O mergulho nas águas

Entre os dias 18 e 19 de janeiro, um evento muito curioso acontece nas águas da Rússia e de outros países com tradição cristã ortodoxa, como a Ucrânia e a Bulgária. Esse tal evento é o Ritual da Epifania, que consiste em reproduzir o batismo de Jesus no rio Jordão nos rios do leste Europeu.

Ritual com um significado bonito, certo? Para aqueles que já ligaram os pontos (leste europeu, janeiro, inverno, frio…) deu pra perceber que esse ritual tem um quê a mais. O ritual da epifania é feito durante o inverno russo, muitas vezes com temperaturas negativas (-10, -15 graus…). Ou seja, por um motivo religioso, as pessoas mergulham nas águas gélidas do inverno como uma maneira de “lavar os pecados”.

Por coincidência, esse evento acontece de 11 a 12 dias depois do natal ortodoxo, que é comemorado no dia 7 de janeiro. Fiéis se reúnem na beira de rios e de aberturas na neve conhecidas como “iordans” (menção ao rio Jordão) para poder nadar. Adultos e crianças se divertem em passar alguns segundos na água gelada. Eles veem isso como uma maneira de se purificar, e alguns até dizem que isso faz bem pra saúde.

Agora se você pensou que eu vi com meus próprios olhos esse ritual, acertou! Se pensou que eu entrei na água, você está errado! Minha host mother nos levou à beira de um riacho cheio de pessoas prontas para assistir e nadar! Era dia 18 de janeiro à noite e todos os preparativos estavam prontos!

O padre havia benzido a água e os fieis estavam prontos para entrar na água. Nesse riacho a coisa era um pouco mais “light”. Vendo matérias na TV e na internet, vemos que em muitos casos, as pessoas nadam ao ar livre, em rios, e até mesmo no Oceano Pacífico, no caso do Far East russo. Nesse riachinho que fomos, as pessoas nadavam numa parte coberta por uma casinha. Tinha uma fila para quem iria entrar na água e quem iria apenas assistir aos outros.

Não acreditei, mas um amigo brasileiro entrou na água de verdade! Gravaram um vídeo dele pulando na água e saindo (coisa de dois segundos), mas ele conseguiu! Pontos pra ele. Os outros intercambistas não tiveram coragem. Além desse brasileiro, o namorado da minha host mother também entrou na água.

Eu não o vi entrando, mas acompanhei uma família que entrou! Foi incrível ver de pertinho a disposição dessas pessoas nessas condições tão ruins! Eles entraram, passaram uns 10 segundos na água e saíram. O “engraçado” era que todos eles meio que se aqueciam de uma maneira diferente antes e depois do mergulho. De qualquer maneira, foi incrível presenciar de pertinho todo esse ritual tão significativo para esse povo.

Posso dizer também que nós, os estrangeiros, fizemos sucesso! Muitos dos que estavam ali na fila ficaram bem impressionados com a nossa presença!

Veredicto? Adorei presenciar esse ritual. Todos os dias 18 e 19 de janeiro são marcados na minha agenda!

Entrar na cabine e ainda por cima, pegar um pouco de água benta.

Entrar na cabine e ainda por cima, pegar um pouco de água benta.

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Quando o dia é mais curto (ou mais longo)

Olá a todos! Hoje eu vim falar de um assunto curioso, especialmente para aqueles que moram nos trópicos como eu. Dependendo da época do ano os dias podem ser mais curtos ou mais longos, ou seja, podem haver mais ou menos horas de luz em certos lugares do mundo.

Como assim? A Terra tem uma certa inclinação no seu movimento de rotação, e aliada ao movimento de translação a incidência da luz do sol muda, podendo deixar os dias mais curtos ou mais longos dependendo da estação.

Lembrando que nos trópicos e suas proximidades, os efeitos das estações do ano são bem menores, devido a constante insolação solar durante o ano inteiro! Aqui temos o verão e o inverno amazônicos, que são coisas completamente diferentes. O nosso verão é quando existe uma maior insolação solar, causando evaporação da água dos rios, e por consequência, maior precipitação, ou seja, chuva! E o nosso inverno é o contrário, já que com a menor insolação, menos chuvas acontecem, querendo ou não, deixando o clima mais quente e também causando a seca dos rios, já que não tem chuva!

