Cidadão Global: vale a pena? Minha experiência

O Cidadão Global é um programa de intercâmbio muito interessante promovido pela AIESEC, organização pela qual trabalhei por cerca de três anos e que hoje represento sendo alumnus. Ou seja, após ter trabalhado e contribuído com o crescimento do escritório, hoje observo e acompanho a organização de longe. Mas hoje eu não vim falar sobre a minha experiência como membro da organização, e sim a minha experiência como EP (exchange participant – participante de intercâmbios).

Para começar, a verdade foi que eu sempre quis fazer intercâmbio, mas eu pretendia viajar lá pelo final da minha faculdade em algo relacionado ao aprendizado de idiomas, passar um semestre do meu curso fora, ou até mesmo o mestrado. Até hoje essas vontades continuam de pé, e acredito sim que eu ainda vou obter mais experiências internacionais.

Apaixonada por essa vista! (Parlamento ao fundo)

Apaixonada por essa vista! (Parlamento ao fundo)

Em 2010 eu conheci a organização, comecei a trabalhar como voluntária e aos poucos tive a vontade de participar dos programas que a AIESEC oferece para viajar: hoje são dois programas, chamados de Talentos Globais e Cidadão Global.

O primeiro consiste em realizar um estágio no exterior, trabalhando em alguma empresa com algum tema relacionado à sua área de estudo: comércio exterior, engenharia, jornalismo, captação de recursos, educação de idiomas e assim sucessivamente. Esse programa oferece uma bolsa que ajuda na manutenção do intercambista pelo período em que ele(a) fica trabalhando no exterior, que pode durar de 6 semanas a 18 meses.

Eu ainda não participei do Talentos Globais, e pretendo fazê-lo após o meu mestrado. Porém esse post se trata de duas experiências maravilhosas pelo programa Cidadão Global! Nas duas vezes eu fui para o Leste Europeu e arrumei minhas malas para a Rússia e para a Hungria.

O Cidadão Global é um programa voluntário e de curta duração – 6 semanas até 3 meses. Geralmente os países que oferecem vagas se encontram na América Latina, Leste Europeu, África e Ásia, e em geral o foco do programa consiste em desenvolver projetos em educação, meio ambiente, direitos humanos, saúde e muito mais.

Arbat ul. em Moscou

Arbat ul. em Moscou

Bem, o post será longo, então vamos lá!

Então, o meu primeiro X foi pra Rússia! Sempre sonhei em conhecer esse país e sabia que eu iria amar minha experiência de qualquer maneira.

Mas por que a Rússia?
Eu queria conhecer uma realidade diferente da minha. Queria pegar um inverno rigoroso, idioma complicado, comida exótica, conhecer uma cidade menor, ou seja, fugir da minha linda zona de conforto aqui em casa. Acabei parando em Saratov, uma cidade de 800 000 habitantes na região centro-sul da Rússia. O meu projeto no Cidadão Global era o BRIC, e como o nome já diz, ele foca em estudantes desses países.

O meu projeto consistia em apresentar dados da economia e cultura dos países do BRIC para estudantes de ensino médio e universidades, e comigo foram mais dois brasileiros, três chineses e um indiano. Acabou que só o indiano trabalhou na SSTU (a universidade participante do projeto), já que todos fomos embora antes dele. Mas basicamente eu atuei só na Escola 45 de Saratov.

Para falar um pouco mais da Escola 45, eles tem uma tradição muito grande em esportes, ostentando muitos troféus em várias modalidades. Ao lado da escola existe um estádio de um dos principais times da cidade, e lá haviam turmas exclusivas de atletas, já que eles viajavam muito para competir e necessitavam de uma metodologia especial.

Escola 45 em Saratov

Escola 45 em Saratov

Fui extremamente bem recebida na escola! Os professores, alunos, a diretora e demais funcionários foram sempre muito gentis e atenciosos, e sempre muito curiosos em saber mais do Brasil. Fiz apresentações sobre história, comidas, cinema, novelas (btw, eles adoram “O Clone” por lá!), tradições, curiosidades e claro, a economia do país. Também falei bastante da minha região linda – a Amazônia – que é extremamente exótica para eles.

Escola 45 <3

Escola 45 <3

Esse período que eu trabalhei lá na escola foi relativamente bem organizado. Lidei com várias turmas e professores e senti um carinho imenso deles. Até tivemos uma festa de despedida onde ~toda~ a escola participou, com direito a apresentações de dança, música, e também apresentações sobre a Rússia, Saratov e muito mais, todas feitas pelos alunos. Foi uma maneira de agradecer pelo trabalho que nós fizemos.

Parte da escola na nossa despedida

Parte da escola na nossa despedida

Sabe, foi muito gratificante estar ali. Muitos dos alunos (e das pessoas de Saratov) não pretendiam fazer faculdade, se especializar para ter um emprego legal, nem conhecer o mundo nem nada. Algumas pessoas chegavam comigo me agradecendo pelo fato de que eu saí da minha casa – bem longe dali – para viajar pro meio do inverno para apresentar pra eles uma nova perspectiva de vida e que existem muitas possibilidades para serem exploradas.

Infelizmente o meu projeto não durou o tempo planejado. O meu CL acabou tendo um problema de know how, e só duas pessoas (a VP ICX e o LCP) estavam dando vazão ao projeto. A Katya, a VP ICX da época era a minha host e tive uma certa flexibilidade de falar com ela e de cobrar algumas coisas, mas a princípio o projeto quase não saiu do papel. Foi uma pena, mas não por falta de vontade, e sim por que eles sozinhos não estavam conseguindo dar conta de tudo.

