Aquela aguinha russa

Simples assim. Mas a “aguinha” que eu falo não é a água de fato, e sim a tradicionalíssima vodka (para ser vodka mesmo, tem que ser russa!!). Eu fiz essa analogia devido ao significado ao pé da letra da palavra vodka, que realmente significa “aguinha” (voda significa água, e vodka seria um diminutivo da palavra).

Mas enfim, a vodka é uma bebida destilada produzida a partir de água, trigo e centeio com origens no leste europeu, mas altamente considerada na Rússia como bebida nacional. E quando eu falo que a vodka é a bebida nacional russa, eu realmente digo que ela é bem mais do que isso, chegando a ser um dos símbolos nacionais mais conhecidos de lá! Afinal de contas, quando se fala na Rússia, muitos pensam logo em vodka, certo?!

Meus amigos russos gostam de tomar a vodka bem gelada, e tomar sem nenhuma outra bebida misturada. Vodka para eles é simplesmente pura, esqueça o energético e alguns cocktails. No inverno, é muito comum ver gente que além de beber muita vodka, gostam de fumar também. Dizem eles que essa mistura “esquenta” o corpo. Mas fato mesmo é que a vodka pura é consumida em países de clima um pouquinho mais gelado realmente.

A questão é que eu fui pra Rússia e não consegui sequer tomar um shot de vodka. Eu sou fraca para bebidas e não conseguia tomar a vodka simplesmente pura, como eles costumam fazer por lá. Porém, minha consciência está limpa, sabendo que pelo menos eu tentei virar um shot. :)

E ali em cima eu falei que vodka de verdade tem que ser russa! Na verdade, quando você sabe que a bebida foi destilada e engarrafada na Rússia, a certeza é que a bebida é de qualidade!

Sobre preços, obviamente existem bebidas de todos os gostos (isso não posso comentar, infelizmente) e bolsos! Boas vodkas são encontradas em mercadinhos, supermercados e em lojas especializadas em bebidas. Em Moscou, perto do meu hostel na Tsvetsnoy Bulvar existia uma loja muito boa que vendia umas vodkas bem exclusivas. Um amigo comprou várias para levar pra casa, e depois me arrependi de não ter comprado para revender por aqui. :(

E para finalizar, uma curiosidade é que a cerveja na Rússia não é nada gostosa. Eles servem a cerveja a temperatura ambiente, o que deixa o gosto aguado, nada bom.

Mas enfim, se você bebe e quer aproveitar ao máximo da Rússia, ir até o supermercado e comprar algumas vodkas não é uma má ideia.

Dinheiro na Rússia

Priviet! Hoje vim falar sobre um detalhe muito importante para quem vai passar alguns dias na mãe Rússia, que é o câmbio. Dúvidas sobre como trocar dinheiro, quanto levar e outros pequenos detalhes são sempre frequentes para todos aqueles que me pedem dicas para viagem.

Primeiro, é necessário saber que a moeda vigente na Rússia é o rublo russo, e não RUBRO, plmdds. Na época que eu viajei, 1 real equivalia a 17 rublos. Hoje em dia, de acordo com o conversor do Bacen, real equivale a cerca de 13 rublos, ou seja, o rublo “se tornou mais forte”.

Enfim, vou esquecer a macroeconomia por um momento, mas fica meio óbvio para todos os viajantes, que com uma taxa de câmbio dessa proporção, já é possível notar que as notas do rublo tem valores “altos”. Existem moedas de 50 kopeeks (centavos), 1 rublo, 2 rublos, 5 rublos e 10 rublos.

Em notas, existem notas de 5, 10, 50, 100, 500, 1000 e 5000 rublos. A de 5 rublos aos poucos está entrando em desuso, então fica a dica.

Notas do rublo.

Notas do rublo.

E qual a melhor maneira de levar dinheiro pra Rússia? Escrevi esse post explicando as melhores maneiras de se levar dinheiro pro exterior, com prós e contras pra cada. Mas a melhor dica de todas é: diversifique! Leve papel moeda, cartão de crédito, débito, VTM, Western Union… melhor prevenir do que remediar!

Caso você pense em levar papel moeda, casas de câmbio que trocam rublos ainda são raras no Brasil, então o recomendável é que você troque uma terceira moeda (o euro seria mais recomendável), e troque uma pequena quantidade de dinheiro, como uns 50 euros no aeroporto, seja na conexão aérea ou já na Rússia. É obrigatório ter uma pequena quantidade de rublos ao sair do aeroporto para questões como transporte e primeiras despesas.

Eu friso a importância do papel moeda na Rússia pois muitos lugares ainda não aceitam cartão de crédito ou tecnologia semelhante. Mesmo em Moscou, uma cidade rica e cosmopolita, alguns lugares só aceitam dinheiro vivo. Então o recomendável mesmo é andar com dinheiro na Rússia.

Os melhores lugares para fazer essa troca de dinheiro do euro/dólar para o rublo são em casas de câmbio e em bancos. Mesmo com a dificuldade na comunicação, ainda é possível fazer essas trocas cambiais com segurança e com nenhum contratempo nos bancos. Também existem casas de câmbio, mas geralmente elas ficam em becos e não parecem nada confiáveis. Uma delas era tão bizarra que fiquei com medo de entrar sozinha.

Um ponto de atenção que posso dar também é que em alguns bancos, eles não aceitam notas amassadas, com resquícios de água, ou velhas. Fica a dica em levar notas bem novinhas.

Também já ouvi falar de uma praça em Moscou que trocam reais por rublos. Nunca fui até lá, mas não pense duas vezes: não confie em trocar reais diretamente por lá!

Aproveite sua viagem pra Rússia tranquilamente! E também prepare-se para gastar bastante em Moscou!

Tô indo pra Rússia! E agora?

Essa foi a pergunta que fiz assim quando resolvi fazer meu primeiro intercâmbio na mãe Rússia, afinal de contas jamais tinha viajado sozinha e de cara já ia assim, pro outro lado do mundo! Imagina a reação da minha família ao descobrirem meu destino!

Imagina sair do calor do Brasil direto para -29 graus?

Imagina sair do calor do Brasil direto para -29 graus?

Apesar da história e cultura desse país me chamarem muito a atenção (tornando a minha escolha mais óbvia), eu já teria certeza de que muita coisa seria diferente do Brasil, e cuidados e precauções são sim, muito bem vindos!