Mas enfim, deixando um pouco de geografia geral e da amazônia do lado, é preciso saber que antes de se aventurar no verão e inverno alheio, devemos nos conscientizar que essas mudanças de luz acontecem, e que querendo ou não, nosso corpo deve se acostumar com isso também!

Começando pelo inverno, que tem o ápice da escuridão. Lembrando que o inverno acontece quando existe uma menor incidência de luz solar, e quanto mais longe da linha do Equador, menores são os dias.

Quando eu estava na Rússia, cheguei no ápice do inverno! Tudo muito frio e muito escuro por várias horas. O sol nascia lá pelas 8h30 da manhã e se punha lá pelas 15:30, sendo somente 7h de luz para aproveitar o dia! Agora imagina ter que acordar 7h da manhã todos os dias com um breu? Minha cabeça sabia que era hora de acordar, mas o meu corpo me dizia que ainda era noite e que eu devia dormir! Combinando aos efeitos do jetlag, às vezes acordar era um martírio!

Isso que a região da Rússia que eu morei nem é tão ao norte assim. Cidades mais ao norte da Eurásia e América do Norte no inverno, ou mais próximas da Antártica (ou seja, mais longe ainda do Equador) tendem a ter menos horas de sol, só pra ratificar.

Após o inverno, a situação começa a melhorar, e aos poucos, o dia começa a ter mais luz. A primavera começa e o sol começa a sumir lá pelas 19h, 19:30. Algo relativamente normal para pessoas que moram em certas partes do Brasil, inclusive. Essa “subida” gradual tem seu ápice no verão, mas mesmo na primavera temos situações bem curiosas.

Uma vez acordei em Budapeste lá por maio às 5 da manhã e já tinha luz. Eu achava que tinha acabado de amanhecer, sendo que alguns dias depois, estava fora de casa às 3 da manhã e já dava pra ver alguns raios de sol no horizonte. Isso que nem era verão ainda!

Tá que pra uma pessoa do norte, que vê o dia nascendo às 6 da manhã e pouco depois das 6 da tarde já vê tudo escuro, isso se torna um choque. Sabe aquela sensação de “eu já sabia, mas não imaginava”? Pois é.

O ano continua e o verão se mostra bem “ensolarado”. Nunca acordei cedo ou voltei da noite tarde pra contar que horas o sol nasce, mas eu já vi o sol se pondo às 22h20 em Roma no meio do verão. Depois disso, criei um novo conceito sobre o verão, e da importância que ele é visto pelas pessoas!

No verão, especialmente no norte da Europa, é que acontece o famoso evento do Sol da Meia Noite, que é quando o sol não some do horizonte, aparecendo por todas as 24h do dia comum! (Noruega, Suécia, Finlândia, aguardem por mim!).

Após o verão, o outono chega e aos poucos os dias voltam a ficar mais curtos, justamente com a cada vez menor incidência de luz solar. Quando menos se espera, Dezembro ou Junho chegam, oficialmente com o inverno. Curiosidade a decifrar agora? Presenciar o sol da meia noite!

 

 

Dúvidas sobre inverno, neve e afins

Fato é que no Brasil não neva muito e acabamos não nos acostumando quando a temperatura cai um pouquinho. Por aqui poucos são aqueles que já sentiram o frio de verdade, inverno puro! Nevascas, temperaturas a vários graus negativos e aquele céu nublado sem graça nos dão uma noção do inverno real.

Para tanto, é sempre bom ter cartas na manga, assim como dicas que nos ajudam a prevenir qualquer eventual problema que o frio extremo possa nos causar! Venho falar alguns mitos e dúvidas que brasileiros do calorão como eu possam ter.