Moscou, na semana final

Moscou, na semana final

Bem, de qualquer maneira, nenhum intercâmbio é perfeito, e devemos aprender a contornar problemas quando existirem, para o nosso próprio crescimento. Mesmo com essas dores de cabeça do projeto, tenho certeza que eu fiz a escolha certa e recomendo o intercâmbio pela AIESEC para a Rússia! Sou apaixonada pelo país e extremamente grata por tudo que eu aprendi nessa jornada. Mas é preciso saber que é necessário ter resiliência e poder de superação, não só para uma viagem para a Rússia, mas sim para qualquer lugar.

Alguns posts relacionados ao intercâmbio na Rússia:
Seja a mudança!
FAQ da Rússia
Tô indo pra Rússia. E agora?
O que eu vi do racismo
Me conte mais da mãe Rússia
Saratov, a capital do Volga
Vivendo em um vilarejo soviético
Como é difícil dizer adeus
Longe de casa, mas no centro do mundo

Mas mesmo assim eu senti que a minha experiência não foi 100% completa. Devido a esse problema de organização, eu senti que eu poderia ter feito muito mais e um belo dia eu decidi que eu faria outro intercâmbio pela AIESEC! Dessa vez eu fui mais “atenta”, buscando saber mais da reputação do escritório, depoimentos de outras pessoas que viajaram para esse lugar, acessibilidade e afins.

Da segunda vez, não foi a minha intenção ir para um lugar em que eu me desafiasse tanto, e a minha intenção era justamente combinar o lazer com o trabalho. Depois de muita busca e muita pesquisa eu acabei dando match com a AIESEC Budapest University (ou LC Corvinus, ou @BCE). A cidade é espetacular, recebe muitos intercambistas (não só da AIESEC mas também de programas de intercâmbio de universidades), e até tinha uma boa reputação entre os EPs.

Amigos de intercâmbio <3

Amigos de intercâmbio <3

O meu EP manager havia viajado por esse mesmo CL como uns 3 meses antes da minha viagem e eu pedi muito dele que me contasse tudo sobre os intercambistas, a escola em que eu trabalharia, a organização do CL, detalhes da cidade e tudo. Ele só me falou coisas boas de lá e me adiantou que eu iria adorar a escola em que eu trabalharia.

Praça dos heróis em Budapeste (e o meu amigo fazendo gracinha ali atrás)

Praça dos heróis em Budapeste (e o meu amigo fazendo gracinha ali atrás)

 

Já viajei animada e tudo que ele me confirmou se realizou. A escola em que eu trabalhei, a Kontyfa, organizou um projeto excelente (no caso o Magellan) e senti também muito apoio dos professores, do diretor e dos estudantes, assim como na Rússia. Acabei morando num apartamento anexo à escola, e sempre estava por lá. Os estudantes inclusive saíam com a gente e tudo.

Falando mais do projeto, o Magellan foi bem parecido com o BRIC: apresentações sobre os nossos países. Comigo trabalhou a Rekha, da Austrália e ficamos muito próximas! Só lembro dela me chamando para tirar um selfie, antes da expressão ser conhecida no Brasil, haha. Antes de nós, outras duas duplas de meninas haviam trabalhado lá na Kontyfa, sendo três meninas brasileiras. Mas a minha presença foi “diferente” por que as outras meninas eram de São Paulo, e eu do Norte. Ou seja, estava apresentando uma perspectiva totalmente diferente, e dessa vez apresentando a região mais linda do planeta!

Escola Kontyfa <3

Escola Kontyfa <3

Falei antes que nenhum intercâmbio é perfeito, mas esse chegou quase! Só não digo que foi 100% por que o banheiro do meu apartamento estourou (sim, estourou!!), e não dava para fazer nada em casa. Que situação! Ainda bem que isso só aconteceu no fim do intercâmbio hehe.

Conversei com muitas pessoas sobre a minha experiência na Hungria e reitero que também recomendo a experiência. Mas mais uma vez: é necessário estar preparado para tudo. Vai que acontece algum problema que você não está preparado para resolver? Às vezes é necessário agir no automático.

Alguns posts sobre intercâmbio na Hungria:
1 ano de alegria
Hungria: dúvidas e respostas
Hungria: mais dúvidas e respostas
Norte, sul, leste e oeste
O quê que a Hungria tem?
O dia em que o tempo parou
Voluntariado na escola Kontyfa
Tardes em Margitsziget
Primavera em Budapeste
Partiu Budapeste!

Para finalizar, eu realmente aproveitei esses períodos no exterior pela AIESEC. Formei amigos para a vida toda, tanto do Brasil como do exterior. Aprendi a me virar sozinha, levando tapa na cara ou não. Conheci lugares incríveis que antes jamais pensei em visitar. Tive a tão preciosa vivência internacional e também cresci muito como pessoa!

Respondendo à pergunta do título: o Cidadão Global vale a pena? Claro que sim!!

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1 ano de alegria

Budapeste vista da Citadella

Budapeste vista da Citadella

Hoje é dia 12 de abril de 2014 (22:35 da noite). Esse texto sairá de uma vez só, sem revisões, estética nem nada. Simplesmente vou colocar pra fora todos os sentimentos que me vêm à mente devido a esta data especial.

Nesse exato momento há um ano atrás (considerando jetlags) eu estava no aeroporto de Fortaleza super estressada pelo fato de que o meu voo para Lisboa havia atrasado. Por consequência, eu estava tomando um belíssimo chá de cadeira no aeroporto. A sorte? Havia um wi-fi, já que o meu 3G estava horroroso ali.

Fui bem viajante. Estava com uma sapatilha bem confortável, calças jeans nem tão apertadas, uma blusa de algodão da Betty Boop, uma mochila nas costas e uma bolsa no ombro.