  1. Aprender o básico do alfabeto. O russo é um dos idiomas que utilizam o alfabeto cirílico como base. Algumas letras são iguais completamente, outras iguais na escrita e diferentes na pronúncia, e também existem letras totalmente diferentes, e algumas inclusive sem som semelhante à algum som em português. Já escrevi um pouco sobre o idioma russo aqui.
  2. Assine o papel da imigração. Antes de passar pela imigração, é obrigatório o preenchimento de um papel contendo informações sobre você, número de passaporte, onde vai ficar e afins. São duas vias: uma para deixar na imigração ao chegar, e outra ao sair. Geralmente eles dão esse papel ainda dentro do avião, e no meu caso, tive que pegar em uma mesinha por ali. A via a ser entregue é muito importante, não perca! Hoteis e albergues só aceitam o hóspede com a presença desta.
  3. Faça o famoso registro. Desde os tempos soviéticos, os estrangeiros eram meticulosamente monitorados para questões de segurança nacional. Hoje em dia, muita coisa mudou, mas esse hábito do registro ainda persiste. Se planejas ficar mais de uma semana na Rússia, é bom se dirigir aos correios e tirar esse documento.
  4. Passaporte sempre disponível. Caso algum policial venha a te abordar, é bom apresentar o passaporte e o registro de entrada. Não rola esconder o passaporte na pochete que vem dentro da calça, ou andar sem ele por aí.
  5. Cuidado com o dinheiro para troca. Em Moscou isso não aconteceu, mas em outras cidades na Rússia, as casas de câmbio são “seletivas” para a qualidade do dinheiro que você quer trocar. Caso a nota esteja amassada, velha, e até com resquícios de água (!!) eles podem simplesmente não aceitar. É bom de levar sempre notas “bonitinhas”. Uma dica é de trocar a maior parte do dinheiro nos bancos, ao invés de fazer isso no aeroporto.
  6. Leve mais dinheiro vivo que crédito no cartão. No interior da Rússia, poucas lojas aceitavam cartão de crédito/débito, fazendo com que o precioso papel moeda fosse gasto rapidamente. Mesmo em Moscou vi lojas que não aceitavam cartão de jeito nenhum.
  7. Fique atento nas temperaturas. A Rússia é um país com invernos gelados e verões quentes. Mesmo assim, de vez em quando a natureza prega umas peças, deixando o verão não tão quente assim. Se for viajar no verão, é bom ter roupas leves, mas um casaquinho na bolsa não fará diferença. Se for viajar no inverno, melhor ter cuidado com muitas coisas. Escrevi um pouco disso aqui.
  8. Fuso horário diferente. Moscou se encontra no GMT +4, ficando de 5 a 8 horas de diferença do Brasil considerando o horário de verão e diferentes regiões. No far east, o GMT chega até o +12! Caso você for se locomover pelo país, especialmente de trem, considere essa diferença.
  9. Cuidado com o táxi. Especialmente em Moscou, os motoristas são careiros e tentam tirar vantagem dos estrangeiros, especialmente aqueles que não falam russo. A melhor opção é usar o transporte público o máximo possível.
  10. Use transporte público para sair do aeroporto. O aeroexpress é um trem que sai dos três principais aeroportos de Moscou em direção ao metrô. De lá, se consegue chegar em qualquer lugar.

Ir para a Rússia não é tão difícil quanto parece e me alterei quando li relatos de outros viajantes, que pareceram não se preocupar com muita coisa, especialmente quanto à preparação da viagem. Planejamento e preparação são essenciais para qualquer pessoa que sai do seu país procurando não ter uma experiência de choque cultural tão forte. Seguindo essas dicas e pesquisando bastante sobre a região onde você vai ficar, hotel, comida, e outros detalhes de relatos de viagem, meio caminho já está andado. O resto é para se descobrir já no destino.

Depois de um tempo, posso escrever mais dicas por aqui. Qualquer coisa, curiosidades úteis sobre a Rússia se encontram aqui.

A avenida boêmia de Moscou

Moscou é uma cidade cara, cosmopolita, bonita e cheia de coisas pra fazer na noite e em happy hours. Muitos lugares são conhecidos pelos turistas e o principal deles da cidade é a Arbat ulitsa (ulitsa significa rua em russo).

A rua Arbat é uma rua exclusiva para pedestres de cerca de 1km de extensão cheia de barzinhos, restaurantes, lojas de souvenirs, artistas de rua e tudo que incita a vida boêmia. Existem relatos dessa rua desde o século XV, a tornando uma das ruas mais antigas de Moscou.

A avenida é cheia de turistas e alguns moradores buscando opções de entretenimento. Ali perto, quase paralela à ulitsa Arbat, existe também a Novi Arbat, uma avenida cheia de restaurantes e nightclubs caros, onde alguns ricaços passam o tempo.

Arbat ul. em Moscou

Arbat ul. em Moscou

Como chegar até à ulitsa Arbat? Recomendo parar na estação do metrô Smolenskaya (linha azul) e seguir andando direto até a Praça Vermelha. Também é possível chegar lá através da estação de metrô Arbatskaya, mas é necessário atravessar a rua via Arbatskaya ploschadii.

Que tipos de restaurantes existem por lá? A Arbat ul. tem diversas opções de restaurantes. Dentre os fast foods, é possível comer no Mc Donald’s e na Wendy’s (primeira vez que vi uma filial fora dos EUA, particularmente), Dunkin’ Donuts e outros. O Hard Rock Café também tem sua filial em Moscou ali, bem pertinho da estação Smolenskaya. De restaurante russo, recomendo o Mu Mu (My My em russo), que é uma espécie de churrascaria. E por falar em churrascaria, achei uma “Brazilian Steakhouse” por lá!

Souvenirs ali são baratos? A Arbat possui lojas com artigos caros e baratos, e nada que uma simples pesquisa de preços pelas lojas dali não ajudem. Os vendedores dificilmente falam ingles, e pechinchas só são feitas com russo.

Consigo achar artigos antigos? Sim, mas é necessário ter cuidado com isso. A Rússia proíbe que artigos de arte bem antigos saiam do país, então é necessário perguntar do vendedor se o artigo é antigo ou não. Eles já são prevenidos quanto a isso e sempre fazem um bom negócio.

