Cidadão Global: vale a pena? Minha experiência

O Cidadão Global é um programa de intercâmbio muito interessante promovido pela AIESEC, organização pela qual trabalhei por cerca de três anos e que hoje represento sendo alumnus. Ou seja, após ter trabalhado e contribuído com o crescimento do escritório, hoje observo e acompanho a organização de longe. Mas hoje eu não vim falar sobre a minha experiência como membro da organização, e sim a minha experiência como EP (exchange participant – participante de intercâmbios).

Para começar, a verdade foi que eu sempre quis fazer intercâmbio, mas eu pretendia viajar lá pelo final da minha faculdade em algo relacionado ao aprendizado de idiomas, passar um semestre do meu curso fora, ou até mesmo o mestrado. Até hoje essas vontades continuam de pé, e acredito sim que eu ainda vou obter mais experiências internacionais.

Apaixonada por essa vista! (Parlamento ao fundo)

Apaixonada por essa vista! (Parlamento ao fundo)

Em 2010 eu conheci a organização, comecei a trabalhar como voluntária e aos poucos tive a vontade de participar dos programas que a AIESEC oferece para viajar: hoje são dois programas, chamados de Talentos Globais e Cidadão Global.

O primeiro consiste em realizar um estágio no exterior, trabalhando em alguma empresa com algum tema relacionado à sua área de estudo: comércio exterior, engenharia, jornalismo, captação de recursos, educação de idiomas e assim sucessivamente. Esse programa oferece uma bolsa que ajuda na manutenção do intercambista pelo período em que ele(a) fica trabalhando no exterior, que pode durar de 6 semanas a 18 meses.

Eu ainda não participei do Talentos Globais, e pretendo fazê-lo após o meu mestrado. Porém esse post se trata de duas experiências maravilhosas pelo programa Cidadão Global! Nas duas vezes eu fui para o Leste Europeu e arrumei minhas malas para a Rússia e para a Hungria.

O Cidadão Global é um programa voluntário e de curta duração – 6 semanas até 3 meses. Geralmente os países que oferecem vagas se encontram na América Latina, Leste Europeu, África e Ásia, e em geral o foco do programa consiste em desenvolver projetos em educação, meio ambiente, direitos humanos, saúde e muito mais.

Arbat ul. em Moscou

Arbat ul. em Moscou

Bem, o post será longo, então vamos lá!

Então, o meu primeiro X foi pra Rússia! Sempre sonhei em conhecer esse país e sabia que eu iria amar minha experiência de qualquer maneira.

Mas por que a Rússia?
Eu queria conhecer uma realidade diferente da minha. Queria pegar um inverno rigoroso, idioma complicado, comida exótica, conhecer uma cidade menor, ou seja, fugir da minha linda zona de conforto aqui em casa. Acabei parando em Saratov, uma cidade de 800 000 habitantes na região centro-sul da Rússia. O meu projeto no Cidadão Global era o BRIC, e como o nome já diz, ele foca em estudantes desses países.

O meu projeto consistia em apresentar dados da economia e cultura dos países do BRIC para estudantes de ensino médio e universidades, e comigo foram mais dois brasileiros, três chineses e um indiano. Acabou que só o indiano trabalhou na SSTU (a universidade participante do projeto), já que todos fomos embora antes dele. Mas basicamente eu atuei só na Escola 45 de Saratov.

Para falar um pouco mais da Escola 45, eles tem uma tradição muito grande em esportes, ostentando muitos troféus em várias modalidades. Ao lado da escola existe um estádio de um dos principais times da cidade, e lá haviam turmas exclusivas de atletas, já que eles viajavam muito para competir e necessitavam de uma metodologia especial.

Escola 45 em Saratov

Escola 45 em Saratov

Fui extremamente bem recebida na escola! Os professores, alunos, a diretora e demais funcionários foram sempre muito gentis e atenciosos, e sempre muito curiosos em saber mais do Brasil. Fiz apresentações sobre história, comidas, cinema, novelas (btw, eles adoram “O Clone” por lá!), tradições, curiosidades e claro, a economia do país. Também falei bastante da minha região linda – a Amazônia – que é extremamente exótica para eles.

Escola 45 <3

Escola 45 <3

Esse período que eu trabalhei lá na escola foi relativamente bem organizado. Lidei com várias turmas e professores e senti um carinho imenso deles. Até tivemos uma festa de despedida onde ~toda~ a escola participou, com direito a apresentações de dança, música, e também apresentações sobre a Rússia, Saratov e muito mais, todas feitas pelos alunos. Foi uma maneira de agradecer pelo trabalho que nós fizemos.

Parte da escola na nossa despedida

Parte da escola na nossa despedida

Sabe, foi muito gratificante estar ali. Muitos dos alunos (e das pessoas de Saratov) não pretendiam fazer faculdade, se especializar para ter um emprego legal, nem conhecer o mundo nem nada. Algumas pessoas chegavam comigo me agradecendo pelo fato de que eu saí da minha casa – bem longe dali – para viajar pro meio do inverno para apresentar pra eles uma nova perspectiva de vida e que existem muitas possibilidades para serem exploradas.

Infelizmente o meu projeto não durou o tempo planejado. O meu CL acabou tendo um problema de know how, e só duas pessoas (a VP ICX e o LCP) estavam dando vazão ao projeto. A Katya, a VP ICX da época era a minha host e tive uma certa flexibilidade de falar com ela e de cobrar algumas coisas, mas a princípio o projeto quase não saiu do papel. Foi uma pena, mas não por falta de vontade, e sim por que eles sozinhos não estavam conseguindo dar conta de tudo.

Moscou, na semana final

Moscou, na semana final

Bem, de qualquer maneira, nenhum intercâmbio é perfeito, e devemos aprender a contornar problemas quando existirem, para o nosso próprio crescimento. Mesmo com essas dores de cabeça do projeto, tenho certeza que eu fiz a escolha certa e recomendo o intercâmbio pela AIESEC para a Rússia! Sou apaixonada pelo país e extremamente grata por tudo que eu aprendi nessa jornada. Mas é preciso saber que é necessário ter resiliência e poder de superação, não só para uma viagem para a Rússia, mas sim para qualquer lugar.

Alguns posts relacionados ao intercâmbio na Rússia:
Seja a mudança!
FAQ da Rússia
Tô indo pra Rússia. E agora?
O que eu vi do racismo
Me conte mais da mãe Rússia
Saratov, a capital do Volga
Vivendo em um vilarejo soviético
Como é difícil dizer adeus
Longe de casa, mas no centro do mundo

Mas mesmo assim eu senti que a minha experiência não foi 100% completa. Devido a esse problema de organização, eu senti que eu poderia ter feito muito mais e um belo dia eu decidi que eu faria outro intercâmbio pela AIESEC! Dessa vez eu fui mais “atenta”, buscando saber mais da reputação do escritório, depoimentos de outras pessoas que viajaram para esse lugar, acessibilidade e afins.

Da segunda vez, não foi a minha intenção ir para um lugar em que eu me desafiasse tanto, e a minha intenção era justamente combinar o lazer com o trabalho. Depois de muita busca e muita pesquisa eu acabei dando match com a AIESEC Budapest University (ou LC Corvinus, ou @BCE). A cidade é espetacular, recebe muitos intercambistas (não só da AIESEC mas também de programas de intercâmbio de universidades), e até tinha uma boa reputação entre os EPs.