Em Fortaleza eu havia comido um pão de queijo com coca-cola. Para mim, uma alimentação tranquila, que eu comeria tranquilamente sem passar mal ou coisa assim. Mas chegou uma hora em que eu estava com fome de novo, e o único cheiro que me vinha era o de café. Confissão do dia: eu odeio café e fiquei enjoada.

Pior ainda, eu estava morta de sono e essas cadeiras de aeroporto não são cômodas pra quem quer dormir. Nem deitar dava.

Esse estresse estava misturado com o medo de avião (eu tenho, acreditem!), e a ansiedade. Ao contrário da maioria das ansiedades que eu sinto, eu estava bem mais insegura. Será que alguém iria me buscar no aeroporto? Será que essas seis semanas seriam complicadas ao ponto de me fazer arrepender dessa decisão? Será que não era melhor eu ter ficado em casa? Onde que eu vou morar?

Isso que eu já me considerava uma pessoa “experiente” em termos de viagens… Um ano e meio antes quando eu fui pra Rússia eu não estava assim não. Felizmente, o meu coração estaria me preparando para uma incrível experiência!

Embarquei e sentei. A impressão que tive foi que o tempo voou! Simplesmente o avião decolou, eu jantei, dormi e já estávamos descendo em Lisboa. Geralmente eu me sinto presa numa eternidade que não passa dentro do avião… isso em viagens de 12 horas, e ali eu ficaria no voo por “apenas” 7.

Cheguei em Lisboa, passei pela imigração, comi alguma coisa e esperei o voo para o destino final. Eu estava muito, mas muito nervosa!

Era no “vai ou racha”. Entrei no avião e sabia que ali era pra valer. Segurei a respiração. Tentei dormir e não conseguia. Comecei a ver o mar abaixo de mim e não sabia onde eu estava. Deveríamos passar pelo mar? O mar virou terra de novo. A terra virou montanha. Estávamos nos Alpes. Isso significaria que eu estava perto de chegar, ou pelo menos uma boa distância já tinha sido percorrida.

Enquanto isso, o almoço foi servido e eu não consegui comer. Tomei um suco e comi o arroz, e outras coisas que eu achava que eu iria aguentar no estômago. Retiraram o jantar. Tentei dormir pra ver se o tempo passava.

Parecia que aquele voo de 3 horas estava durando mais do que o de 7 que eu tinha acabado de fazer. Então os Alpes acabaram. Embaixo de nós só havia planície. Eu sabia que estávamos chegando.

Do nada, eu vi um fio d’água brilhando com o pôr-do-sol. Percebi que eu via uma cidade ao redor desse rio. E pouco a pouco eu tive a certeza de que aquela forma da cidade e daquele rio era Budapeste! Fiquei extremamente feliz! Segunda confissão de hoje: cheguei ao ponto de chorar.

Desci do avião e fiquei esperando minhas malas. Confissão número 3: estava funcionando no automático, já que eu não sabia o que iria acontecer. Simplesmente deveria estar preparada para tudo!

A maior alegria foi quando eu vi o Zsolt carregando uma plaquinha com o meu nome! Alguém tinha lembrado de mim! Aquela pessoa que eu mandava vários emails para lembrar que eu estava chegando apareceu! Confissão número quatro: eu relaxei completamente ao vê-lo.

Tive o melhor buddy do mundo! Sem mais delongas, ele foi um amor comigo, do início ao fim. Sempre muito atencioso e gentil, ele me mostrou o melhor lado da Hungria, e desde o início ele se mostrou bem solícito em me ajudar. Eu acho que eu fui a única trainee que foi levada de carro ao redor do Danúbio durante o pôr-do-sol e o acender das luzes. Essa lembrança fica pra sempre!

Ele me levou pra casa e a princípio eu fiquei com medo. A vizinhança numa primeira vista parecia assustadora. Eu teria de atravessar um parque, e estava frio e escuro.

Do nada vem uma garota na nossa direção e era a Rekha, a minha roomate que participaria do projeto comigo. Ela foi um amor comigo desde o início também! Ela me mostrou a casa, me ofereceu o computador dela (já que era sábado e o wifi para mim seria liberado apenas na segunda) e já foi me chamando pra sair, mas eu não estava me sentindo bem.

Eu só queria tomar um banho e dormir. Não consegui dormir. Tomei um dramin e não adiantou. E digo que não adiantou nada, que eu não consegui fechar o olho e ainda vomitei tudo que eu havia comido nas últimas 24 horas.

Acordei horrível. Segundo a Rekha, havia pão na cozinha e umas sopas que ela havia buscado na escola. Só que o pão já estava mofado e a sopa estava fora da geladeira, e provavelmente já estava estragada. Não sei o que que ela estava comendo naquela casa.

O Zsolt voltou no dia seguinte e me ajudou a comprar o chip de celular e o passe de ônibus mensal. Depois ele me deixou em Margitsziget e depois é só história. Conheci muita gente boa naquele dia, que ficou na memória como um dos melhores dias ever. Me sentia dentro de um filme! O céu estava azul, a grama verde, o piquenique estava gostoso e as pessoas eram incríveis. Depois fui curtir o melhor pôr-do-sol da minha vida lá no Castelo de Buda.

Uau!

Agora depois de tudo o que eu escrevi (23:11) eu vou ler o post “Primavera em Budapeste“, escrito no dia 20 de abril do ano passado. Sim, eu não atualizei o blog com tanta frequência quando eu estava na Hungria, e convenhamos, eu tinha muitas coisas para fazer lá. :)

Uma outra coisa curiosa desse post é que ainda são 12 de abril por aqui, mas ele vai ficar com a data de 13 de abril, devido ao fato de que o horário que eu seleciono é de acordo com o GMT 0, e não com o GMT -4 de onde eu moro. De qualquer maneira, dia 13 de abril foi o dia de fato em que eu cheguei na Hungria.