Que tipos de artistas de rua a Arbat ul. possui? Ali existem muitos que vendem suas pinturas a oleo, assim como pessoas que fazem caricaturas, músicos como violinistas, sanfoneiros e muitos violões.

Existem museus na área? Sim, e um dos mais famosos, que é a casa do Alexandr Pushkin, aberta para visitação.

E sobre nightlife? Existem muitos pubs pela região. Muitos são do mesmo estilo: vendendo vodka e cerveja barata. É bom ver qual o tipo de estrutura que agrada mais.

Segurança? Com a presence de turistas, é até “comum” a presença de batedores de carteiras por ali. Moscou é uma cidade relativamente segura, mas nada que bons hábitos de segurança levados daqui do Brasil não ajudem.

Me conte mais da mãe Rússia

Quando eu decidi ir pra Rússia lá por 2011, a única coisa que vinha na minha cabeça era “be there”. Estar ali em um país milenar, com grande importância na história recente, e principalmente, enormes diferenças com o Brasil já era um grande motivo para sentir orgulho de mim mesma, especialmente em termos de amadurecimento pessoal. Afinal não é todo mundo que de cara viaja pro outro lado do mundo sozinha pela primeira vez sem enlouquecer com novo idioma, nova temperatura, novos costumes, e por aí vai.

Euzinha, no primeiro dia na Rússia!

Euzinha, no primeiro dia na Rússia!

Muitos motivos me fizeram escolher a Rússia como destino, que já discuti aqui lá nos primeiros posts. Mesmo assim muitos detalhes incríveis só me fizeram confirmar o que eu já imaginava. Baseado no post sobre a Hungria e suas curiosidades, resolvi fazer um semelhante com a Rússia através da sugestão de amigos que me acompanham por aqui.

– Todo mundo aprendeu nas aulas de geografia na escola que a Rússia é o maior país do mundo, mas ela já foi bem maior há umas duas centenas de anos. A área dela se extendia da Polônia até o Alaska e cobria grande parte de alguns países independentes hoje como a Ucrânia, Finlândia, os Países Bálticos, o Cáucaso e o Cazaquistão por exemplo.

– Sim, você leu certo. O Alaska fez parte da Rússia até 1867, quando foi vendido aos Estados Unidos por cerca de 120 milhões de dólares atuais. O nome “Alyaska” em russo é algo como “península” e foi vendido devido à necessidade da Rússia em conseguir dinheiro, aliado ao desejo dos Estados Unidos em ampliar o seu território. Na época, eles ainda estavam interessados em conquistar a Colúmbia Britânica no Canadá e criar uma conexão direta. Isso obviamente nunca aconteceu, e grandes reservas de ouro e petróleo foram achados no Alaska. Os Estados Unidos saíram do lucro com essa transação.

– Eu cheguei na Rússia no dia 7 de janeiro, durante o Natal. Você leu certo de novo, que o Natal é comemorado nessa data. Isso se deve ao fato de que a Rússia demorou a aderir ao calendário gregoriano e quando o fizeram, acabaram readaptando as comemorações em novas datas. Uma semana depois, no dia 14, o “ano novo velho” é comemorado, fazendo com que os russos comemorem o “ano novo” duas vezes por ano.

– Os russos são extremamente místicos e religiosos. Um dos momentos em que essa fé é demonstrada é no ritual do “Batismo do Senhor”, onde as pessoas celebram o ritual do batismo mergulhando em lagos ou rios. Nada muito trivial assim, mas o detalhe é que esse ritual acontece lá pelo dia 18 de janeiro no ápice do inverno! Eu presenciei esses mergulhos e eles aconteciam com uma temperatura externa de -20 graus!

– Acha que se come muita comida japonesa no Brasil? Na Rússia se come muito mais (sem brincadeira)! Existe todo tipo de sushi em TODO lugar, em qualquer restaurante mais eclético por exemplo. A principal diferença é a quantidade de sushis em uma porção. Lá uma porção é de 4 a 6 peças, e aqui em Manaus por exemplo, uma porção chega a ter 12 peças.

– Qualquer chuvinha te impede de ir pra escola/faculdade? Na Sibéria os alunos da educação infantil só são liberados com a temperatura bairando os -40 graus, e os alunos um pouco mais velhos só a partir de -50 graus.

– A Rússia é um dos países com taxa de crescimento populacional decrescente. Adivinha só o motivo principal de acordo com pesquisas sobre o assunto? Muitos homens morrem por cerca dos 40 anos devido a consequências do alcoolismo. Alguns dizem também que não é mais um costume russo ter mais de um filho, especialmente após a queda do regime soviético e da crise econômica de 1998. O governo russo atualmente está tentando inibir o consumo de vodka e ajudando financeiramente famílias com mais de um filho.

– Pelo motivo acima (ou não), a população feminina é maior que a masculina na Rússia.

– Quando se fala em Rússia, muitos pensam logo em Vodka. Água em russo significa “Voda”, e Vodka seria algo como “aguinha”.

– Outra coisa semelhante: Sabe aquele cachorrinho lindo, o Husky Siberiano? “Russo” em russo significa “Russki”, e com o aportuguesamento da palavra, Russki virou Husky. Então o nome do cachorro literalmente é “Russo Siberiano”.

– Os russos são um povo que pode literalmente aguentar qualquer clima. Além do inverno rigoroso bem conhecido, os russos podem enfrentar verões escaldantes pra lá dos 40 graus em cidades na beira de praias ou rios e imensa secura em cidades bem do interior.

– Existem alguns canais de televisão que abaixo do logo da emissora indicam a temperatura vigente na cidade que você está.

– Os russos dirigem bem mal (tenho infelizmente más lembranças de motoristas). Veja-se os inúmeros acidentes de trânsito bizarros no youtube.

– Falando em direção, é comum que os carros de polícia possuam câmeras filmando a estrada. Essas câmeras não são posicionadas pra filmar eventos esporádicos como o meteoro de Chelyabinsk, e sim para evitar práticas de corrupção.

– O site mais acessado na Rússia é o vkontakte, que é uma rede social que só bomba por lá. Eles tendem ser bem mais ativos no VK do que no Facebook por exemplo. Eles chegam a abusar do VK, postando todo tipo de meme (sim, memes) e fotos bem malucas. Tem uma menina que conheci que postou fotos completamente nua na neve e – pasmem – também postou fotos dela cortando o antebraço, e lambendo o sangue que saía dela.