  • A melhor forma de se proteger do frio é colocar vários casacos: um em cima do outro!
    Não! Se esses casacos não forem impermeáveis e se você for pego por qualquer neve que caia do céu, esse montão de casacos (especialmente se forem de algodão) vão se molhar, e você vai sentir muito frio! Essa sensação de roupa molhada no inverno é extremamente perigosa, deixando a pessoa suscetível à pneumonia e outras doenças, cuidado!
  • Não sinto sede no inverno. Preciso beber água mesmo assim?
    Com certeza! De alguma maneira, o frio inibe a sensação de sede mas mesmo assim o corpo precisa de água para movimentar. Se você não se hidratar, existem grandes chances de se ficar doente.
  • Não está quente, por isso não vou levar um protetor solar.
    O protetor é presença obrigatória no inverno! A pele “queima” com o frio extremo, e o uso do protetor solar pode ajudar a evitar maiores queimaduras, especialmente no rosto que é a parte do corpo geralmente mais exposta.
  • Dirigir no inverno é um saco.
    Absolutamente! Se você planeja alugar um carro para rodar na sua viagem durante o inverno, tome muito cuidado. Camadas finas de gelo podem se acumular no asfalto deixando o caminho mais escorregadio. A comprovação está nos sempre constantes relatos de engavetamentos durante essa época do ano. Fora isso, é necessário ter muito cuidado com o carro, porque camadas de neve podem se acumular em cima dele durante a noite, e também é necessário “esquentar” o carro de uma maneira especial antes de sair.
  • As pessoas não tomam banho no inverno.
    Só se a pessoa for bem porca mesmo. Geralmente as pessoas tomam banhos sim, e ao contrário do que muita gente pensa, não se sente nenhum frio na hora do banho. As casas possuem aquecimento (geralmente a vapor) e ninguém passa frio do lado de dentro.
  • O cabelo fica mais bonito no inverno.
    Não encontrei nenhuma explicação científica, mas no meu caso em particular a resposta é um alto SIM! Meu cabelo parecia estar na escova o tempo inteiro, brilhoso e dificilmente ficava oleoso. Voltando pra Amazônia, a umidade deixou meu cabelo oleoso e com frizz de novo. :( (e posso dizer que em nenhum outro lugar o meu cabelo ficou tão bonito!)
  • Inverno dá depressão.
    Algumas pesquisas indicam que sim. Pelos dias serem mais curtos, consequentemente as pessoas veem menos a luz do sol. Existem pesquisas que afirmam que pessoas que passam muito tempo sem ver o sol tem maiores tendências a se tornarem depressivas. Existia até uma cidade na Suécia que tinha um índice tão alto de suicídios, que após algumas medidas como a instalação de luzes especiais em paradas de ônibus por exemplo, fizeram cair bastante essa taxa.

Viajar no inverno é muito bom! A alegria de sair de casa e ver tudo coberto de neve fazia o meu dia. Àqueles que dizem não gostar tanto de frio, recomendo pelo menos ver a neve por uma vez. De qualquer maneira, a sensação descobrir é maior que tudo!

Felicidade imensa ao ver a neve pela primeira vez! :)

Felicidade imensa ao ver a neve pela primeira vez! :)

Os esportes da neve

Estamos no Brasil! Terra de sol, calor, praias, biquinis, carnaval e afins. Quando nos perguntam qual é o esporte que nos vem primeiro à cabeça, muitos iam falar obviamente o futebol! Mesmo assim alguns outros iriam responder outras coisas como vôlei, natação, atletismo, o UFC (sim, esta é a modinha de agora), e em menor proporção, o ping pong, a ginástica, o tênis (pelo menos eu falaria), ciclismo…

Dificilmente algum brasileiro citaria primeiramente o curling, o biatlo, o esqui alpino e qualquer outro esporte que fosse praticado na neve, e a resposta é simples e óbvia: o Brasil é um país com um inverno fraco. Poucas pessoas tem acesso a estes esportes!

Com a proximidade das olimpíadas de inverno em Sochi, e com o inverno batendo na porta (e pelo jeito já a abrindo) do hemisfério norte, decidi escrever sobre alguns esportes de inverno. Pelo mundo, muitos desses esportes são bem conhecidos, e quem está indo para a América do Norte, Europa, e até mesmo Japão e China por esses dias pode assistir competições em loco e pela TV, e até mesmo praticá-los de alguma forma!