Eu vou comparar o que eu escrevi agora com esse post do ano passado e verificar o quanto eu mudei em relação ao que se passou durante esse tempo. Uma coisa é certa: Essa foi a experiência mais preciosa da minha vida! Voltaria para trás e faria a mesma coisa de novo. E de novo. E de novo…

Budapeste.

Budapeste.

50 sensações possíveis só para quem fez intercâmbio

Existem situações e vivências que são únicas, e cada experiência internacional que vivi me agregou muita coisa. Por isso digo que meus intercâmbios foram únicos e extremamente importantes para o meu crescimento como pessoa. Pensa em fazer algum nos próximos meses ou anos? Se prepare para alguma das melhores sensações da sua vida!

  1. Lidar com pessoas de diversos países será super comum. É tipo uma volta ao mundo sem sair de um só lugar;
  2. Com tanta diversidade cultural, as pessoas começarão a achar seus hábitos rotineiros um tanto estranhos;
  3. Mas não se preocupe, já que pessoas que você conhece há poucas semanas se tornam amigos de infância;
  4. O lema “Viva como se não houvesse amanhã” ganha um significado totalmente diferente;
  5. Se você não sai da sua zona de conforto em casa, certamente o fará durante o seu intercâmbio;

    Como não amar esse dia e essas pessoas?

    Como não amar esse dia e essas pessoas?

  6. Falando em sair da zona do conforto, se perder na cidade, pegar o ônibus errado e até passar vergonha alheia na rua é normal;
  7. E quando você comenta essas experiências com algum outro intercambista, ele(a) vai te contar alguma história bem mais bizarra;
  8. Não gosta de McDonald’s, KFC e qualquer marca de fast food? Não adianta, você sempre irá dar um pulinho por lá para poder economizar dinheiro;
  9. Na verdade, a frescura com a maioria das comidas acaba. O importante é se manter alimentado. Até mesmo um miojo ajuda!;
  10. Falando de comidas, sempre terá alguma comida típica que você vai se apaixonar. Caso ela não seja vendida no Brasil, algum dia você vai tentar pelo menos fazê-la em casa (ou morrer de vontade);

    Lángos doces

    Lángos doces

  11. Mal você chega e todo mundo quer que você poste suas fotos. Assim, todo mundo viaja “junto”;
  12. Além do mais, todo mundo quer conversar no skype com você. Acredite, conversar com alguma pessoa no Brasil é uma das melhores sensações, além de aquecer o coração;
  13. Dá vontade de chorar quando chegamos em um lugar que no fundo, sempre sonhamos em conhecer;
  14. Qualquer pequeno detalhe já é motivo pra tirar foto;
  15. Você vai descobrir que jovens são iguais no mundo todo, e que de alguma maneira, todos falam a mesma língua;

    Brasileiros lindos, em Brastislava

    Brasileiros lindos, em Brastislava

  16. Você sempre conhecerá pessoas diferentes. É tipo virar popular “ao redor do mundo”;
  17. E bote diferença e diversidade nisso. Minha roomate em Budapeste tem nacionalidade australiana, porém é nascida em Singapura, e 100% descendente de indianos. Fora isso, ela também já morou na Indonésia, Índia, Omã e Malásia. Parece que não, mas você vai encontrar muita gente com background diverso no seu intercâmbio;
  18. Apesar de toda essa diversidade dela e da minha (uma mistura de alemães, colombianos, marroquinos, indígenas, portugueses e nem sei mais o quê), conseguimos encontrar semelhanças culturais bem marcantes! Moral da história, apesar das diferenças, o que importa são as semelhanças;
  19. Pequenas coisas, como um tal pôr-do-sol ou uma vista a um céu estrelado se tornarão momentos marcantes durante a sua vida inteira;
  20. Você vai se lembrar para sempre daquela festa que todo mundo estava feliz, aquela celebração cultural única, daquele momento em que seus amigos riram…;

    Ingresso do jogo CSKA Moscou x Real Madri

    Ingresso do jogo CSKA Moscou x Real Madrid

  21. Pois o importante é ter histórias para contar aos seus netos, e você terá muitas delas para compartilhar;
  22. Mas tenha ciência que você também terá histórias ruins. Não vá se iludir que tudo seja um arco-íris;
  23. Qualquer probleminha se torna uma dor de cabeça enorme;
  24. E quando você volta para o Brasil, você ri dessas situações chatas. Afinal, é sempre bom ver tudo pelo lado positivo;
  25. Sentir saudades de casa é inevitável. Tem vezes que a melhor coisa do mundo é lembrar da sua cama, da comida da avó, e especialmente uma piscina quando você pega aquele inverno bem rigoroso;

    Middle of nowhere

    Middle of nowhere

  26. Se você está fora do Brasil durante o carnaval, o réveillon, o sete de setembro ou alguma outra data comemorativa, o coração meio que aperta;
  27. E chega um momento em que comer qualquer coisa que te lembre a comida de casa é a melhor coisa do mundo;
  28. Você não consegue sentir medo, comparado com a sua vida no Brasil;
  29. Mas quando tudo dá errado, a vontade que dá é de sair correndo para o aeroporto;
  30. Mas tem algo que te prende por lá, e o seu coração diz que é necessário tentar;

    Moscou, na semana final

    Moscou, na semana final

  31. Também existem as comparações. Não dá pra deixar de comparar qualquer coisa com o Brasil;
  32. E até que você consegue ter umas ideias sobre o que poderia melhorar na sua cidade de acordo com as coisas que você vê durante o seu intercâmbio;
  33. Independente se o intercâmbio for pra estudar na faculdade, idiomas, trabalhar em empresas ou como voluntário, você vai ter o interesse de fazer um próximo, com alguma atividade diferente;
  34. E dá aquela vontade de viver uma experiência única dentro de sua experiência única. Talvez comprar os ingressos daquele jogo importante, pagar um jantar num restaurante exótico ou viajar para a cidade dos seus sonhos seja a melhor coisa que você já tenha feito;
  35. E quando você volta pra casa, você lembra de todos esses fatos com muito carinho;

    Tem coisas que guardamos com muito carinho!