– Russos não sorriem nem falam por favor ou obrigado para desconhecidos (salvo raríssimas – MUITO RARAS exceções). Mas caso você conheça um russo por 10 minutos, eles já se tornam extremamente amigáveis, e se você os conhece por mais de uma semana, você tem um amigo para sempre.

– Já falei por aqui o meu martírio com o Chá. E reafirmo que russos AMAM chá.

– O sistema de aquecimento a vapor é bem potente, deixando as casas bem aquecidas durante o inverno. Você até chega a esquecer que está batendo -30 graus lá fora.

– Russos não usam smiles ou emoticons na internet. Eles usam parênteses! Se for algo feliz, como “Nós vamos sair mais tarde :)” vira “Nós vamos sair mais tarde))))”. Se for algo triste, como “Eu sinto a sua falta :(” vira “Eu sinto a sua falta(((((”

– Eita povo supersticioso! Eles não se cumprimentam debaixo de portas, nem dão flores em números ímpares e ao esquecer algo em casa, eles PRECISAM se olhar no espelho. Tudo isso é sinal de má sorte.

– Mas eles também são super educados e pontuais. Ao cumprimentar alguém no inverno, eles sempre tiram a luva, e ao entrar na casa de alguém, tiram os sapatos.

– O maior museu do mundo é o Hermitage, que fica em São Petersburgo! Anos antes, ele era o palácio de inverno da família real.

– Muitos russos tem nostalgia da época soviética, especialmente no que tange à bravura do país perante a Guerra Fria e à muitos serviços soviéticos que prestavam (assim dizem eles). Também é bem comum de ver monumentos homenageando a URSS e estátuas do Lênin em quase todas as cidades russas. Mas estátuas do Stalin? Essas são bem difíceis de encontrar (fora dos cemitérios de estátuas).

– Falando do Lênin, morto em 1922, seu corpo está embalsamado e está em exposição em plena Praça Vermelha. Já comentei sobre ele aqui.

– Moscou é uma das cidades mais caras do mundo, e uma que tem mais bilionários. Moscou também tem mais Porsches do que em ~toda~ a Alemanha.

– Falando na Porsche, é bem comum ver um Lada (carro de fabricação soviética) ao lado de uma Ferrari em Moscou.

– E falando em carros, Moscou é uma cidade que tem um dos trânsitos mais terríveis do mundo. Mesmo assim, todos ainda compram carros.

– O nome do pai é o nome do meio dos russos. Se nasce um menino, o nome do meio é o nome do pai mais “ich” e se nasce uma menina, o nome do meio é o nome do pai mais “ovna” ou “evna”. Geralmente os russos se apresentam com o seu nome mais o nome do meio. Me lembrei agora do nome da diretora e de uma professora da escola que eu trabalhava. Elas se apresentavam como Vera Vassilievna (Vera, filha do Vassili) e Larisa Alexeeva (Larissa, filha do Alexei).

– Os sobrenomes também sofrem uma alteração de acordo com o sexo. Para os homens, o final do sobrenome é “ev, ov, in, y” por exemplo. Para meninas, essas mesmas terminações ficam como “eva, ova, ina, ya”.

– E terminando de falar sobre nomes, os russos tem o seu nome, e um diminutivo, que é o que eles normalmente preferem ser chamados. Minha host se chamava Ekaterina, mas gostava que a chamassem de Katya. Minha host mother se chamava Tatiyana, mas se apresentava como Tanya, e assim vai. Outros nomes diminutivos são bem estranhos. Uma amiga minha de nome Sofiya era chamada de Sonya (acho meio nada a ver um com outro), e qualquer pessoa chamada Alexander ou Alexandra tem seu diminutivo como Sasha (Sério, não entendi).

Podia falar aqui bem mais, mas já tou chegando a 1500 palavras (risos). Sem problemas, pois vou continuar a escrever tudo sobre a Rússia por aqui. ;)

Como é difícil dizer adeus!

No post anterior, eu tentei escrever brevemente sobre o meu primeiro dia em Moscou, a minha mala quebrada, o jogo da Champions, e o meu aborrecimento com a Katya.

As primeiras pessoas que me despedi na Rússia, foram as pessoas que ficaram em Saratov, e não foram pra Moscou, como a minha host family, e alguns amigos que fiz, e vi na minha festa de despedida no bar soviético, na principal avenida da cidade.

A segunda despedida aconteceu logo após o jogo da Champions. Me despedi da Katya, do Kolya e da Alina ali no metrô mesmo. A Katya ainda estava super nervosa, com medo de perder o ônibus de volta pra casa, e só deu um tchau rápido, e logo quando o trem chegou, eles foram embora. Mais cedo naquele dia, também nos despedimos da Yasmin, que era aquela brasileira que conhecemos lá em Moscou, já que ela já ia pegar o voo de volta pro Brasil na manhã cedo seguinte.

Naquele momento, ficamos no hostel, eu, o Pedro, o Marcio e o Rhushabh, e a Sasha na casa de um amigo, mas todos os dias nos encontrávamos pela cidade, onde passeávamos, íamos fazer compras, conhecendo museus e outras coisas.

Alguns dias após o jogo, o Márcio partiu pra Praga numa manhã bem cedo. Eu até ia com ele, mas pelo site de passagens não ser muito confiável, a compra da minha passagem foi bloqueada pelo cartão, e fiquei em Moscou mesmo. A partir de então, ficamos nós três, e a Sasha.

No dia seguinte, a Sasha teria que voltar pra Saratov de trem. Como ela estava dormindo na casa de um amigo, nós combinamos de nos encontrar em um determinado ponto, mas chegar até lá foi meio complicado. Eu, o Rhushabh e o Pedro fomos atrás de um restaurante indiano que havíamos encontrado online, mas após rodar a tarde toda em uma parte de Moscou que ninguém conhecia ainda, desistimos de procurar, e encontramos uma Subway, e ficamos por ali mesmo. Já era 18h e ainda não tinha comido nada naquele dia, e juro que comi um sanduíche de 30 centímetros! Até hoje não sei como consegui fazer essa proeza. :)

Essa Subway ficava perto de uma tal estação de metrô, e pedimos pra Sasha ir até lá. Ela chegou, e entregou pra mim e pro Pedro dois presentes muito fofos. Ela nos deu uma caixinha de chocolate com várias barrinhas, e cada uma delas tinha uma letra do alfabeto cirílico, uma palavra que começasse com essa letra, e o desenhinho dela. Era bem didático e meio infantil, mas foi muito fofinho! Fora isso, ela deu uma cartinha que até hoje guardo com carinho. Ali mesmo ela foi embora, e logo senti o peso da despedida. Após a partida daquelas pessoas, eu sentia que deveria ter dado mais atenção pra elas, e agradecer bem mais do que já havia agradecido por tudo a eles.