Fiz uma listinha aqui com alguns esportes bem conhecidos. Especialmente quando estive na Rússia, assisti várias dessas competições, e procurei saber mais sobre elas:

  • Biatlo: Esse esporte é a combinação do esqui cross country e do tiro. Cada atleta tem que percorrer até 20km nos esquis, e em certos pontos ele precisa parar para atirar em um alvo. Cada erro é convertido em penalidades, que serão adicionadas ao tempo final do atleta. Quem tiver o menor tempo vence.
  • Salto com esqui: Aqui, o esquiador salta de uma espécie de plataforma bem alta e meio que “plana” no ar. Ainda não existem competições femininas nas olimpíadas. Quem conseguir atingir a maior distância é o vencedor
  • Curling: Esse esporte é meio “bizarro” para alguns. Duas equipes competem entre si numa disputa considerada o “xadrez do gelo”. É necessário empurrar uma pedra de granito por uma plataforma de gelo e utilizar uma espécie de vassoura para fazer com que as pedras deslizem melhor no gelo até a chegada de um alvo. O objetivo do jogo é marcar mais pontos no alvo, e tentar impedir ao máximo que a equipe adversária pontue.

    Curling

    Curling

  • Patinação no gelo: Um dos esportes mais bonitos de se ver no inverno! Homens, mulheres e duplas patinam coreografias ao som de uma música escolhida por eles. Além de todo elemento artístico na apresentação, os patinadores são obrigados a executar também certos movimentos. Quem tiver a maior pontuação vence.
  • Hóquei no gelo: Sim, em alguns países, como no Canadá e na Rússia, esse é o esporte mais popular de todos! O objetivo do jogo é marcar a maior quantidade de gols no time adversário. Para isso, é preciso arremessar o disco (puck) com o taco de hóquei no pequeno gol. Os jogadores usam muita proteção como capacetes, protetores bucais e afins devido à violência do jogo

    Ice hockey

    Ice hockey

  • Esqui alpino: De todas as modalidades do esqui, talvez essa seja a mais popular. Ele possui três modalidades (downhill, slalom e super G), mas basicamente as três consistem em descer uma pequena montanha passando por checkpoints. Dependendo da modalidade, eles podem ser disputados individualmente ou com uma dupla. Quem marcar o menor tempo vence.
  • Bobsled: O esporte consiste em equipes que fazem uma descida em um trenó. Eles o empurram por cerca de 50 metros, e seguem deslizando por túneis estreitos até a linha de chegada. Quatro tentativas são feitas e o time que tem o menor tempo somado é o vencedor.

    Bobsled

    Bobsled

Existem outros esportes também muito conhecidos. Se você for viajar para o hemisfério norte agora, existem muitas oportunidades de acompanhar esses esportes de pertinho, e daqui a cerca de uns dois meses não faltarão oportunidades para conhecer esses belos esportes durante as olimpíadas de Sochi!

Frio de verdade. Mesmo!

Hoje acordei com todo tipo de comentário falando sobre o clima maravilhoso que estava vindo da friagem aqui no Amazonas. Até me empolguei pra sentir um vento um pouco mais fresco do lado de fora, mas não. Estava tudo como antes. Sinceramente, não percebi nada de diferente, mesmo ainda de manhã, com um suspirinho na madrugada.

Ontem mesmo quando estava conversando com alguns amigos, me falavam que o clima estava ótimo, e que já dava pra tirar o casaco do armário. Minha resposta: “eu estou suando de calor aqui”.

E realmente, eu sinto muito calor aqui! Eu vivo em uma das regiões mais quentes do mundo, e não tenho como escapar. É bem comum me verem por aí de vestido, short ou saia. Calça jeans? Dificilmente.

Mas eu me acostumei de uma maneira “ruim” há dois meses atrás. Quando eu cheguei em Budapeste agora em abril, a Europa acabara de viver um dos invernos mais rigorosos – e longos – da sua história. Já ouviram falar em White Christmas? O inverno de 2012/2013 teve White Christmas e White Easter. A minha roomate – que chegou uma semana antes de mim – falou que quando ela tinha chegado, ainda havia neve nas ruas. Neve em abril! Realmente é muito raro um inverno durar tanto assim. Ah, e vale lembrar que o parque que ficava na quadra da minha casa estava com todas as árvores mortas, sem folhas.