Amigos de intercâmbio <3

Amigos de intercâmbio <3

O meu EP manager havia viajado por esse mesmo CL como uns 3 meses antes da minha viagem e eu pedi muito dele que me contasse tudo sobre os intercambistas, a escola em que eu trabalharia, a organização do CL, detalhes da cidade e tudo. Ele só me falou coisas boas de lá e me adiantou que eu iria adorar a escola em que eu trabalharia.

Praça dos heróis em Budapeste (e o meu amigo fazendo gracinha ali atrás)

Praça dos heróis em Budapeste (e o meu amigo fazendo gracinha ali atrás)

 

Já viajei animada e tudo que ele me confirmou se realizou. A escola em que eu trabalhei, a Kontyfa, organizou um projeto excelente (no caso o Magellan) e senti também muito apoio dos professores, do diretor e dos estudantes, assim como na Rússia. Acabei morando num apartamento anexo à escola, e sempre estava por lá. Os estudantes inclusive saíam com a gente e tudo.

Falando mais do projeto, o Magellan foi bem parecido com o BRIC: apresentações sobre os nossos países. Comigo trabalhou a Rekha, da Austrália e ficamos muito próximas! Só lembro dela me chamando para tirar um selfie, antes da expressão ser conhecida no Brasil, haha. Antes de nós, outras duas duplas de meninas haviam trabalhado lá na Kontyfa, sendo três meninas brasileiras. Mas a minha presença foi “diferente” por que as outras meninas eram de São Paulo, e eu do Norte. Ou seja, estava apresentando uma perspectiva totalmente diferente, e dessa vez apresentando a região mais linda do planeta!

Escola Kontyfa <3

Escola Kontyfa <3

Falei antes que nenhum intercâmbio é perfeito, mas esse chegou quase! Só não digo que foi 100% por que o banheiro do meu apartamento estourou (sim, estourou!!), e não dava para fazer nada em casa. Que situação! Ainda bem que isso só aconteceu no fim do intercâmbio hehe.

Conversei com muitas pessoas sobre a minha experiência na Hungria e reitero que também recomendo a experiência. Mas mais uma vez: é necessário estar preparado para tudo. Vai que acontece algum problema que você não está preparado para resolver? Às vezes é necessário agir no automático.

Alguns posts sobre intercâmbio na Hungria:
1 ano de alegria
Hungria: dúvidas e respostas
Hungria: mais dúvidas e respostas
Norte, sul, leste e oeste
O quê que a Hungria tem?
O dia em que o tempo parou
Voluntariado na escola Kontyfa
Tardes em Margitsziget
Primavera em Budapeste
Partiu Budapeste!

Para finalizar, eu realmente aproveitei esses períodos no exterior pela AIESEC. Formei amigos para a vida toda, tanto do Brasil como do exterior. Aprendi a me virar sozinha, levando tapa na cara ou não. Conheci lugares incríveis que antes jamais pensei em visitar. Tive a tão preciosa vivência internacional e também cresci muito como pessoa!

Respondendo à pergunta do título: o Cidadão Global vale a pena? Claro que sim!!

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Na Rússia eu…

Na Rússia eu…

…fiz um anjo de neve no chão fofinho;

…bebi chá pela primeira vez na minha vida;

…presenciei os primeiros momentos da vida de filhotinhos de cabra;

…vi o céu estrelado mais bonito de toda a minha vida;

Limpando cabrinhas recém-nascidas

Limpando cabrinhas recém-nascidas

…não senti frio mesmo com uma temperatura de -30 graus;

…me acostumei a subir 5 andares de escada só para falar com meus amigos;

…escorreguei no gelo e caí de nuca no chão;

…sempre tinha o meu cabelo volumoso, que nem a crista de um leão;

…pela primeira vez peguei um ônibus lotado;

Middle of nowhere

Middle of nowhere

…passei madrugadas em claro jogando Dota, só para socializar;

…dividi uma cabine de trem com três homens que nunca havia visto;

…atolava o meu pé constantemente andando na neve;

…cozinhei o brigadeiro mais gostoso da minha vida;

…e fiz o pior café que pude imaginar;

Pose na neve!

Pose na neve!

…conheci um senhor no ônibus que lutou na guerra do Afeganistão em 1979;

…me perdi quando parei na estação de ônibus errada;

…percebi que ninguém sabia o que era “Doritos”;

…passei um fim de semana num vilarejo no meio do nada;

…descobri que tudo é muito barato;

Matrioskas

Matrioskas

…cozinhei salsicha no microondas, e até que ficou gostoso;

…fiz uma “rosquinha” com a fumaça do vento frio;

…aprendi a fazer sushi, e o apresentei como uma comida brasileira;

…me acostumei com a quantidade de estátuas do Lênin nas praças das cidades;

Alguns dos meus tickets de ônibus

…patinei no gelo, e foi terrível;

…almoçava McDonald’s quase todo dia, e achava uma delícia;

…assisti um jogo da Champions League no estádio, e pedi pra minha mãe tentar me ver na televisão;

…ganhei uma família russa;

…descobri que a neve tem cheiro;

Euzinha, no primeiro dia na Rússia!

Euzinha, no primeiro dia na Rússia!

…subi no telhado de um prédio;

…comi um sanduíche de 30 centímetros, e não sei como;

…assisti um comício do Partido Comunista, e me senti de volta no tempo;

…saí do metrô e emergi no meio de um protesto contra o governo;

…realizei um grande sonho ao conhecer esse lugar incrível.

 

Esse foi um pequeno texto que escrevi no avião, saindo de Moscou. Acabei o encontrando por acaso numa agenda antiga.

Noite circense

Acho que eu só tinha ido ao circo umas duas vezes na minha vida, e o que me chamava a atenção não eram as acrobacias, as palhaçadas (btw, nunca tive medo de palhaço), nem os clássicos como cuspir fogo, o globo da morte nem nenhuma outra coisa. Eu sempre gostei dos animais e das apresentações deles. Mas em geral, eu nunca fui a maior fã de circo, mesmo respeitando muito essa arte.

E a última coisa que eu pensava que eu iria fazer em algum dos meus intercâmbios era justamente ir ao circo! Mas sabe quando você junta o útil ao agradável e as oportunidades aparecem? Então, eu fui pro famoso circo de Saratov (sdds imensas!).

Chegando lá, eu descobri que o circo da cidade tem uma reputação enorme, já que o primeira arena dedicada às apresentações circenses no mundo foi construída lá (há controvérsias segundo o Google, não entre os moradores da cidade). No entanto, apresentações diferentes passam por lá temporada após temporada.

Quando uma nova apresentação chegou na cidade, todos os jornais trataram da notícia como o principal acontecimento. Não pelo fato da cidade ser pequena, mas sim pela grande importância e orgulho que eles sentem do circo. De qualquer forma, ir ao circo seria uma boa atividade para os intercambistas!

Mesmo com várias datas e mais de um horário de apresentações por dia, o interessante era comprar os ingressos com antecedência. Resolvemos pegar a primeira fila após o picadeiro, e esperamos a data.

Fomos eu, dois amigos brasileiros, um indiano e a irmãzinha de uma amiga nossa, que queria muito ir ao circo! Na hora da apresentação as filas estavam enormes (rá!). Compramos algumas guloseimas de praxe como algodão doce, pipoca e alguns docinhos, e fomos aos nossos lugares.

A apresentação teve vários números, dentre os quais posso citar apresentações com macaquinhos (com roupinhas brilhosas), cachorros, pássaros, equilibrismo e a atração principal, que era com tigres.

Posso fazer alguns comentários gerais, como na apresentação com os tigres. Eles rolavam no chão, pulavam em círculos com fogo, atendiam aos chamados dos cuidadores e como recompensa, ganhavam uns pedaços de carne. Me impressionei bastante com o tamanho da cabeça (e da boca) daqueles animais!