A partir de então, ficamos só eu, o Pedro e o Rhushabh. Até o fim da minha permanência em Moscou, seríamos só nós três, e confesso que quis aproveitar ao máximo o tempo que tinha com eles. O nosso último dia juntos seria no dia 28 de fevereiro. Acordamos cedo, e fomos dar uma de turistas pela cidade. Ficamos quase todo o tempo juntos, com exceção da visita ao Kremlin, que não pude ir, pois não tinha dinheiro pra comprar o ingresso, que estava muito, muito caro, e ainda estava sem a minha carteirinha de estudante (muito válida!).

Chegou o fim da tarde, e o Rhushabh tinha que ir embora. Ele ainda teria que passar cerca de um mês em Saratov, e lá fomos nós no metrô, indo deixar o nosso amigo ir. Quando ele virou as costas, a partir daquele momento, era só eu e o Pedro. Para comemorar as nossas últimas “horas” como intercambistas, decidimos ir até o Hard Rock Café da ulitsa Arbat, comer um lanche, e conversar, seja sobre a vida, planos, família, amigos, lembranças, e outros. Não sei se o Pedro estava percebendo, mas eu comecei já a sentir o peso da despedida desde a saída da Sasha. Não sei, mas senti que eu poderia ter dado mais um abraço, mais um “obrigada por tudo”.

Lá no Hard Rock, um momento descontraído aconteceu! Sentamos em uma mesa, começamos a conversar, e o Pedro começou a sentir umas goteiras caindo em cima dele, e trocou de lugar na mesa. Sério, menos de um minuto depois disso, um monte de água suja caiu bem na cadeira onde ele estava! Era uma espécie de água com espuma, meio escura que caiu de uma espécie de tampa, que havia bem em cima das nossas cabeças. Agora, já pensou se ele tivesse ali sentado ainda? Fica a dica de ver em todo lugar, o que tem acima das nossas cabeças (risos).

Após comer, voltamos ao nosso hostel, onde tínhamos que passar como uma hora esperando. Passamos mais esse tempo refletindo sobre a vida lá na sala de espera. Quando deu uma hora certa pra ir ao aeroporto, fomos ao guarda volumes do hostel, pegamos as nossas malas e fomos em direção ao aeroporto!

Ali, um dos momentos mais tensos de todo o meu intercâmbio (e creio que do Pedro também) aconteceu. Lá estávamos nós, fim da nossa viagem, com mais compras do que nunca, carregando as nossas malas de volta ao metrô. Em um dia normal (sem malas), o trajeto hostel-metrô era tranquilo. Era como uns 5 minutinhos andando. Cada um de nós estávamos carregando 4 bolsas. Eu estava com a minha mala nova gigante mas com aquelas rodinhas que viram, uma mala de mão (aquela que me ferrou no início da minha viagem), uma bolsa de ombro mesmo, e uma pequena transpassada. Olhando assim, parecia até fácil levar, mas lembre-se que eu sou muito sedentária! Eu até me cansava rápido, mas esse trajeto foi bem mais tranquilo do que da ida a Moscou.

O Pedro, coitado, estava carregando a mala grande dele, uma bolsa de mão que nem a minha, uma mochila, e a minha finada mala quebrada carregando na mão, que estava cheinha de vodka. Ele dava uns dez passos e parava ofegante. Imagina, só a minha mala estaria pesando horrores por causa da vodka. Eu me lembro, em uma certa altura falar algo como “que era a última vez que estávamos nos desafiando naquele frio desgraçado!” Ele estava voltando ao Brasil, e iria despachar tudinho e se livrar do peso, e eu estava indo a Paris, e lá teria uma vida de turista, não de intercambista. Hehe.

Cheguei no metrô, e a senhora que resguardava a entrada olhou pra gente e disse que precisaríamos pagar as nossas passagens, e as das malas. Olha, quando eu fui pra Saratov, e tive que fazer uma baldeação no metrô, só paguei a minha passagem! Mas liguei aquela tecla lá, e não achei problema em pagar uns 2 reais a mais por causa disso.

Chegamos na estação Beloruskaya, e necessitaríamos pegar o Aeroexpress pro aeroporto. Só que o Aeroexpress ficava num prédio fora do metrô. O Pedro disse que ele iria lá fora pra procurar esse prédio, e enquanto isso, eu fiquei ali na estação com as malas. Uns 10 minutos depois, ele voltou, e eu já estava começando a ficar nervosa. Imagina, eu, sozinha, quase meia noite, com 8 malas ao meu redor. Comecei a pensar que as câmeras estavam me monitorando, e alguém poderia estar pensando que eu poderia ter alguma bomba nessas malas. Heheheheh. O mais engraçado, foi que o Pedro voltou, e disse que por pouco ele não entrava, pois a carteira dele havia ficado na mochila, que estava comigo. Sorte a dele que ele havia alguns trocados no casaco.

Então, entramos no trem pro aeroporto, e durante o trajeto, uns 40 minutos, uma playlist bem triste começou a tocar na minha cabeça. Mais algumas palavras trocadas, e chegamos no Sheremetyevo. Olhei para as partidas, e vi que o meu voo pra Istambul já estava com o check in aberto. Imagina o alívio de ter que me livrar das minhas malas logo ali! Foi uma sensação ótima. Nunca mais precisei carregar tanto peso naquela viagem.

Isso era um pouco mais de meia-noite, e o meu voo pra Istambul saía às 6:40 da manhã, e do Pedro, pra Amsterdam, às 6:45, ou seja, teríamos que passar uma bela noite no saguão do aeroporto. Agora, imagina a enrolação. Não tinha nada aberto no aeroporto, com a exceção de um restaurante com nenhuma comida atraente. Todas as lojas do complexo do Aeroexpress estavam fechadas, e foi uma batalha pra encontrar alguma tomada disponível.