E de fato, eu senti frio quando cheguei a Budapeste. Levei um casaco mais grosso que comprei na virada do ano em Munique – que ainda nem estava tão fria assim – mas acabei o usando nos dois primeiros dias. Depois, dancei conforme a música e comecei a usar meu guarda roupa Manauara em Budapeste. Usei todos os vestidos, shorts e saias que levei! Me sentia feliz sentindo aquele ventinho fresco. Cheguei em Manaus, e não tive escolha. Tive que continuar usando os mesmos vestidos, saias e shorts, mas eu já tava tão acostumada a ficar de pele exposta no frio que acabo sentindo calor em qualquer lugar.

Mas até que deu pra variar um pouco o guarda-roupa em Budapeste, e realmente, quando a noite caía, a temperatura ia junto. Eu sempre levava um casaquinho fino pra constar, caso eu sentisse muito frio.

E realmente senti muito frio quando estava despreparada. Quando fomos a Praga, a noite estava quente e agradável em Budapeste. Quando chegamos lá, Praga estava fria demais! Só havia levado um casaquinho bem fino, e não aguentava andar muito tempo na rua. O mesmo quando voltamos de Viena. Chegamos em Budapeste, e o clima que havíamos sentido durante todo aquele tempo era completamente diferente! Ventava muito e cheguei a bater o queixo.

Mas isso não é frio de verdade. Quando não se tem as roupas adequadas para enfrentar certos tipos de temperatura, a temperatura cai mesmo. Em Praga eu senti frio, pois havia uma garoa fria junto com vento, e o que eu havia levado era um casaquinho de algodão, que molhava muito rápido. Chegando em Budapeste vinda de Viena, estava de vestido, e estava ventando muito! Então fui pega despreparada nos dois casos. Era primavera, e podia arriscar!

Mas no inverno mesmo, não se pode errar mesmo! Ainda mais quando a primeira vez que você enfrenta um inverno rigoroso é justamente na Rússia em janeiro e fevereiro!

Em invernos, não é recomendável usar 10 casacos de algodão por exemplo. Eles podem molhar com a neve, e o frio será pior. O que é indicado é o uso de um casaco impermeável, daqueles mais grossos, com uma camisa por baixo. Se estiver mais frio, use uma camisa e uma segunda pele.

Calça jeans? Sim, pode usar, mas se tiver uma legging ou alguma outra calça fininha por baixo, melhor.

Tá nevando? Use botas impermeáveis. É bom não se esquecer também de luvas, gorro e cachecol. Não precisa ser nenhum tipo especial. Qualquer tipo serve.

Equipada com todas essas roupas, eu fiquei super tranquila durante meu inverno russo. Com essa minha pequena tropa de roupas, eu pude aguentar um belo dia onde fez -40 graus. Recompensa desse dia? Um lindo céu estrelado. :)

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Tá vendo? Até consegui voar nesse frio. Olha só a altura da neve ao lado. ;)

Mas tem algumas coisas que sofrem em frio intenso. Eu uso muito rímel, e ele congelava após alguns minutos ao ar livre. Só era voltar pra algum lugar fechado – e quente – que eles começavam a derreter, e a maquiagem, borrar!

Meus lábios ressecaram demais também, assim como outras partes do corpo, como tornozelos, mãos e pulsos. A minha garganta também ressecava (ou congelava, não sei) quando eu insistia em respirar pela boca. Sério. Respirar pelo nariz é essencial pra não ter um problema de garganta!

Outra coisa muito boa do frio extremo é a limpeza do ar. Depois de uma certa temperatura, geralmente depois dos -35 graus, muitas partículas de poeira e poluição não conseguem se sustentar no ar, e geralmente elas caem, deixando o ar bem limpo, e o céu, sempre sem nuvens. Já perceberam que quando alguém vê uma imagem de alguma cidade na Rússia no inverno (vi na TV em Moscou, e em Saratov, chegando da estrada), se vê muito as fumaças saindo de toda indústria, carro, ou alguma outra coisa que cause combustão? Então, a fumaça não consegue se dissipar tão facilmente no ar frio, e geralmente, as colunas de fumaça são mais grossas.

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-29 graus em plena cidade. É complicado.