Acho que foi só uma impressão minha, mas eu senti aqueles animais super estressados, por estarem em umas espécies de containers, e se qualquer coisa saísse do controle, apenas uma redinha simples separava o picadeiro do público.

Teve momentos impressionantes com os equilibristas na corda bamba, e fofuras com os macaquinhos, mas o meu veredicto final foi que achei o circo mediano, mas mesmo assim adorei a experiência! Foi talvez o grande acontecimento da semana, e certamente foram umas duas horas bem agradáveis.

O que achei bem simpático foi que os artistas se dispuseram a dar autógrafos para as crianças (que eram muitas!), e ficamos lá na fila com a Ksenia, que estava louca para falar com eles! O momento curioso foi que eles perceberam que nós éramos estrangeiros e ficaram bem impressionados com o fato de pessoas de lugares tão distantes lá apreciando o espetáculo.

(Fico devendo fotos nessa! Posto fotos nos próximos dias!)

Atenção em Volgogrado

Nesse fim de ano de 2013 fiquei perplexa com os ataques que aconteceram em Volgogrado, no centro-sul da Rússia. Uma explosão num ônibus, outra num trolleybus e outra na estação de trem me deixaram de coração partido, especialmente pela conexão que criei com a região do Volga e pela época do ano, próxima ao meu aniversário de chegada por lá.

Recentemente escrevi sobre a região do Volga e sempre friso nos meus posts que a Rússia é sim um país seguro, e fico bem desconcertada quando coisas assim acontecem. Vidas são perdidas, pessoas ficam traumatizadas, infraestrutura que já é precária fica pior.

Muitas pessoas ficam comentando da proximidade destes atentados com as Olimpíadas de Inverno em Sochi, e como Volgogrado fica perto da “perigosa” região do Cáucaso, mas sinceramente só fico observando. Claro que eventos como esses devem despertar a atenção das autoridades para melhorar a segurança, mas só usar esse pretexto da olimpíada para trazer a segurança da população é mesmo que tapar o sol com a peneira. E depois? Nada será feito?

Confesso que também fico preocupada com os meus amigos em Saratov. Apesar de ter quase dois anos que eu fui pra lá, sempre estou em contato com as pessoas. Lembrando que Volgogrado era tipo uma hora de carro a partir da minha casa e qualquer coisa ruim pode se refletir sim em Saratov! Espero que não aconteça nada mais.

Volgogrado é uma cidade que é um símbolo da resistência do povo russo, e essa fama veio desde a vitória sobre o exército nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Na época, a cidade se chamava Stalingrado e era o coração industrial da Rússia. Os planos de Hitler incluíam a destruição da cidade, que iria parar a União Soviética. Com os camaradas fora de combate, os nazistas conseguiriam colocar suas mãos facilmente nas enormes reservas de petróleo do mar Negro.

Fora isso, os soviéticos (eslavos em geral) eram vistos como uma “raça inferior”, e quanto mais soviéticos mortos, melhor para os nazistas. Os esforços de guerra soviéticos incluíam a queima de qualquer coisa que estivesse no caminho, deixando tudo ao redor devastado. Com isso, muitas pessoas passaram fome e frio, fora as enormes perdas de vidas.

Em muitos momentos, a derrota e a destruição de Stalingrado eram iminentes mas vários fatores levaram os soviéticos à vitória! Após a queda da União Soviética, a cidade voltou a se chamar Volgogrado (cidade do Volga), e por apenas dois dias no ano ela se chama Stalingrado novamente (dias para celebrar a vitória na Segunda Guerra).

Por isso que esses ataques doem muito mais em uma cidade símbolo de resistência. O orgulho ferido dos russos é tudo que esses extremistas querem. Violência gera violência, mas nem todos conseguem entender isso.

Mas enfim, eu estou super ansiosa pelas Olimpíadas de inverno (post especial vem aí!), e sinto muita falta do Volga e de tudo que me lembra a Rússia! Um arrependimento? Ter confiado na palavra da minha host mother, que havia me prometido uma viagem para conhecer Volgogrado. Como deu pra perceber, acho que ela se esqueceu da promessa.

Desejo que tudo saia bem e que logo eu consiga voltar para a mãe Rússia e vivenciar momentos novos nesse lugar tão especial. Que tudo dê certo e que esses ataques não aconteçam mais.

Ao longo do Volga

Hoje vim falar do carinhosíssimo rio Volga, localizada na mãe Rússia (saudades), porém não vim falar de geografia. Este rio é o maior da Europa e figura entre os maiores do mundo, desaguando no mar Cáspio, cercado por ex repúblicas soviéticas como o Azerbaijão e o Cazaquistão.

Pelo porte, o rio Volga tem uma grande importância econômica e histórica para a região, refletidas em cidades com grande importância para a Rússia, e é justamente delas que eu vim falar hoje.

  • Yaroslavl
    Uma das primeiras cidades no curso superior do Volga, ela é considerada Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO. Ela também faz parte do famoso “Anel de Ouro”, que são cidades ao redor de Moscou que possuem grande importância na história da Rússia. Mesmo com muitos anos de história, ela perdeu importância após a Revolução Russa e sofreu uma queda brusca na população. Hoje em dia, ela procura conciliar seu passado histórico com eventos modernos.

    Yaroslavl

    Yaroslavl

  • Nizhny Novgorod
    Essa também é uma das cidades mais antigas na Rússia, e também com um dos Kremlins mais conhecidos. Ela também foi uma das poucas cidades que não sofreram com a invasão mongol, e foi reduto de “antigos” tsares. Hoje, a cidade é uma das mais preparadas para o turismo na Rússia, tanto pelas suas famosas igrejas, assim como pelas rotas de turismo do Volga e da Transiberiana.

    Nizhny Novgorod

    Nizhny Novgorod

     

  • Kazan
    A antiga capital Canato de Kazan foi conquistada pelos russos durante o período dominado por Ivan, o terrível, e desde então se tornou em uma das cidades-símbolo da Rússia. Sua população é bem mista, sendo exemplo de coexistência pacífica entre russos e tártaros. Hoje, a cidade é equipada com importantes centros de engenharias e TI.

    Kazan

    Kazan

     

  • Samara
    Samara é uma das maiores cidades na Rússia, e uma das mais conhecidas pela sua arquitetura. Ela também tem bons backgrounds em artes, especialmente no balé e na ópera. Ela também possui um passado interessante: ela era uma cidade cheia de piratas que atacavam os barcos que passavam por ali.

    Samara

    Samara

     

  • Saratov
    A cidade que eu fiz o meu intercâmbio é super simples, mas ao mesmo tempo cheia de história para contar. Prédios em madeira datados de pelo menos uns 400 anos ficam ao lado de prédios soviéticos. Ela chegou a ser uma das cidades com maior número de pesquisadores per capita e foi um grande centro militar na época soviética, sendo inclusive, uma cidade com acesso fechado.

    Saratov

    Saratov

     

  • Volgogrado
    Essa cidade tem grande fama na história recente. Durante a época soviética, ela era conhecida como Stalingrado e era o coração da indústria soviética. O exército nazista ocupou a cidade, visando a destruição da força vital da URSS, e assim podendo ter acesso às enormes reservas de petróleo do Azerbaijão. A resistência russa foi tão grande que destroçou os nazistas, e se tornou orgulho nacional. Até hoje, a cidade vive desta grande conquista.