Depois que achamos essas tomadas, foi fácil passar a noite, especialmente pelo aeroporto ter wi-fi livre e ilimitado. Liguei o skype com um amigo, e passei umas boas horas lá batendo papo com ele. Me lembro que ele me prometeu me levar para comer uma comida regional assim que eu chegasse, já que ele não estaria em Manaus para me buscar no aeroporto. Mais de um ano se passou, e ainda não fui comer com ele! Estou aguardando convites. :)

Depois que abriu o check-in pra Amsterdam, o Pedro foi lá, despachou as coisas dele, e decidimos logo embarcar. Não pegamos nenhuma fila, e a imigração foi bem tranquila. Eles carimbaram a minha saída na última página do meu passaporte, pegaram a minha folhinha da imigração, que havia preenchido na entrada, e pronto! Teoricamente, estávamos fora da Rússia.

Estava morrendo de fome, e já que não tinha nada pra comer no saguão do Sheremetyevo, eu achei que na área do embarque, teria algo. Realmente, lá havia uma área de free shop grande, com vários chocolates, perfumes, bebidas (claro, é a Rússia!), mas não comprei nada, mesmo achando os preços bons. Por exemplo, o perfume Prada Milano grande estava só 52 euros. Em Paris, eu achei esse perfume só mais que 70 euros. Agora vai comprar um Prada Milano aqui em Manaus pra te ver…

Fora o free shop, só haviam uns dois lanches abertos, mas eles eram estranhos. Acho que um era só de comida saudável, e o outro, de doces. Sinceramente, não gostei da aparência de nada dali, e comprei só uma Coca Cola, e uma espécie de Club Social russo em uma maquininha tipo vending machine.

Isso já era quase 5 da manhã, e meus olhos estavam fechando. O Pedro perguntou se ele poderia pegar as fotos que eu tinha do nosso intercâmbio no computador, e enquanto isso, deitei minha cabeça na mesa e tirei uma soneca. Alguns minutos depois, o Pedro pergunta se não era a hora de nós irmos, pois as companhias aéreas já estavam se organizando. Quando as filas começaram a crescer, nos levantamos, e me despedi dele.

Sabe, foi um aperto no coração muito grande, não só pelo Pedro ter se tornado um grande amigo durante a viagem, mas também por ele ser o último. O último! Quando iria voltar pra Rússia? Quando eu veria novamente algumas daquelas pessoas? Desde a minha host family, os meus estudantes, os professores, o meu amigo que me buscou na chegada, o pessoal da AIESEC e todos os amigos trainees que fiz? Eu senti que havia chegando na reta final, e eu tinha acabado de desapegar da última pessoa.

No meio da fila de embarque, eu não resisti. Eu chorei que nem uma criança! Todos aqueles momentos me vieram à mente, e chorava horrores! Senti uma pena vindo das aeromoças que me viram entrar no avião. Fiquei triste sim, mas engoli o choro quando vi a situação lá fora. Estava nevando forte, e comecei a pensar como o avião subiria naquelas condições. O medo de avião voltou, e por um momento esqueci a saudade e comecei a ficar apreensiva. Não sei se ficava feliz ou não, quando o piloto, com um sotaque turco bem forte, falou, com uma voz de preocupação que o avião estava fazendo o degelo das asas. E se aquele degelo não fosse bem feito? Socorro!

O avião decolou. Minutos depois, acabei relaxando, e voltei a ficar triste. Comecei a assistir um filmezinho, e fiquei esperando a minha chegada a Istambul, mas por algum motivo, todas aquelas imagens não saíam da minha cabeça. Horas depois, peguei a minha conexão a Paris, e fui aproveitar meus dias na França.

Nada melhor que a sensação de estar um passo mais perto de casa, mas saber que lá do outro lado do mundo, existem pessoas que você vai guardar no seu coração pra sempre é quase inacreditável.

Assim que percebemos a honestidade!

Quando nós pensamos em uma sociedade honesta, a primeira característica que podemos associar é justamente a educação. Mas que educação é essa que diferencia certos povos de outros, ou pessoas de criação diferentes, ou até de estratos sociais opostos?

Vou contar uma historinha. Lá em Saratov, e em outras cidades russas, você sempre ganha um ticket numerado ao andar no transporte público. Esse ticket valia 12 rublos para as vans, e 10 rublos para os ônibus e bondes. Um valor de transporte público barato, considerando que 1 real vale pouco mais de 15 rublos, ou seja, 98 centavos para uma passagem em um transporte público precário, em alguns casos, mas extremamente eficiente.

Alguns dos meus tickets de ônibus

Para os bondes, todos que entravam, logo eram abordados pela cobradora. Ela andava com uma pochete com dinheiro trocado e um rolinho com mais tickets. O mais impressionante era que ela sempre conseguia cobrar de todo mundo, mesmo quando os ônibus estavam lotados, e jamais essas cobradoras abordavam uma pessoa duas vezes! Haja memória fotográfica…

Nos ônibus, o pagamento só era feito na saída. Nesse caso, cobradores já não existiam, e quem fazia esse papel era o próprio motorista. Como a saída do ônibus só era permitida pela frente, ele tinha o controle de todo mundo lá dentro, e fazia o mesmo: dava o ticket, recebia o dinheiro, e dava o troco, se tivesse.

Nas vans a situação era bem mais curiosa. Lá também o motorista também atuava como cobrador de ônibus, e a passagem era paga ali, na hora, com o carro em movimento, e tudo! Por exemplo, se só tivesse lugar na parte de trás da van, eu me sentaria ali, pegava o dinheiro do ônibus, e passaria para a pessoa da frente, que passaria o dinheiro até chegar no motorista. Alguns minutos depois, o ticket voltava pra trás, e se houvesse troco, ele também voltaria, e certinho, através das mãos de todos no ônibus.

Uma vez, vi uma cena interessante sobre isso. Numa van lotada, sem lugar pra sentar, e com várias pessoas de pé, entrou uma moça que passou algum tempo procurando na carteira o dinheiro do ônibus. Só que ela só tinha uma nota de 5000 rublos com ela (o equivalente a 327 reais)! Ela passou o dinheiro, e após um tempo (cerca de uns 5 minutos), um bolinho de moedas começou a passar de mão em mão até voltar na moça. Como a passagem era 12 rublos, eu aposto que lá haviam exatamente 4988 rublos, sem nenhum centavo a menos!