Falando sobre falta de nuvens, as pessoas associam muito o frio com a neve. A verdade é que os dias que nevam são mais quentes do que os dias que não nevam. Motivo? Um amigo me explicou na Rússia, mas tem uma questão do ponto de fusão do gelo, e da ressublimação (passagem do estado gasoso para o sólido – daí surge a neve).

Falando em neve, com certeza é a melhor coisa do inverno! Isso especialmente para uma pessoa que nasceu e cresceu na quentura. Sim, quando eu vi o meu primeiro monte de neve na minha vida, eu implorei para que o meu amigo tirasse uma foto!

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Caboquice x1000. Nunca tinha visto neve na vida. Passando vergonha em plena Praça Vermelha pros ricaços fazendo compra no GUM.

E fazer anjinho de neve? Guerra de bolas de neve? Bonecos de neve? Escrever um milhão de coisas na neve? Quem nunca sonhou em fazer isso pelo menos em sonho? Sim, eu fui feliz, e aproveitei tudo o que eu tinha que fazer na neve!

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Só é feliz quem já fez anjinho de neve!

Manauara não sabe o que é frio de verdade. Nem muita gente sabe, na verdade. Eu sou a primeira a me indignar vendo gente na rua usando aquele casaco cheirando a naftalina no primeiro ventinho. E fico assim não culpando as pessoas que sentem frio fácil, pois muitas delas nasceram, cresceram, e nem saíram da nossa terrinha quente. E fico indignada por que ao contrário de todo mundo sentindo frio, eu fico morrendo de calor.

Mas te garanto uma coisa, depois de -40, qualquer friozinho é fichinha!

Mausoléu de Lênin em Moscou

Dentre muitos lugares a se visitar na Rússia talvez o Mausoléu onde se encontra o corpo de Vladimir Ilych Ulianov, o popular Lênin seja um dos mais icônicos. Ele morreu em 21 de Janeiro de 1924, ou seja, há pouco mais de 88 anos! Desde então o corpo dele é mostrado em exposição em uma pequena construção no coração da Praça Vermelha.

Eu na frente do mausoléu, com os dizeres em cirílico.

Apesar do mausoléu ter sido o primeiro lugar que eu queria ter visitado em Moscou, não tive a oportunidade de ir. Passei apenas sete dias lá, e pelo horário de visitação ser limitado, eu sempre chegava depois da hora prevista. Da próxima vez visitarei com certeza!

O mausoléu fica aberto nas Terças, Quartas, Quintas, Sábados, e Domingos, e somente entre as 10:00 da manhã e 13:00 da tarde. Em feriados o mausoléu não abre. Geralmente eu acordava pelas duas da tarde, o que já era tarde para visitação. :) A entrada é de graça, e o embalsamamento do corpo é feito através de doações. Interessante, pelo menos.

Para os fascinados em História, visitar uma de suas grandes figuras já falecidas em loco pode se tornar uma bela aventura! Bem melhor que visitar um museu de cera, na minha opinião.

Vale a pena viajar no inverno? Cuidados a serem feitos.

Minha resposta é sim. Mas isso vendo desde um ponto de vista pessoal do assunto. Claro que devemos todos já ter em mente o processo do choque cultural antes mesmo de embarcar. Eu já sabia que iria pegar cerca, ou menos de 20 graus negativos no inverno russo, e chegando lá isso não foi um problema. Eu já tinha roupas apropriadas, e tudo o que me restava era esperar, e aguentar o que aconteceria.

O frio, contudo, não foi o meu maior problema. Depois de uma certa temperatura, você se acostuma. Certa vez, uma amiga que morava no Canadá me falou que um dia, a temperatura estava perto dos 3° C, e ela começou a se abanar de calor, e na época, eu tinha achado um absurdo! Na Rússia passei por isso. Já tendo enfrentado uma média de temperaturas entre -15°C com picos de -29° C naquela semana, eu falei para um amigo que aquele dia estava quente, já que só estava fazendo -9°C. Segundos depois, eu me toquei do que eu havia dito e comecei a rir da situação.

A princípio, a minha pele foi o meu maior problema. O frio queimava as minhas bochechas, que ficavam expostas. No fim do dia, eu ficava toda vermelha, parecia que eu usava blush. Nesses casos, o bom e velho protetor solar ajuda a cuidar da pele.