    Volgogrado

    Volgogrado

  • Astrakhan
    A cidade se encontra no delta do Volga, marcando o fim desta incrível viagem. A cidade também possui grande influência muçulmana, com um toque russo. Assim como Kazan, Astrakhan foi capital do Canato de Astrakhan.

    Astrakhan

    Astrakhan

     

     

Frio de verdade. Mesmo!

Hoje acordei com todo tipo de comentário falando sobre o clima maravilhoso que estava vindo da friagem aqui no Amazonas. Até me empolguei pra sentir um vento um pouco mais fresco do lado de fora, mas não. Estava tudo como antes. Sinceramente, não percebi nada de diferente, mesmo ainda de manhã, com um suspirinho na madrugada.

Ontem mesmo quando estava conversando com alguns amigos, me falavam que o clima estava ótimo, e que já dava pra tirar o casaco do armário. Minha resposta: “eu estou suando de calor aqui”.

E realmente, eu sinto muito calor aqui! Eu vivo em uma das regiões mais quentes do mundo, e não tenho como escapar. É bem comum me verem por aí de vestido, short ou saia. Calça jeans? Dificilmente.

Mas eu me acostumei de uma maneira “ruim” há dois meses atrás. Quando eu cheguei em Budapeste agora em abril, a Europa acabara de viver um dos invernos mais rigorosos – e longos – da sua história. Já ouviram falar em White Christmas? O inverno de 2012/2013 teve White Christmas e White Easter. A minha roomate – que chegou uma semana antes de mim – falou que quando ela tinha chegado, ainda havia neve nas ruas. Neve em abril! Realmente é muito raro um inverno durar tanto assim. Ah, e vale lembrar que o parque que ficava na quadra da minha casa estava com todas as árvores mortas, sem folhas.

E de fato, eu senti frio quando cheguei a Budapeste. Levei um casaco mais grosso que comprei na virada do ano em Munique – que ainda nem estava tão fria assim – mas acabei o usando nos dois primeiros dias. Depois, dancei conforme a música e comecei a usar meu guarda roupa Manauara em Budapeste. Usei todos os vestidos, shorts e saias que levei! Me sentia feliz sentindo aquele ventinho fresco. Cheguei em Manaus, e não tive escolha. Tive que continuar usando os mesmos vestidos, saias e shorts, mas eu já tava tão acostumada a ficar de pele exposta no frio que acabo sentindo calor em qualquer lugar.

Mas até que deu pra variar um pouco o guarda-roupa em Budapeste, e realmente, quando a noite caía, a temperatura ia junto. Eu sempre levava um casaquinho fino pra constar, caso eu sentisse muito frio.

E realmente senti muito frio quando estava despreparada. Quando fomos a Praga, a noite estava quente e agradável em Budapeste. Quando chegamos lá, Praga estava fria demais! Só havia levado um casaquinho bem fino, e não aguentava andar muito tempo na rua. O mesmo quando voltamos de Viena. Chegamos em Budapeste, e o clima que havíamos sentido durante todo aquele tempo era completamente diferente! Ventava muito e cheguei a bater o queixo.

Mas isso não é frio de verdade. Quando não se tem as roupas adequadas para enfrentar certos tipos de temperatura, a temperatura cai mesmo. Em Praga eu senti frio, pois havia uma garoa fria junto com vento, e o que eu havia levado era um casaquinho de algodão, que molhava muito rápido. Chegando em Budapeste vinda de Viena, estava de vestido, e estava ventando muito! Então fui pega despreparada nos dois casos. Era primavera, e podia arriscar!

Mas no inverno mesmo, não se pode errar mesmo! Ainda mais quando a primeira vez que você enfrenta um inverno rigoroso é justamente na Rússia em janeiro e fevereiro!

Em invernos, não é recomendável usar 10 casacos de algodão por exemplo. Eles podem molhar com a neve, e o frio será pior. O que é indicado é o uso de um casaco impermeável, daqueles mais grossos, com uma camisa por baixo. Se estiver mais frio, use uma camisa e uma segunda pele.

Calça jeans? Sim, pode usar, mas se tiver uma legging ou alguma outra calça fininha por baixo, melhor.

Tá nevando? Use botas impermeáveis. É bom não se esquecer também de luvas, gorro e cachecol. Não precisa ser nenhum tipo especial. Qualquer tipo serve.

Equipada com todas essas roupas, eu fiquei super tranquila durante meu inverno russo. Com essa minha pequena tropa de roupas, eu pude aguentar um belo dia onde fez -40 graus. Recompensa desse dia? Um lindo céu estrelado. :)

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Tá vendo? Até consegui voar nesse frio. Olha só a altura da neve ao lado. ;)

Mas tem algumas coisas que sofrem em frio intenso. Eu uso muito rímel, e ele congelava após alguns minutos ao ar livre. Só era voltar pra algum lugar fechado – e quente – que eles começavam a derreter, e a maquiagem, borrar!

Meus lábios ressecaram demais também, assim como outras partes do corpo, como tornozelos, mãos e pulsos. A minha garganta também ressecava (ou congelava, não sei) quando eu insistia em respirar pela boca. Sério. Respirar pelo nariz é essencial pra não ter um problema de garganta!

Outra coisa muito boa do frio extremo é a limpeza do ar. Depois de uma certa temperatura, geralmente depois dos -35 graus, muitas partículas de poeira e poluição não conseguem se sustentar no ar, e geralmente elas caem, deixando o ar bem limpo, e o céu, sempre sem nuvens. Já perceberam que quando alguém vê uma imagem de alguma cidade na Rússia no inverno (vi na TV em Moscou, e em Saratov, chegando da estrada), se vê muito as fumaças saindo de toda indústria, carro, ou alguma outra coisa que cause combustão? Então, a fumaça não consegue se dissipar tão facilmente no ar frio, e geralmente, as colunas de fumaça são mais grossas.

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-29 graus em plena cidade. É complicado.

Falando sobre falta de nuvens, as pessoas associam muito o frio com a neve. A verdade é que os dias que nevam são mais quentes do que os dias que não nevam. Motivo? Um amigo me explicou na Rússia, mas tem uma questão do ponto de fusão do gelo, e da ressublimação (passagem do estado gasoso para o sólido – daí surge a neve).

Falando em neve, com certeza é a melhor coisa do inverno! Isso especialmente para uma pessoa que nasceu e cresceu na quentura. Sim, quando eu vi o meu primeiro monte de neve na minha vida, eu implorei para que o meu amigo tirasse uma foto!

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Caboquice x1000. Nunca tinha visto neve na vida. Passando vergonha em plena Praça Vermelha pros ricaços fazendo compra no GUM.

E fazer anjinho de neve? Guerra de bolas de neve? Bonecos de neve? Escrever um milhão de coisas na neve? Quem nunca sonhou em fazer isso pelo menos em sonho? Sim, eu fui feliz, e aproveitei tudo o que eu tinha que fazer na neve!

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Só é feliz quem já fez anjinho de neve!

Manauara não sabe o que é frio de verdade. Nem muita gente sabe, na verdade. Eu sou a primeira a me indignar vendo gente na rua usando aquele casaco cheirando a naftalina no primeiro ventinho. E fico assim não culpando as pessoas que sentem frio fácil, pois muitas delas nasceram, cresceram, e nem saíram da nossa terrinha quente. E fico indignada por que ao contrário de todo mundo sentindo frio, eu fico morrendo de calor.

Mas te garanto uma coisa, depois de -40, qualquer friozinho é fichinha!

Como é difícil dizer adeus!

