo – e lá as pessoas costumam ler livros, fazer piquenique, e outras atividades para se relaxar.

Após o jardim, a Rekha foi embora, e eu continuei lá com o Diego. Andamos um pouco pela cidade mas não há mais nada além do palácio. Diferentemente de Szentendre, por exemplo, Godollo não tem muito que se ver. Após uma volta no quarteirão, voltamos à estação de trem para esperar a volta pra Budapeste. Dessa vez, voltamos num trem bem velho e quente, diferente do da ida.

Vale muito a pena visitar o palácio de Godollo! Não é longe de Budapeste, e dá pra se aproveitar muito mais do que Versailles por exemplo (apesar do palácio de Godollo ser bem menor). Por algo como 7 reais de passagem mais as entradas do museu, a visita ao palácio tem um ótimo custo-benefício.