Também comecei a sentir problemas com a respiração. Achava impossível falar e caminhar ao ar livre ao mesmo tempo. Com o passar das semanas, eu notei que eu que era lenta andando, até demais, comparado com as outras pessoas. Eu ficava ofegante logo, e sempre ficava pra trás nas caminhadas. Uma boa dica é o uso de um cachecol na região da boca e nariz. Isso também ajuda com os lábios, que racham, especialmente nos cantos da boca. Fica a dica de sempre estar com um batom, gloss, ou até mesmo manteiga de cacau na bolsa.

Outra atenção a ser tomada é com o gelo nas ruas. A neve não é ruim de se caminhar, pelo contrário, eu sempre preferia caminhar pelo fofinho da neve a correr o risco de levar um tombo onde a neve era mais compacta, ou onde já havia gelo. Farei um post sobre roupas no inverno depois, mas já é válida a dica de levar uma bota impermeável, e com uma certa aderência na sola.

Outra região não tão bem vista quanto o rosto são os tornozelos. Usando bota e meia durante o dia todo, é fácil dessa região ressecar. É bom levar um creme para passar nessa região, ou então passar alguns minutos com o pé dentro da água quente.

E sempre se lembre de se hidratar, afinal de tudo! O inverno “inibe” a sensação de sede, e uma desidratação sempre pode ser fatal.

Então, é hora de aproveitar o inverno, quão frio esteja! Mas é sempre bom tomar cuidado, e aproveitem essa estação linda! :)

Longe de casa, mas no centro do mundo

Continuando com mais detalhes sobre o último post, a chegada na Rússia foi tranquila, mas vale ressaltar alguns detalhes sobre locomoção ali. Fica a dica para outras pessoas que podem passar pela mesma situação que a minha. Eu não ia ficar em Moscou, e sim numa cidade no interior. E teria que arrumar uma maneira de sair do Aeroporto de Sheremetyevo e ir até a estação Paveletskaya, que é tanto estação de metrô quanto de trem.

Para viajantes que vão ao interior, vale uma dica: verifique a estação de trem (que também atuam como metrô) que vai até a sua cidade de destino, e depois verifique qual o aeroporto que tem uma conexão direta ou mais próxima para esta determinada estação.

Foi o meu erro. Antes de explicar o meu raciocínio, todos os três grandes aeroportos de Moscou (Sheremetyevo, Domodedovo e Vnukovo) são ligados por um trem de superfície chamado Aeroexpress a três estações de metrô (Belorusskaya, Paveletskaya e Kievskaya respectivamente). Mais informações desse trem, com horários e preços em http://www.aeroexpress.ru/en/

Eu cheguei no Sheremetyevo e deveria pegar o trem para Saratov na estação Paveletskaya. Nesse caso, tive que partir no Aeroexpress até à sua estação respectiva, a Belorusskaya, e depois fazer uma baldiação no metrô até a Paveletskaya. Minha vida teria sido mais fácil se eu chegasse no aeroporto de Domodedovo, por motivos óbvios de conexão.

No Sheremetyevo, as indicações para chegar ao Aeroexpress são bem claras pelo menos, mas estão escritas em cirílico. Nada melhor que já sair do Brasil com uma noção do alfabeto. O desembarque acontece no andar de baixo, e é preciso pegar um elevador até o andar acima. Lá, existem várias máquinas do Aeroexpress, inclusive em inglês, e o ticket pode ser comprado ali. Com as passagens em mãos, é bom ir partindo logo para o complexo do Aeroexpress, que é bem junto ao aeroporto, só seguir as placas vermelhas. Modéstia a parte, esse complexo tem mais lojas, lanchonetes, e outros estabelecimentos do que o aeroporto em si. Fica a dica pra quem quer pelo menos comer alguma coisa antes de partir.

Eu não tive tempo de passear pelo complexo na chegada. Saí correndo para o trem, que já ia partindo, e demorei pra achar um lugar vago. Lá, pelo menos passavam de vez em quando umas senhoras vendendo água, salgadinhos e afins. Os trens são super modernos, e com opção de classe executiva e econômica. Cerca de meia hora depois, chegamos à estação Belorusskaya, e depois de sair desse complexo do Aeroexpress, que é fora da estação de metrô em si, entramos no metrô.