No post anterior, eu tentei escrever brevemente sobre o meu primeiro dia em Moscou, a minha mala quebrada, o jogo da Champions, e o meu aborrecimento com a Katya.

As primeiras pessoas que me despedi na Rússia, foram as pessoas que ficaram em Saratov, e não foram pra Moscou, como a minha host family, e alguns amigos que fiz, e vi na minha festa de despedida no bar soviético, na principal avenida da cidade.

A segunda despedida aconteceu logo após o jogo da Champions. Me despedi da Katya, do Kolya e da Alina ali no metrô mesmo. A Katya ainda estava super nervosa, com medo de perder o ônibus de volta pra casa, e só deu um tchau rápido, e logo quando o trem chegou, eles foram embora. Mais cedo naquele dia, também nos despedimos da Yasmin, que era aquela brasileira que conhecemos lá em Moscou, já que ela já ia pegar o voo de volta pro Brasil na manhã cedo seguinte.

Naquele momento, ficamos no hostel, eu, o Pedro, o Marcio e o Rhushabh, e a Sasha na casa de um amigo, mas todos os dias nos encontrávamos pela cidade, onde passeávamos, íamos fazer compras, conhecendo museus e outras coisas.

Alguns dias após o jogo, o Márcio partiu pra Praga numa manhã bem cedo. Eu até ia com ele, mas pelo site de passagens não ser muito confiável, a compra da minha passagem foi bloqueada pelo cartão, e fiquei em Moscou mesmo. A partir de então, ficamos nós três, e a Sasha.

No dia seguinte, a Sasha teria que voltar pra Saratov de trem. Como ela estava dormindo na casa de um amigo, nós combinamos de nos encontrar em um determinado ponto, mas chegar até lá foi meio complicado. Eu, o Rhushabh e o Pedro fomos atrás de um restaurante indiano que havíamos encontrado online, mas após rodar a tarde toda em uma parte de Moscou que ninguém conhecia ainda, desistimos de procurar, e encontramos uma Subway, e ficamos por ali mesmo. Já era 18h e ainda não tinha comido nada naquele dia, e juro que comi um sanduíche de 30 centímetros! Até hoje não sei como consegui fazer essa proeza. :)

Essa Subway ficava perto de uma tal estação de metrô, e pedimos pra Sasha ir até lá. Ela chegou, e entregou pra mim e pro Pedro dois presentes muito fofos. Ela nos deu uma caixinha de chocolate com várias barrinhas, e cada uma delas tinha uma letra do alfabeto cirílico, uma palavra que começasse com essa letra, e o desenhinho dela. Era bem didático e meio infantil, mas foi muito fofinho! Fora isso, ela deu uma cartinha que até hoje guardo com carinho. Ali mesmo ela foi embora, e logo senti o peso da despedida. Após a partida daquelas pessoas, eu sentia que deveria ter dado mais atenção pra elas, e agradecer bem mais do que já havia agradecido por tudo a eles.

A partir de então, ficamos só eu, o Pedro e o Rhushabh. Até o fim da minha permanência em Moscou, seríamos só nós três, e confesso que quis aproveitar ao máximo o tempo que tinha com eles. O nosso último dia juntos seria no dia 28 de fevereiro. Acordamos cedo, e fomos dar uma de turistas pela cidade. Ficamos quase todo o tempo juntos, com exceção da visita ao Kremlin, que não pude ir, pois não tinha dinheiro pra comprar o ingresso, que estava muito, muito caro, e ainda estava sem a minha carteirinha de estudante (muito válida!).

Chegou o fim da tarde, e o Rhushabh tinha que ir embora. Ele ainda teria que passar cerca de um mês em Saratov, e lá fomos nós no metrô, indo deixar o nosso amigo ir. Quando ele virou as costas, a partir daquele momento, era só eu e o Pedro. Para comemorar as nossas últimas “horas” como intercambistas, decidimos ir até o Hard Rock Café da ulitsa Arbat, comer um lanche, e conversar, seja sobre a vida, planos, família, amigos, lembranças, e outros. Não sei se o Pedro estava percebendo, mas eu comecei já a sentir o peso da despedida desde a saída da Sasha. Não sei, mas senti que eu poderia ter dado mais um abraço, mais um “obrigada por tudo”.

Lá no Hard Rock, um momento descontraído aconteceu! Sentamos em uma mesa, começamos a conversar, e o Pedro começou a sentir umas goteiras caindo em cima dele, e trocou de lugar na mesa. Sério, menos de um minuto depois disso, um monte de água suja caiu bem na cadeira onde ele estava! Era uma espécie de água com espuma, meio escura que caiu de uma espécie de tampa, que havia bem em cima das nossas cabeças. Agora, já pensou se ele tivesse ali sentado ainda? Fica a dica de ver em todo lugar, o que tem acima das nossas cabeças (risos).

Após comer, voltamos ao nosso hostel, onde tínhamos que passar como uma hora esperando. Passamos mais esse tempo refletindo sobre a vida lá na sala de espera. Quando deu uma hora certa pra ir ao aeroporto, fomos ao guarda volumes do hostel, pegamos as nossas malas e fomos em direção ao aeroporto!

Ali, um dos momentos mais tensos de todo o meu intercâmbio (e creio que do Pedro também) aconteceu. Lá estávamos nós, fim da nossa viagem, com mais compras do que nunca, carregando as nossas malas de volta ao metrô. Em um dia normal (sem malas), o trajeto hostel-metrô era tranquilo. Era como uns 5 minutinhos andando. Cada um de nós estávamos carregando 4 bolsas. Eu estava com a minha mala nova gigante mas com aquelas rodinhas que viram, uma mala de mão (aquela que me ferrou no início da minha viagem), uma bolsa de ombro mesmo, e uma pequena transpassada. Olhando assim, parecia até fácil levar, mas lembre-se que eu sou muito sedentária! Eu até me cansava rápido, mas esse trajeto foi bem mais tranquilo do que da ida a Moscou.

O Pedro, coitado, estava carregando a mala grande dele, uma bolsa de mão que nem a minha, uma mochila, e a minha finada mala quebrada carregando na mão, que estava cheinha de vodka. Ele dava uns dez passos e parava ofegante. Imagina, só a minha mala estaria pesando horrores por causa da vodka. Eu me lembro, em uma certa altura falar algo como “que era a última vez que estávamos nos desafiando naquele frio desgraçado!” Ele estava voltando ao Brasil, e iria despachar tudinho e se livrar do peso, e eu estava indo a Paris, e lá teria uma vida de turista, não de intercambista. Hehe.

Cheguei no metrô, e a senhora que resguardava a entrada olhou pra gente e disse que precisaríamos pagar as nossas passagens, e as das malas. Olha, quando eu fui pra Saratov, e tive que fazer uma baldeação no metrô, só paguei a minha passagem! Mas liguei aquela tecla lá, e não achei problema em pagar uns 2 reais a mais por causa disso.

Chegamos na estação Beloruskaya, e necessitaríamos pegar o Aeroexpress pro aeroporto. Só que o Aeroexpress ficava num prédio fora do metrô. O Pedro disse que ele iria lá fora pra procurar esse prédio, e enquanto isso, eu fiquei ali na estação com as malas. Uns 10 minutos depois, ele voltou, e eu já estava começando a ficar nervosa. Imagina, eu, sozinha, quase meia noite, com 8 malas ao meu redor. Comecei a pensar que as câmeras estavam me monitorando, e alguém poderia estar pensando que eu poderia ter alguma bomba nessas malas. Heheheheh. O mais engraçado, foi que o Pedro voltou, e disse que por pouco ele não entrava, pois a carteira dele havia ficado na mochila, que estava comigo. Sorte a dele que ele havia alguns trocados no casaco.