    Tem coisas que guardamos com muito carinho!

  36. Mas ao mesmo tempo fica aquela sensação de “poderia ter feito mais”;
  37. E quando você esbarra com alguém na rua que vai fazer intercâmbio na mesma cidade que você fez, seus olhos começam a brilhar, e você se voluntaria para dar dicas e afins;
  38. E sempre fica aquele gostinho de quero mais;
  39. Daí você percebe que viajar é a melhor coisa, e que é necessário sempre conhecer algo novo;
  40. E o tempo passa, e aquelas pessoas que você convivia no intercâmbio ainda são muito queridas;

    Vista de Szentendre

    Vista de Szentendre

  41. Daí a frase “Recordar é viver” também ganha um novo sentido;
  42. E dá uma vontade de viajar para todos os países para dar um abraço nos seus amigos;
  43. Então você fica super alegre e comenta como se fosse o maior especialista no assunto quando você vê na mídia alguma coisa deste lugar;
  44. Afinal de contas, por um determinado tempo, você foi um cidadão daquela cidade, e se misturou na multidão como se fosse um americano, inglês, francês, espanhol típico;
  45. Dá uma vontade de documentar o que você faz, seja através de fotos, textos, postagens;

    Felicidade imensa ao ver a neve pela primeira vez! :)

    Felicidade imensa ao ver a neve pela primeira vez! :)

  46. Não se preocupe, que a nostalgia é um sentimento bem comum;
  47. E apesar dos momentos bons, ruins, felizes ou tristes, um consenso geral é de que essa é a melhor experiência da vida;
  48. E que você viveria tudo aquilo de novo;
  49. E o que resta agora é compartilhar;
  50. E estimular os outros a terem uma experiência semelhante.
Por que o importante é ser livre!

Por que o importante é ser livre!

 

 

 

Voluntariado na escola Kontyfa

Em Budapeste, tive o prazer de realizar um trabalho voluntário na escola Kontyfa, localizada no distrito XV, no bairro de Ujpalota.

Como disse antes, o trabalho voluntário consiste em impactar os alunos através da internacionalização. Nós apresentaríamos pra eles fatos sobre os nossos países, onde eles conheceriam um pouco mais da nossa cultura e curiosidades, e também os dando uma perspectiva de futuro, apresentando que existe um mundo inteiro aí fora. Eu executei esse projeto com uma menina da Austrália, nascida em Singapura, e que viveu em vários países da Ásia. Ou seja, os alunos realmente estavam com duas cidadãs do mundo :)

Mas como assim? Muitos dos alunos da escola não sabem exatamente o que querem, ou não simplesmente acreditam que eles tem um enorme potencial. O distrito XV fica bem nos distritos de Budapeste, e a quadra onde a escola ficava era a última antes da fronteira entre Budapeste e Gödöllo, ou seja, ela lidava com muitos alunos que viviam em situação de risco, considerando os subúrbios como a região mais perigosa da cidade.

Quando cheguei, a professora responsável pelo nosso projeto, a Kriszta, foi logo avisando que era pra eu ter muito cuidado com a vizinhança e os alunos, pois eles viviam nessa tal situação “de risco”. Risco pelo fato dos subúrbios serem a região menos privilegiada de Budapeste, e por muitos desses alunos terem pais desempregados, não se interessarem ~mesmo~ pelos estudos (vi uma aluna do equivalente ao nosso primeiro ano do ensino médio com 23 anos), e até viverem em formação suspeita.

Fiquei logo com medo, mas o que eu vi foi o oposto disso. Todo mundo com um sorriso no rosto, todos prestativos com os professores, e apesar de muitos deles viverem em dificuldades, não demonstravam nada de triste. Mas realmente muitos deles não tem perspectivas de crescimento profissional. Muitos dos que estavam terminando a escola, não queriam fazer faculdade, ou nem sabiam ainda qual profissão seguir.

Eu ia todo dia pra escola com um sorriso no rosto! Sempre muito bem recebida por todos, e sempre sentia muita curiosidade vinda dos alunos sobre mim ou sobre a minha roomate.

Eu trabalhava lá de manhã, mas em nem todos os horários. Como eu fui agora em abril e maio, muitos dos alunos já estavam entrando na reta final do ano letivo (que termina em junho e começa em setembro), eles precisavam de conteúdo, e de fazer as provas finais. Claro que às vezes eu ficava chateada em não poder contribuir mais, mas totalmente compreendia que eles precisavam de conteúdo (risos).

Os professores sempre comentavam comigo que achavam que a escola tinha muitos problemas, por ser uma escola pública (todas na Hungria são), mas a infraestrutura deles, apesar de ser antiga, era muito boa! Eles sempre tinham atividades de recreação para os alunos. Já vi pula pula, touro mecânico, aquela luta com cotonetes gigantes (?!), e até muitas atividades do lado de fora da escola. Por exemplo, em uma semana, os alunos passavam todo o tempo fora da escola, e uma das atividades era ir até o castelo de Buda e servir de guia em inglês para turistas estrangeiros. Ou seja, atividade conjunta de inglês e história. Eles também comemoraram o dia da Terra com uma feira de ciências. Foi bem interessante!

Fora que eles possuíam muita infraestutura acadêmica, com material para datashow, wifi, sala de edição de videos, uma biblioteca completa, sala de ciências e por aí vai.