Outra vez, dentro de uma van, eu estava segurando o meu celular com a mão, e tive que tirar a luva pra pegar o dinheiro pro pagamento da passagem de dentro da minha bolsa. Paguei, e percebi que nem a minha luva, e nem o meu celular estavam comigo. A estrangeira fez um clamor dentro da van pra saber se alguém tinha visto cair as coisas. Todo mundo começou a procurar, e uma moça que estava na frente achou ambos, e me entregou. Fiquei pensando se uma situação dentro dos ônibus aqui em Manaus teria esse desfecho igual. Creio que uma ou outra pessoa eventualmente ajudaria, mas na grande maioria dos casos, se alguém tivesse achado o meu celular, essa pessoa provavelmente acharia, esconderia, e ficaria de bico calado.

Com essas pequenas atitudes, percebi que o povo russo em geral é extremamente honesto e prestativo com certas situações. Vejo isso como uma boa herança deixada pelos soviéticos, que “tentavam” passar uma ideia de socialismo real – algo que não realmente existia, e que era deturpada pela propaganda soviética – conseguindo passar pro povo a pura ideia do socialismo, a igualdade de todas as pessoas perante ao estado.

Mesmo a Rússia sendo atualmente conhecida como um dos países mais corruptos do mundo (bem mais rankeada que o Brasil, inclusive), vale ressaltar que essas ações são cometidas por um grupo pequeno, mas poderoso da sociedade. Mas em geral, o povo russo é extremamente prestativo com as pessoas, algo que muitos não conseguem imaginar devido a aparência passada pela mídia durante vários anos.

Essas duas situações podem ilustrar muito bem isso, assim como a história do meu amigo que me buscou no aeroporto, que já contei, e outras que vivi por lá. Então já fica a dica. Se porventura você ficar amigo(a) de um russo, pode contar, que essa amizade é vitalícia!

Ah, e voltando a falar dos tickets, tem um outro fato curioso sobre eles! Caso a soma dos três primeiros números fosse igual à soma dos três últimos, esse ticket é da sorte! Pra tentar ganhar alguma coisa com eles, eu coloquei algumas dessas passagens sortudas dentro da minha carteira… vai que, né?! :)

Saratov, a capital do Volga

Eu já citei algumas vezes que eu fui fazer intercâmbio na Rússia, que eu gostei muito, e tal, mas não falei muito da cidade em que passei alguns dos momentos mais divertidos da minha vida!

Saratov é uma cidade de 840 000 habitantes situada na margem esquerda do rio Volga, na região centro-sul da Rússia. Eu pesquisei bastante antes de decidir ir até lá, especialmente por que estava em dúvida pra ir numa cidade na Polônia, e para Novosibirsk, a “Chicago da Sibéria”.

Na verdade, eu queria muito ter ido pra Novosibirsk no início desse processo de intercâmbio. Eu me lembro que quando eu era pequena, gostava de ficar observando atlas, e eu fiquei bem confusa ao abrir na página que mostrava o mapa da União Soviética, já que era um país enorme com outros países pequeninos ao redor. Bem no meio do mapa, eu vi o nome dessa cidade e comecei a imaginar que raios teria em Novosibirsk, e que país louco era aquele! Creio que devia ter uns 4 anos e não entendia nada ainda de geopolítica internacional. Hehe.

Quase que eu fui pra Novosibirsk, mas não teria como ir para União Soviética por motivos óbvios, já que o ano de 2011 estava entrando na reta final. Quando eu estava quase indo convencer a minha mãe a ir pra essa cidade que sempre me intrigou, eu comecei a sondar Saratov. Acho que nunca tinha ouvido falar dessa cidade antes, e fui pesquisar.

Gostei muito da história dela, e senti uma necessidade imensa de ir pra lá. Agora o porquê disso foi bem intrigante pra mim desde o início.

No início do Século XX, o Império Russo era a potência mais ameaçadora do continente europeu. Embora alguns autores afirmem que o Império era sempre o mais atrasado e retrógrado, a verdade é que numa situação de sobreposição de poderes criada por Bismarck no fim do século XIX, onde a França arrasada pelo Congresso de Viena conseguiu se manter à altura e manter a paz com uma Inglaterra bagunçada, mas poderosa devido ao sucesso da era Vitoriana, enfraqueceu a recém unificada Alemanha, comandada por um Kaiser louco e que destruiu o quebra-cabeça de Bismarck com algumas gafes sem sentido. Nesse contexto, o Império Russo era o país mais estável de todos os Europeus, e havia ganhado moral com a esmagadora vitória sobre Napoleão.

Enfim, no país mais temido da Europa, Saratov era um centro cultural ascendente no período pré-revolução russa, com renomadas universidades e conservatórios de música, além de possuir pelo menos 4 séculos de história. Ali, era a terceira maior cidade do país, apenas perdendo para então capital, e na época, uma das maiores cidades do mundo, São Petersburgo, e o centro industrial de Moscou.

Como todos sabem, a revolução começou, e em 1922 a União Soviética nasceu, e com ela, algumas políticas militares começaram a aparecer. Para Saratov, pouca coisa mudou até a Segunda Guerra Mundial e a batalha de Stalingrado.

A cidade de Stalingrado (hoje, Volgogrado) era o coração industrial da URSS, e os comandantes nazistas acreditavam que após tomar essa cidade, eles enfraqueceriam os soviéticos significativamente, e logo chegariam aos ricos poços de petróleo do Azerbaijão, onde deixariam o plano de conquista mundial e da “superioridade da raça ariana” a um passo de ser concluído.

Por sorte, a resiliência e bravura do povo soviético, aliada às táticas militares do general Jukov, os nazistas foram derrotados, enfraquecendo significativamente Hitler, e abrindo espaço à União Soviética e aos aliados a tomada de Berlim em 1945. Mas o que Saratov tem a ver com isso?

Saratov é uma cidade vizinha de Volgogrado, e muitas das batalhas foram travadas próximas ao círculo urbano da cidade, o que abriu a possibilidade aos soviéticos de instalarem uma base militar estratégica ali. Após a guerra, Stalin ordenou que a cidade fosse considerada “fechada” aos estrangeiros e outras nacionalidades soviéticas. Esse isolamento do mundo selou o destino atual da cidade, que passou anos sem ter um desenvolvimento tecnológico, e com pouquíssima infraestrutura estratégica. Por exemplo, o aeroporto da cidade é super subestimado, mesmo estando numa região com potencial turístico.