Então, entramos no trem pro aeroporto, e durante o trajeto, uns 40 minutos, uma playlist bem triste começou a tocar na minha cabeça. Mais algumas palavras trocadas, e chegamos no Sheremetyevo. Olhei para as partidas, e vi que o meu voo pra Istambul já estava com o check in aberto. Imagina o alívio de ter que me livrar das minhas malas logo ali! Foi uma sensação ótima. Nunca mais precisei carregar tanto peso naquela viagem.

Isso era um pouco mais de meia-noite, e o meu voo pra Istambul saía às 6:40 da manhã, e do Pedro, pra Amsterdam, às 6:45, ou seja, teríamos que passar uma bela noite no saguão do aeroporto. Agora, imagina a enrolação. Não tinha nada aberto no aeroporto, com a exceção de um restaurante com nenhuma comida atraente. Todas as lojas do complexo do Aeroexpress estavam fechadas, e foi uma batalha pra encontrar alguma tomada disponível.

Depois que achamos essas tomadas, foi fácil passar a noite, especialmente pelo aeroporto ter wi-fi livre e ilimitado. Liguei o skype com um amigo, e passei umas boas horas lá batendo papo com ele. Me lembro que ele me prometeu me levar para comer uma comida regional assim que eu chegasse, já que ele não estaria em Manaus para me buscar no aeroporto. Mais de um ano se passou, e ainda não fui comer com ele! Estou aguardando convites. :)

Depois que abriu o check-in pra Amsterdam, o Pedro foi lá, despachou as coisas dele, e decidimos logo embarcar. Não pegamos nenhuma fila, e a imigração foi bem tranquila. Eles carimbaram a minha saída na última página do meu passaporte, pegaram a minha folhinha da imigração, que havia preenchido na entrada, e pronto! Teoricamente, estávamos fora da Rússia.

Estava morrendo de fome, e já que não tinha nada pra comer no saguão do Sheremetyevo, eu achei que na área do embarque, teria algo. Realmente, lá havia uma área de free shop grande, com vários chocolates, perfumes, bebidas (claro, é a Rússia!), mas não comprei nada, mesmo achando os preços bons. Por exemplo, o perfume Prada Milano grande estava só 52 euros. Em Paris, eu achei esse perfume só mais que 70 euros. Agora vai comprar um Prada Milano aqui em Manaus pra te ver…

Fora o free shop, só haviam uns dois lanches abertos, mas eles eram estranhos. Acho que um era só de comida saudável, e o outro, de doces. Sinceramente, não gostei da aparência de nada dali, e comprei só uma Coca Cola, e uma espécie de Club Social russo em uma maquininha tipo vending machine.

Isso já era quase 5 da manhã, e meus olhos estavam fechando. O Pedro perguntou se ele poderia pegar as fotos que eu tinha do nosso intercâmbio no computador, e enquanto isso, deitei minha cabeça na mesa e tirei uma soneca. Alguns minutos depois, o Pedro pergunta se não era a hora de nós irmos, pois as companhias aéreas já estavam se organizando. Quando as filas começaram a crescer, nos levantamos, e me despedi dele.

Sabe, foi um aperto no coração muito grande, não só pelo Pedro ter se tornado um grande amigo durante a viagem, mas também por ele ser o último. O último! Quando iria voltar pra Rússia? Quando eu veria novamente algumas daquelas pessoas? Desde a minha host family, os meus estudantes, os professores, o meu amigo que me buscou na chegada, o pessoal da AIESEC e todos os amigos trainees que fiz? Eu senti que havia chegando na reta final, e eu tinha acabado de desapegar da última pessoa.

No meio da fila de embarque, eu não resisti. Eu chorei que nem uma criança! Todos aqueles momentos me vieram à mente, e chorava horrores! Senti uma pena vindo das aeromoças que me viram entrar no avião. Fiquei triste sim, mas engoli o choro quando vi a situação lá fora. Estava nevando forte, e comecei a pensar como o avião subiria naquelas condições. O medo de avião voltou, e por um momento esqueci a saudade e comecei a ficar apreensiva. Não sei se ficava feliz ou não, quando o piloto, com um sotaque turco bem forte, falou, com uma voz de preocupação que o avião estava fazendo o degelo das asas. E se aquele degelo não fosse bem feito? Socorro!

O avião decolou. Minutos depois, acabei relaxando, e voltei a ficar triste. Comecei a assistir um filmezinho, e fiquei esperando a minha chegada a Istambul, mas por algum motivo, todas aquelas imagens não saíam da minha cabeça. Horas depois, peguei a minha conexão a Paris, e fui aproveitar meus dias na França.

Nada melhor que a sensação de estar um passo mais perto de casa, mas saber que lá do outro lado do mundo, existem pessoas que você vai guardar no seu coração pra sempre é quase inacreditável.

Assim que percebemos a honestidade!

Quando nós pensamos em uma sociedade honesta, a primeira característica que podemos associar é justamente a educação. Mas que educação é essa que diferencia certos povos de outros, ou pessoas de criação diferentes, ou até de estratos sociais opostos?

Vou contar uma historinha. Lá em Saratov, e em outras cidades russas, você sempre ganha um ticket numerado ao andar no transporte público. Esse ticket valia 12 rublos para as vans, e 10 rublos para os ônibus e bondes. Um valor de transporte público barato, considerando que 1 real vale pouco mais de 15 rublos, ou seja, 98 centavos para uma passagem em um transporte público precário, em alguns casos, mas extremamente eficiente.

Alguns dos meus tickets de ônibus

Para os bondes, todos que entravam, logo eram abordados pela cobradora. Ela andava com uma pochete com dinheiro trocado e um rolinho com mais tickets. O mais impressionante era que ela sempre conseguia cobrar de todo mundo, mesmo quando os ônibus estavam lotados, e jamais essas cobradoras abordavam uma pessoa duas vezes! Haja memória fotográfica…

Nos ônibus, o pagamento só era feito na saída. Nesse caso, cobradores já não existiam, e quem fazia esse papel era o próprio motorista. Como a saída do ônibus só era permitida pela frente, ele tinha o controle de todo mundo lá dentro, e fazia o mesmo: dava o ticket, recebia o dinheiro, e dava o troco, se tivesse.

Nas vans a situação era bem mais curiosa. Lá também o motorista também atuava como cobrador de ônibus, e a passagem era paga ali, na hora, com o carro em movimento, e tudo! Por exemplo, se só tivesse lugar na parte de trás da van, eu me sentaria ali, pegava o dinheiro do ônibus, e passaria para a pessoa da frente, que passaria o dinheiro até chegar no motorista. Alguns minutos depois, o ticket voltava pra trás, e se houvesse troco, ele também voltaria, e certinho, através das mãos de todos no ônibus.

Uma vez, vi uma cena interessante sobre isso. Numa van lotada, sem lugar pra sentar, e com várias pessoas de pé, entrou uma moça que passou algum tempo procurando na carteira o dinheiro do ônibus. Só que ela só tinha uma nota de 5000 rublos com ela (o equivalente a 327 reais)! Ela passou o dinheiro, e após um tempo (cerca de uns 5 minutos), um bolinho de moedas começou a passar de mão em mão até voltar na moça. Como a passagem era 12 rublos, eu aposto que lá haviam exatamente 4988 rublos, sem nenhum centavo a menos!