Eu também morei dentro da escola. Anexo à escola, tinha um apartamento, pequeno mas confortável, que oferecia toda a infraestrutura de conforto. Nós tínhamos uma entrada independente da entrada da escola, mas também tínhamos acesso à parte de dentro da escola. Podíamos entrar na escola em qualquer hora, mas se passássemos de um certo ponto, o alarme ia ser ativado. ^^

Literalmente tivemos casa, comida e roupa lavada! Além de um apartamento bem confortável, almoçávamos todos os dias na escola, e sempre as senhoras da cafeteria nos davam todo tipo de comida. Pães, frutas, leite, manteiga, e também tínhamos umas vasilhas onde podíamos levar o almoço para comer em casa. Elas também nos ajudavam a lavar a roupa na lavanderia, e também nos davam dinheiro para passar o fim de semana!

Apesar de eu morar bem na fronteira de Budapeste, o acesso de ônibus era bem fácil. Só duas linhas de ônibus iam ao centro da cidade, mas eles passam pela parada de ônibus de cinco em cinco minutos. A linha de metrô M4 (eternamente em construção) vai ter seu ponto final duas paradas de ônibus antes da minha. Vai ficar mais fácil de ir pra lá ainda!

Então, eu não tenho como agradecer toda essa experiência incrível que passei na escola Kontyfa! Quando eu voltar a Budapeste, passo lá de certeza.

 

Primavera em Budapeste

Cheguei em Budapeste! E nossa, que viagem! Já estou acostumada a pegar trechos super longos, com pelo menos mais de 36 horas de voo, e dessa vez peguei só 24 horas voando. Hehe.

Saí de Manaus à tarde, cerca das 15 horas o meu avião decolou e o meu destino final era Fortaleza, com escala em Belém. No total, o voo duraria umas 4 horas e meia, incluindo o tempo da escala, e o voo foi relativamente bom, com exceção de um momento em que o avião literalmente despencou do céu. Todo mundo ficou gritando, e senti que o avião já tava entrando em estol quando tudo se normalizou. A culpa? O avião já estava lento demais devido ao pouso, e tinha uma nuvem pequenininha, mas bem densa no nosso caminho. Bem, após esperar uma meia hora no avião em Belém, decolamos de novo. O trecho pra Fortaleza parecia interminável! Também bastasse, já faziam mais de 4 horas ali dentro do avião e nada.

Quando foi umas 20:30 horário local, cheguei em Fortaleza, peguei meus cartões de embarque, comi uma besteirinha, e fiquei aguardando o embarque internacional abrir. Após passar por todos os raios-x e imigrações possíveis, já estava eu na sala de embarque esperando o meu voo.

O aeroporto de Fortaleza pode ser bem arrumado e bonitinho, especialmente na sala de embarque, mas acabo percebendo nos pequenos detalhes que o brasileiro tem uma cabecinha de jirico na hora de planejar as coisas. A sala de embarque internacional só tem um café, uma lojinha pequena de duty free e só. Só! Nem banheiro tinha ali. Fora isso, as cadeiras são muito desconfortáveis e não permitem que a pessoa descanse direitinho. Ali só me lembrei do aeroporto de Viena, que apesar de parecer pequeno e não muito moderno na área comum, tinha espaços incríveis na sala de embarque. Caso a pessoa precisasse trabalhar no notebook, tinha uma poltrona com uma espécie de mesa e tomada especialmente para isso, além de ter wifi de graça e ilimitado. Super prático. E para aqueles que já estavam muito cansados, também havia uma espécie de cama (!!!) onde se podia deitar. Alô alô arquitetos brasileiros! Olha a copa aí!

Tá, aquela sala de embarque não tinha nada pra fazer, salvo (no meu caso) o wifi. Tá que eu tenho 3G, mas ele não tava muito bom naquele dia. Fuçando as redes, achei um wifi grátis da infraero, onde eu só precisaria colocar alguns dados e pronto. Pra mim deu certo, mas pra uma senhora do meu lado não. Então já que ela não conseguiu, não achei nada eficiente esse sistema. Podiam colocar o wifi aberto sem precisar de nada, que nem em Viena.

Então, o meu voo pra Lisboa saiu com atraso de Fortaleza, mas me impressionei com a rapidez da viagem. Já estava acostumada a viajar por 12 horas, e quando eu vi que o voo seria menos de 7 horas, achei muito bom. O jantar saiu logo e tentei dormir. Quando menos percebi, já estava chegando em Lisboa.

Em geral, o voo da TAP foi bom. A comida estava boa, os comissários eram gentis, e não houve quase nenhuma turbulência no voo. Além, de como já ter dito, foi uma viagem rápida.

Cheguei em Lisboa 11 da manhã aproximadamente. A impressão foi que nos soltaram bem no fim do aeroporto. Tive que andar horrores até ver o sinal da imigração. Imigração e raio-x foram tranquilos. A moça só me perguntou quando eu voltava e no raio-x só me pediram pra tirar o notebook da bolsa.

O aeroporto de Lisboa é bem bonito, e me impressionei. Olha que já estive em vários aeroportos, mas um que nem aquele, com uma área comum grande, espaçosa e clara junto a muitos restaurantes e lojas. Fora isso tive wifi, só 30 minutos, mas tive, mas logo achei meu gate pra Budapeste e esperei.

Esse último trecho atrasou uns 45 minutos, e a viagem não seria curta. Quando começamos a embarcar, já fui ficando nervosa sobre o meu destino aqui. Mas acho que fiquei bem tranquila quando o piloto, após ter falado em português de Portugal, começou a falar que o nosso destino era a cidade mais bonita da Europa, e ainda arriscou um “obrigado” em húngaro. Achei isso de-mais, e os vários velhinhos húngaros que estavam no voo começaram a bater palmas!