O meu amigo me levou até a parte superior da estação, onde se vendiam as passagens, e após comprarmos, liguei pra Katya, minha TN Manager (a pessoa que estava cuidando da minha chegada à Saratov). Avisei a hora de chegada, número do vagão e pronto. Era só esperar a partida!

Minha passagem de trem Moscou-Saratov.

Ainda faltavam algumas horas para o trem sair, e o meu amigo me perguntou se eu queria conhecer a Praça Vermelha. Eu, com um sorriso no rosto disse: “claro!” Mas antes de ir até lá, nessa mesma estação, fomos até a seção de guarda volumes para deixar as minhas malas. Esse guarda-volumes ficava num subterrâneo muito escondido. Esse lugar era meio sombrio, caindo aos pedaços, e me senti de volta aos tempos soviéticos ali.

Era 7 de janeiro, sábado à noite, e data do Natal ortodoxo. A Praça Vermelha ainda estava lotada, cerca de umas onze da noite. Achei aquele lugar incrível! Mas logo percebi outro dilema. Levei uma máquina simples, mas de 14 megapixels, e notei que a qualidade das minhas fotos não saía tão bem ao ar livre em climas frios, que nem aquele. Então, o meu amigo tirou da mochila dele uma câmera profissional e começou a tirar fotos! Depois ele me passou por email. Fica outra dica: levar uma câmera semi ou profissional pro próximo inverno.

Depois fomos ao Mc Donald’s da Praça Vermelha (que sempre está lotado), e comi um lanche, afinal, não comia há muito! O gosto do Mc Chicken era igual ao que eu sempre compro aqui no Manauara Shopping, mas fiz questão de tirar uma foto do Mc Donald’s em cirílico! Mal eu pensava que o meu almoço iria se resumir ao Mc Donald’s por quase todos os dias de trabalho em Satatov.

Mc Donald’s, em cirílico!

Cheguei na plataforma do trem, o meu amigo me mostrou o vagão, onde eu podia beber água, onde era o banheiro, e me mostrou onde estavam o meu travesseiro, lençóis, toalhas e etc. Chegou meia noite, e o trem começou a se mover devagar, e o Vasily ficou lá até o trem partir de vez. Mais uma vez, sou extremamente grata pela ajuda! :)

Era noite, e mesmo tendo dormido durante quase todo o percurso, decidi dormir mais ainda. A minha cabine tinha 4 camas, e eu fiquei em uma de baixo, e todas as outras eram ocupadas por homens. O que estava na cama acima da minha saiu logo pela manhã, ficando apenas um senhor ao meu lado, que agia muito naturalmente, até demais ali dentro, e um adolescente, que estava na cama acima dele. Uma coisa que achei demais, era o fato desse adolescente falar muito ao telefone! Onde que no Brasil teria sinal de celular no meio de uma linha férrea?!

Quase no fim das dezoito horas de viagem, os dois começaram a me perguntar em Russo de onde eu era. Eu tentava me comunicar em inglês, também gesticulando, já que o meu russo era o mais básico possível. Quando eu disse que eu era de “Braziliya”, ou seja, Brasil, eles me perguntaram algo que iria ter que responder muitas vezes na Rússia: “O que você veio fazer aqui em Saratov? Aqui não tem nada. O seu país é lindo, e tem verão, e você vem no inverno?” Procurei a palavra “volunteering”, que significa voluntáriado em inglês no meu dicionário inglês-russo, e quando eles viram o significado em russo, eles se olharam, e se impressionaram com isso. Ficamos nesse jogo de comunicação através de gestos e mostrando palavras no dicionário até desembarcar em Saratov.

Saí do trem, procurando a Katya, ou pelo menos como ela era nas fotos, e também outros brasileiros, um que eu já conhecia por estudar comigo, e outro que ainda não conhecia. Logo os reconheci, e entramos no carro, em direção à minha futura casa por dois meses. Estava nevando, e antes que eu pudesse me impressionar com a neve, senti um alívio profundo por finalmente, ter chegado ao meu destino.