Apenas com a dissolução da União Soviética no natal de 1991, Saratov foi aberta aos estrangeiros, e à maioria dos soviéticos. Quando eu me toquei que eu poderia ir para um lugar que vedaria a minha presença há 20 anos, logo fiquei animada (por incrível que pareça!). Outros fatos me chamaram a atenção. Por eu ser estrangeira, poderia chamar mais a atenção, e ao invés de me preocupar com isso, mais estímulo recebi pra ir até lá!

Fiquei matched, ou seja, aquela vaga era minha! Comprei minha passagem até Moscou e cheguei lá após uma viagem de quase 19 horas de trem, fato que já contei por aqui.

Após chegar lá, eu vi algumas coisas que eu já esperava, e outras não. Eu já esperava ver neve por todo o lado, pessoas com aparência reservada, coisas exaltando a época soviética, dentre outras. Mas eu jamais esperaria receber tanto carinho da minha host mother, e amizades verdadeiras vindas dos outros trainees! Às vezes, quando eu saía da casa da minha host mother, triste por ter passado um dia sem ter conversado com alguém daqui de casa, ela me dava um abraço, um beijo, e um boa noite em russo! Fora as vezes que ela me emprestava algum chapéu de pelo de raposa pra proteger a minha cabeça, ou algum casaco mais grosso quando estava mais frio. Sem contar todos os jantares, frutas, e todos os MM’s que eu recebia todo dia. :)

A cidade é linda! Se já a achei incrível durante o inverno, não sei nem o que esperar durante o verão! Saratov é um balneário turístico bem importante na beira do rio Volga, e segundo a minha host, ela passa o verão inteiro deitada na praia. E pela cidade ser antiga, muitos prédios da época ainda continuam. Construídos em madeira, e pintados sempre com cores brilhantes, esses prédios lembram um pouco aquilo que eu costumava ver na TV como construções da época czarista.

Se alguém me perguntar se vale a pena ir pra Saratov fazer seu intercâmbio, a resposta com certeza é sim, apesar das dificuldades que passei para ter a definição de onde eu iria trabalhar. Pra mim, a recepção daquelas pessoas, as amizades que criei, todo o carinho dos professores e alunos da escola que trabalhei e todo aquele ar cultural do interior da Rússia vale todo e qualquer esforço. Já prometi pros meus amigos que eu voltaria lá. Gostaria saber quando, mas ainda irei.

Ninguém me entende!

Ser inquieta me proporcionou algumas das experiências mais importantes da minha vida, assim como me fez (ou faz) passar vergonha por aí.

Geralmente eu gosto de brincar com meus amigos, falando que “ninguém me entende”, quando a realidade é por isso mesmo! Por exemplo, a única pessoa que eu conheço que não gosta de ir ao cinema é… eu mesma! Por mais incrível que pareça, eu não consigo ficar quieta por duas horas sentada numa cadeira prestando atenção em um enredo… e ninguém me entende!

Faz algum tempo, eu sonho em trabalhar pela ONU. Claro que sonhei em morar em grandes centros urbanos e/ou culturais. Quem aqui não gostaria de morar em Londres, em New York, em Viena? Depois de refletir muito, me veio à cabeça a importância de viver em um centro em desenvolvimento, com a economia em potencial de crescimento, ao mesmo tempo com um certo conforto e qualidade de vida. Mas com o amadurecimento de certas ideias, comecei a pensar que talvez seria interessante passar uma temporada na África, para ajudar no crescimento de pessoas com dificuldades que talvez jamais alguns de nós passaríamos. Ao falar dessa vontade para algumas pessoas que fazem francês comigo, eu senti a vontade deles de rir da minha cara. “África?! Tá louca?!”

Mas parte da minha agitação me levou a arriscar situações totalmente fora da minha zona de conforto. Por sentir que eu posso conquistar o meu além através de pequenas ações, eu comprei minha passagem pra Budapeste, onde vou passar um mês e meio trabalhando em prol da cultura brasileira, se desafiando mais uma vez.

Eu vou pra Budapeste sem 100% de apoio da minha família, já que eles queriam que eu fosse passar 10 dias na Disney com eles. Eu sinceramente coloquei as duas viagens na balança, e cheguei à conclusão que seria muito mais importante pra mim se eu fosse ter um engrandecimento pessoal através do intercâmbio do que viver uma vida de turista por alguns dias em um lugar que quase todo mundo conhece, ou sonha em ir.

Algumas pessoas, além das que “iam” viajar comigo pra Disney, acharam confusa a escolha de NÃO ir passar uns dias maravilhosos na Flórida do que ir para um país lindo e interessante, mas sem luxos de turista. Outras já me incentivaram muito, falando super bem da cidade, e da experiência que eu terei em Budapeste.

Aos outros que fazem intercâmbio, mas não o social, que é o que eu fiz na Rússia e voltarei a fazer na Hungria, não conseguem entender o PORQUÊ de eu não viajar para a Inglaterra ou Canadá para estudar inglês.

Bem, eu já sei falar inglês, muito bem por sinal, inclusive já dei aulas pra adolescentes e adultos, então não faz sentido estudar inglês em uma escola no exterior pra mim. Alguns podem indagar que eu posso praticar meu inglês trabalhando em um Mc Donald’s na Austrália, ou lavando o chão de uma estação de esqui em algum canto dos Estados Unidos. Com todo respeito a essas profissões, não vejo crescimento profissional para mim nisso. Além do mais, eu estudo pra ter um futuro brilhante (como trabalhar na ONU ^^), e gostaria de ver as pessoas da minha nação pensando junto comigo, e buscando reconhecimento através do esforço e estudos, ao invés de eu esbarrar com a comunidade latina sendo explorada e diminuída socialmente devido ao preconceito de estarem em um estrato social mais baixo.

Até que tem gente que me entende! Infelizmente, aquelas que não me entendem vão continuar postando suas fotos em Miami Beach no Facebook vestindo uma camisa da Hollister, com uma Louis Vuitton falsa, e todas tiradas com seu iPhone dividido em 10x em alguma loja de departamento. Tudo “bem” até aí, mas a partir do momento que eu colocar foto com as pessoas que eu impactei seja em Saratov, ou seja em Budapeste, essas mesmas pessoas vão me dizer que eu fui lesa por me deixar levar por um trabalho voluntário, o que significaria pra eles, sem valor.

Eles não me entendem, mas não tem problema.