Após 3h30 de um voo tranquilo, vi Budapeste do alto! Tava na hora do pôr-do-sol, e a vista estava incrível! Pousamos e após esperar pela minha mala, saí. Não sabia se ia encontrar alguém pra me buscar ou não. Mas olha a felicidade quando eu saí dali e vi o Zsolt, o meu buddy com uma plaquinha com o meu nome acenando e sorrindo pra mim! Yay! Tinha alguém esperando minha chegada! Me senti especial, hehe.

Ele me levou para uma pequena volta de carro ao redor dos embankments do Danúbio e ao redor de alguns castelos. Era o início da noite, e o contraste da cor do rio com as luzes ao redor só deixou tudo mais bonito ainda. Realmente, essa cidade é uma das mais bonitas da Europa mesmo!

Já cheguei, e o meu buddy me levou pra dar uma volta ao redor da cidade. Era início da noite, e tudo estava lindo! Todos os prédios de Budapeste estavam especialmente iluminados, e foi tudo lindo! Logo depois, ele me deixou em casa, e logo me encontrei com a Rekha, uma australiana que está dividindo quarto comigo.

Bem, como já era noite, só deu tempo de abrir a minha mala e dormir. Tá que eu ainda estava sofrendo de jetlag e acordei uma hora depois, mas já fui me adaptando à minha casa nova. O apartamento é anexo à escola que eu trabalho, a Kontyfa, mas é totalmente independente. A estrutura é muito boa também. Sempre temos comida aqui, assim como todos os móveis e utensílios que precisamos pra viver aqui. Já comecei gostando demais. Tomara que essa lua de mel continue assim!

Como é difícil dizer adeus!

No post anterior, eu tentei escrever brevemente sobre o meu primeiro dia em Moscou, a minha mala quebrada, o jogo da Champions, e o meu aborrecimento com a Katya.

As primeiras pessoas que me despedi na Rússia, foram as pessoas que ficaram em Saratov, e não foram pra Moscou, como a minha host family, e alguns amigos que fiz, e vi na minha festa de despedida no bar soviético, na principal avenida da cidade.

A segunda despedida aconteceu logo após o jogo da Champions. Me despedi da Katya, do Kolya e da Alina ali no metrô mesmo. A Katya ainda estava super nervosa, com medo de perder o ônibus de volta pra casa, e só deu um tchau rápido, e logo quando o trem chegou, eles foram embora. Mais cedo naquele dia, também nos despedimos da Yasmin, que era aquela brasileira que conhecemos lá em Moscou, já que ela já ia pegar o voo de volta pro Brasil na manhã cedo seguinte.

Naquele momento, ficamos no hostel, eu, o Pedro, o Marcio e o Rhushabh, e a Sasha na casa de um amigo, mas todos os dias nos encontrávamos pela cidade, onde passeávamos, íamos fazer compras, conhecendo museus e outras coisas.

Alguns dias após o jogo, o Márcio partiu pra Praga numa manhã bem cedo. Eu até ia com ele, mas pelo site de passagens não ser muito confiável, a compra da minha passagem foi bloqueada pelo cartão, e fiquei em Moscou mesmo. A partir de então, ficamos nós três, e a Sasha.

No dia seguinte, a Sasha teria que voltar pra Saratov de trem. Como ela estava dormindo na casa de um amigo, nós combinamos de nos encontrar em um determinado ponto, mas chegar até lá foi meio complicado. Eu, o Rhushabh e o Pedro fomos atrás de um restaurante indiano que havíamos encontrado online, mas após rodar a tarde toda em uma parte de Moscou que ninguém conhecia ainda, desistimos de procurar, e encontramos uma Subway, e ficamos por ali mesmo. Já era 18h e ainda não tinha comido nada naquele dia, e juro que comi um sanduíche de 30 centímetros! Até hoje não sei como consegui fazer essa proeza. :)

Essa Subway ficava perto de uma tal estação de metrô, e pedimos pra Sasha ir até lá. Ela chegou, e entregou pra mim e pro Pedro dois presentes muito fofos. Ela nos deu uma caixinha de chocolate com várias barrinhas, e cada uma delas tinha uma letra do alfabeto cirílico, uma palavra que começasse com essa letra, e o desenhinho dela. Era bem didático e meio infantil, mas foi muito fofinho! Fora isso, ela deu uma cartinha que até hoje guardo com carinho. Ali mesmo ela foi embora, e logo senti o peso da despedida. Após a partida daquelas pessoas, eu sentia que deveria ter dado mais atenção pra elas, e agradecer bem mais do que já havia agradecido por tudo a eles.

A partir de então, ficamos só eu, o Pedro e o Rhushabh. Até o fim da minha permanência em Moscou, seríamos só nós três, e confesso que quis aproveitar ao máximo o tempo que tinha com eles. O nosso último dia juntos seria no dia 28 de fevereiro. Acordamos cedo, e fomos dar uma de turistas pela cidade. Ficamos quase todo o tempo juntos, com exceção da visita ao Kremlin, que não pude ir, pois não tinha dinheiro pra comprar o ingresso, que estava muito, muito caro, e ainda estava sem a minha carteirinha de estudante (muito válida!).

Chegou o fim da tarde, e o Rhushabh tinha que ir embora. Ele ainda teria que passar cerca de um mês em Saratov, e lá fomos nós no metrô, indo deixar o nosso amigo ir. Quando ele virou as costas, a partir daquele momento, era só eu e o Pedro. Para comemorar as nossas últimas “horas” como intercambistas, decidimos ir até o Hard Rock Café da ulitsa Arbat, comer um lanche, e conversar, seja sobre a vida, planos, família, amigos, lembranças, e outros. Não sei se o Pedro estava percebendo, mas eu comecei já a sentir o peso da despedida desde a saída da Sasha. Não sei, mas senti que eu poderia ter dado mais um abraço, mais um “obrigada por tudo”.