Outra vez, dentro de uma van, eu estava segurando o meu celular com a mão, e tive que tirar a luva pra pegar o dinheiro pro pagamento da passagem de dentro da minha bolsa. Paguei, e percebi que nem a minha luva, e nem o meu celular estavam comigo. A estrangeira fez um clamor dentro da van pra saber se alguém tinha visto cair as coisas. Todo mundo começou a procurar, e uma moça que estava na frente achou ambos, e me entregou. Fiquei pensando se uma situação dentro dos ônibus aqui em Manaus teria esse desfecho igual. Creio que uma ou outra pessoa eventualmente ajudaria, mas na grande maioria dos casos, se alguém tivesse achado o meu celular, essa pessoa provavelmente acharia, esconderia, e ficaria de bico calado.

Com essas pequenas atitudes, percebi que o povo russo em geral é extremamente honesto e prestativo com certas situações. Vejo isso como uma boa herança deixada pelos soviéticos, que “tentavam” passar uma ideia de socialismo real – algo que não realmente existia, e que era deturpada pela propaganda soviética – conseguindo passar pro povo a pura ideia do socialismo, a igualdade de todas as pessoas perante ao estado.

Mesmo a Rússia sendo atualmente conhecida como um dos países mais corruptos do mundo (bem mais rankeada que o Brasil, inclusive), vale ressaltar que essas ações são cometidas por um grupo pequeno, mas poderoso da sociedade. Mas em geral, o povo russo é extremamente prestativo com as pessoas, algo que muitos não conseguem imaginar devido a aparência passada pela mídia durante vários anos.

Essas duas situações podem ilustrar muito bem isso, assim como a história do meu amigo que me buscou no aeroporto, que já contei, e outras que vivi por lá. Então já fica a dica. Se porventura você ficar amigo(a) de um russo, pode contar, que essa amizade é vitalícia!

Ah, e voltando a falar dos tickets, tem um outro fato curioso sobre eles! Caso a soma dos três primeiros números fosse igual à soma dos três últimos, esse ticket é da sorte! Pra tentar ganhar alguma coisa com eles, eu coloquei algumas dessas passagens sortudas dentro da minha carteira… vai que, né?! :)

Saratov, a capital do Volga

Eu já citei algumas vezes que eu fui fazer intercâmbio na Rússia, que eu gostei muito, e tal, mas não falei muito da cidade em que passei alguns dos momentos mais divertidos da minha vida!

Saratov é uma cidade de 840 000 habitantes situada na margem esquerda do rio Volga, na região centro-sul da Rússia. Eu pesquisei bastante antes de decidir ir até lá, especialmente por que estava em dúvida pra ir numa cidade na Polônia, e para Novosibirsk, a “Chicago da Sibéria”.

Na verdade, eu queria muito ter ido pra Novosibirsk no início desse processo de intercâmbio. Eu me lembro que quando eu era pequena, gostava de ficar observando atlas, e eu fiquei bem confusa ao abrir na página que mostrava o mapa da União Soviética, já que era um país enorme com outros países pequeninos ao redor. Bem no meio do mapa, eu vi o nome dessa cidade e comecei a imaginar que raios teria em Novosibirsk, e que país louco era aquele! Creio que devia ter uns 4 anos e não entendia nada ainda de geopolítica internacional. Hehe.

Quase que eu fui pra Novosibirsk, mas não teria como ir para União Soviética por motivos óbvios, já que o ano de 2011 estava entrando na reta final. Quando eu estava quase indo convencer a minha mãe a ir pra essa cidade que sempre me intrigou, eu comecei a sondar Saratov. Acho que nunca tinha ouvido falar dessa cidade antes, e fui pesquisar.

Gostei muito da história dela, e senti uma necessidade imensa de ir pra lá. Agora o porquê disso foi bem intrigante pra mim desde o início.

No início do Século XX, o Império Russo era a potência mais ameaçadora do continente europeu. Embora alguns autores afirmem que o Império era sempre o mais atrasado e retrógrado, a verdade é que numa situação de sobreposição de poderes criada por Bismarck no fim do século XIX, onde a França arrasada pelo Congresso de Viena conseguiu se manter à altura e manter a paz com uma Inglaterra bagunçada, mas poderosa devido ao sucesso da era Vitoriana, enfraqueceu a recém unificada Alemanha, comandada por um Kaiser louco e que destruiu o quebra-cabeça de Bismarck com algumas gafes sem sentido. Nesse contexto, o Império Russo era o país mais estável de todos os Europeus, e havia ganhado moral com a esmagadora vitória sobre Napoleão.

Enfim, no país mais temido da Europa, Saratov era um centro cultural ascendente no período pré-revolução russa, com renomadas universidades e conservatórios de música, além de possuir pelo menos 4 séculos de história. Ali, era a terceira maior cidade do país, apenas perdendo para então capital, e na época, uma das maiores cidades do mundo, São Petersburgo, e o centro industrial de Moscou.

Como todos sabem, a revolução começou, e em 1922 a União Soviética nasceu, e com ela, algumas políticas militares começaram a aparecer. Para Saratov, pouca coisa mudou até a Segunda Guerra Mundial e a batalha de Stalingrado.

A cidade de Stalingrado (hoje, Volgogrado) era o coração industrial da URSS, e os comandantes nazistas acreditavam que após tomar essa cidade, eles enfraqueceriam os soviéticos significativamente, e logo chegariam aos ricos poços de petróleo do Azerbaijão, onde deixariam o plano de conquista mundial e da “superioridade da raça ariana” a um passo de ser concluído.

Por sorte, a resiliência e bravura do povo soviético, aliada às táticas militares do general Jukov, os nazistas foram derrotados, enfraquecendo significativamente Hitler, e abrindo espaço à União Soviética e aos aliados a tomada de Berlim em 1945. Mas o que Saratov tem a ver com isso?

Saratov é uma cidade vizinha de Volgogrado, e muitas das batalhas foram travadas próximas ao círculo urbano da cidade, o que abriu a possibilidade aos soviéticos de instalarem uma base militar estratégica ali. Após a guerra, Stalin ordenou que a cidade fosse considerada “fechada” aos estrangeiros e outras nacionalidades soviéticas. Esse isolamento do mundo selou o destino atual da cidade, que passou anos sem ter um desenvolvimento tecnológico, e com pouquíssima infraestrutura estratégica. Por exemplo, o aeroporto da cidade é super subestimado, mesmo estando numa região com potencial turístico.

Apenas com a dissolução da União Soviética no natal de 1991, Saratov foi aberta aos estrangeiros, e à maioria dos soviéticos. Quando eu me toquei que eu poderia ir para um lugar que vedaria a minha presença há 20 anos, logo fiquei animada (por incrível que pareça!). Outros fatos me chamaram a atenção. Por eu ser estrangeira, poderia chamar mais a atenção, e ao invés de me preocupar com isso, mais estímulo recebi pra ir até lá!

Fiquei matched, ou seja, aquela vaga era minha! Comprei minha passagem até Moscou e cheguei lá após uma viagem de quase 19 horas de trem, fato que já contei por aqui.

Após chegar lá, eu vi algumas coisas que eu já esperava, e outras não. Eu já esperava ver neve por todo o lado, pessoas com aparência reservada, coisas exaltando a época soviética, dentre outras. Mas eu jamais esperaria receber tanto carinho da minha host mother, e amizades verdadeiras vindas dos outros trainees! Às vezes, quando eu saía da casa da minha host mother, triste por ter passado um dia sem ter conversado com alguém daqui de casa, ela me dava um abraço, um beijo, e um boa noite em russo! Fora as vezes que ela me emprestava algum chapéu de pelo de raposa pra proteger a minha cabeça, ou algum casaco mais grosso quando estava mais frio. Sem contar todos os jantares, frutas, e todos os MM’s que eu recebia todo dia. :)

A cidade é linda! Se já a achei incrível durante o inverno, não sei nem o que esperar durante o verão! Saratov é um balneário turístico bem importante na beira do rio Volga, e segundo a minha host, ela passa o verão inteiro deitada na praia. E pela cidade ser antiga, muitos prédios da época ainda continuam. Construídos em madeira, e pintados sempre com cores brilhantes, esses prédios lembram um pouco aquilo que eu costumava ver na TV como construções da época czarista.

Se alguém me perguntar se vale a pena ir pra Saratov fazer seu intercâmbio, a resposta com certeza é sim, apesar das dificuldades que passei para ter a definição de onde eu iria trabalhar. Pra mim, a recepção daquelas pessoas, as amizades que criei, todo o carinho dos professores e alunos da escola que trabalhei e todo aquele ar cultural do interior da Rússia vale todo e qualquer esforço. Já prometi pros meus amigos que eu voltaria lá. Gostaria saber quando, mas ainda irei.

Vivendo em um vilarejo soviético

Em fevereiro, minha hostess me chamou pra passar o fim de semana “at the village”. Sem hesitar, falei que sim, e logo me animei com a possibilidade! Fomos até a rodoviária, compramos nossas passagem de ônibus e esperamos pelo dia. Um outro brasileiro já foi me alertando dizendo que lá não tinha nada!

A princípio iriam eu, todos os intercambistas, a mãe, e o irmão da minha hostess. Acabaram indo todos os trainees, a Katya e uma amiga dela. Fomos de ônibus e partimos na sexta de manhã. O trajeto de ida não foi muito confortável, mas deu pra se relaxar. Ainda mais, fiquei conversando com um outro brasileiro, e jogamos conversa fora por umas 2 horas.

A paisagem era bem triste, já que tudo estava coberto de neve e o silêncio do ônibus me fazia sentir num vazio total. Do nada, minha hostess nos chamou, dizendo que estávamos chegando. A pergunta na minha cabeça era: chegamos onde?!

O ônibus parou no meio do nada! O que quebrava o hábito eram algumas casinhas de madeira, construídas uma longe da outra. Algumas dessas casinhas tinham as paredes tortas, lembrando muito algum cenário de filme de terror. E lá tinha muita neve, mais do que o normal em Saratov!  E era neve pura, daquelas que se podia pegar um monte e comer, já que ninguém podia ter pisado, ou passado por ali.

Vilarejo em que passei o fim de semana

Fomos deixados na estrada principal, e tínhamos que andar um bocado até chegar à casa onde passaríamos aqueles dias. E como eu era a mais sedentária, fiquei pra trás! Foi muito exaustivo (no meu caso) chegar lá. :)

Fomo logo recebidos pela “babuska” da Katya, e logo nos acomodamos nas camas à nossa disposição. O interior da casinha era interessante. As paredes eram todas cobertas com tapetes persas e imagens de santos ortodoxos. A cozinha era bem rústica, e só havia uma pia à disposição de tudo na casa! O aquecimento era feito com uma espécie de tambor gigante que ficava bem no centro da casa. Vale ressaltar que nem todos os cômodos da casa eram aquecidos. Mesmo me sentindo no meio do nada, abrigada por uma tenda siberiana, ainda me senti “perto” do mundo, já que ali tinha TV via satélite com alguns canais (todos em russo).

A casa ainda tinha um anexo onde os avós da Katya criavam um rebanhozinho de cabras. Tivemos sorte! No dia seguinte da nossa chegada, uma das cabras teve filhotinhos, e nós ajudamos a aquecê-los e a limpá-los! :)

Nunca em toda a minha vida, eu comi tanta batata quanto lá! E eles cozinham a batata de uma maneira tão especial que até hoje não sei como preparar aqui! Foi o nosso primeiro jantar, e pra fechar, comemos uns biscoitinhos maravilhosos!

Apesar do bucolismo, de toda a sensação incrível que estava sentindo naquele lugar, havia um grande problema. Não existe saneamento básico no vilarejo, sendo aquela pia da cozinha, o único cano que saía água da casa. Eu estava nos meus dias, e ir pro banheiro era, digamos, nojento. Os meninos não tiveram problema algum nas idas ao banheiro, eu, por outro lado, faltava morrer! A sorte foi que a avó da Katya possuía uma espécie de balde adaptado para urina, e esse balde ficava dentro de um cômodo da casa, que não tinha aquecimento. Apesar do frio de vários graus abaixo de zero, ir no banheiro ali era bem melhor do que ir na casinha com apenas um buraco no chão que ficava fora de casa, no escuro e mais frio ainda.

A questão do banho também era tensa. Os avós da Katya tomavam banho no “banya”, ou seja, aquela famosa sauna russa onde as pessoas ficam nuas, e se batendo com um umas folhas nas costas. Me chamaram pra ir no banya com o pessoal, e nesse caso, nem fiz questão!

No dia seguinte, fomos passear no bosque. Eu relutei muito em ir, já que eu estava me sentindo suja, e cansada por não ter dormido a noite bem. Acabei indo, e achei aquele bosque lindo! Literalmente eu me senti no filme do Bambi, no meio de uma trilha com árvores cheias de neve, e vendo uma corredeira que só não era congelada pela energia cinética. Lindo :)

Bosque

Passamos outra noite lá e tínhamos que partir às 5:30 da manhã do dia seguinte rumo à Saratov. Acordar naquela hora foi horrível. Tínhamos ido dormir muito tarde e já estávamos com preguiça do frio que iríamos sentir! Após tomar correndo um café da manhã só com panquecas, saímos no breu e frio da noite. Estava muito escuro. O vilarejo não tem iluminação pública, e naquela hora, nenhuma casa estava com as luzes acesas. Apesar do medo constante em escorregar, tive uma bela recompensa! Nunca vi um céu estrelado tão bonito, e apesar do frio, sono e fome, o firmamento me deu a mensagem de que tudo valeu a pena.

Daí, pra encerrar mesmo, esperamos o ônibus de volta. A Katya bateu o pé e disse que era melhor esperarmos um ônibus, ao invés de pedir um táxi, que sairia o mesmo preço. Só que a Katya não esperava que o ônibus demorava muito pra passar ali, um vilarejo pequeno. E outra coisa que deixou todo mundo bravo com ela foi o frio. No caminho, encontramos um senhor que disse que, segundo o termômetro da casa dele, estava fazendo -35 graus! Era o mais frio que já tínhamos ficado! Na cidade é quase impossível de fazer esse frio por causa de carros e indústrias, que lançam calor. Dois outros brasileiros estavam morrendo de frio, um não tinha calça térmica e outro não tinha luvas, e os dois não paravam de falar mal da Katya (em português, claro) por ela não ter chamado um táxi. Pra completar, a chinesa sentiu a menstruação dela saindo naquele momento! Acabei emprestando um absorvente pra ela, e ela teve que por ali, no frio!! Não sei como ela conseguiu! :)

Umas 6 da manhã passou o ônibus que estávamos esperando. Quase que esse ônibus (que era uma van) deu problema! Não havia lugar para todos. Eu e outro brasileiro corremos pra sentar, enquanto o chinês ficou de pé por quase toda a viagem, coitado! E lá tava bem frio e desconfortável, mas da situação que estávamos, conseguimos relaxar e dormir. Ao chegar em casa, a primeira coisa que eu fiz foi, definitivamente, tomar um bom banho!