Lá no Hard Rock, um momento descontraído aconteceu! Sentamos em uma mesa, começamos a conversar, e o Pedro começou a sentir umas goteiras caindo em cima dele, e trocou de lugar na mesa. Sério, menos de um minuto depois disso, um monte de água suja caiu bem na cadeira onde ele estava! Era uma espécie de água com espuma, meio escura que caiu de uma espécie de tampa, que havia bem em cima das nossas cabeças. Agora, já pensou se ele tivesse ali sentado ainda? Fica a dica de ver em todo lugar, o que tem acima das nossas cabeças (risos).

Após comer, voltamos ao nosso hostel, onde tínhamos que passar como uma hora esperando. Passamos mais esse tempo refletindo sobre a vida lá na sala de espera. Quando deu uma hora certa pra ir ao aeroporto, fomos ao guarda volumes do hostel, pegamos as nossas malas e fomos em direção ao aeroporto!

Ali, um dos momentos mais tensos de todo o meu intercâmbio (e creio que do Pedro também) aconteceu. Lá estávamos nós, fim da nossa viagem, com mais compras do que nunca, carregando as nossas malas de volta ao metrô. Em um dia normal (sem malas), o trajeto hostel-metrô era tranquilo. Era como uns 5 minutinhos andando. Cada um de nós estávamos carregando 4 bolsas. Eu estava com a minha mala nova gigante mas com aquelas rodinhas que viram, uma mala de mão (aquela que me ferrou no início da minha viagem), uma bolsa de ombro mesmo, e uma pequena transpassada. Olhando assim, parecia até fácil levar, mas lembre-se que eu sou muito sedentária! Eu até me cansava rápido, mas esse trajeto foi bem mais tranquilo do que da ida a Moscou.

O Pedro, coitado, estava carregando a mala grande dele, uma bolsa de mão que nem a minha, uma mochila, e a minha finada mala quebrada carregando na mão, que estava cheinha de vodka. Ele dava uns dez passos e parava ofegante. Imagina, só a minha mala estaria pesando horrores por causa da vodka. Eu me lembro, em uma certa altura falar algo como “que era a última vez que estávamos nos desafiando naquele frio desgraçado!” Ele estava voltando ao Brasil, e iria despachar tudinho e se livrar do peso, e eu estava indo a Paris, e lá teria uma vida de turista, não de intercambista. Hehe.

Cheguei no metrô, e a senhora que resguardava a entrada olhou pra gente e disse que precisaríamos pagar as nossas passagens, e as das malas. Olha, quando eu fui pra Saratov, e tive que fazer uma baldeação no metrô, só paguei a minha passagem! Mas liguei aquela tecla lá, e não achei problema em pagar uns 2 reais a mais por causa disso.

Chegamos na estação Beloruskaya, e necessitaríamos pegar o Aeroexpress pro aeroporto. Só que o Aeroexpress ficava num prédio fora do metrô. O Pedro disse que ele iria lá fora pra procurar esse prédio, e enquanto isso, eu fiquei ali na estação com as malas. Uns 10 minutos depois, ele voltou, e eu já estava começando a ficar nervosa. Imagina, eu, sozinha, quase meia noite, com 8 malas ao meu redor. Comecei a pensar que as câmeras estavam me monitorando, e alguém poderia estar pensando que eu poderia ter alguma bomba nessas malas. Heheheheh. O mais engraçado, foi que o Pedro voltou, e disse que por pouco ele não entrava, pois a carteira dele havia ficado na mochila, que estava comigo. Sorte a dele que ele havia alguns trocados no casaco.

Então, entramos no trem pro aeroporto, e durante o trajeto, uns 40 minutos, uma playlist bem triste começou a tocar na minha cabeça. Mais algumas palavras trocadas, e chegamos no Sheremetyevo. Olhei para as partidas, e vi que o meu voo pra Istambul já estava com o check in aberto. Imagina o alívio de ter que me livrar das minhas malas logo ali! Foi uma sensação ótima. Nunca mais precisei carregar tanto peso naquela viagem.

Isso era um pouco mais de meia-noite, e o meu voo pra Istambul saía às 6:40 da manhã, e do Pedro, pra Amsterdam, às 6:45, ou seja, teríamos que passar uma bela noite no saguão do aeroporto. Agora, imagina a enrolação. Não tinha nada aberto no aeroporto, com a exceção de um restaurante com nenhuma comida atraente. Todas as lojas do complexo do Aeroexpress estavam fechadas, e foi uma batalha pra encontrar alguma tomada disponível.

Depois que achamos essas tomadas, foi fácil passar a noite, especialmente pelo aeroporto ter wi-fi livre e ilimitado. Liguei o skype com um amigo, e passei umas boas horas lá batendo papo com ele. Me lembro que ele me prometeu me levar para comer uma comida regional assim que eu chegasse, já que ele não estaria em Manaus para me buscar no aeroporto. Mais de um ano se passou, e ainda não fui comer com ele! Estou aguardando convites. :)

Depois que abriu o check-in pra Amsterdam, o Pedro foi lá, despachou as coisas dele, e decidimos logo embarcar. Não pegamos nenhuma fila, e a imigração foi bem tranquila. Eles carimbaram a minha saída na última página do meu passaporte, pegaram a minha folhinha da imigração, que havia preenchido na entrada, e pronto! Teoricamente, estávamos fora da Rússia.

Estava morrendo de fome, e já que não tinha nada pra comer no saguão do Sheremetyevo, eu achei que na área do embarque, teria algo. Realmente, lá havia uma área de free shop grande, com vários chocolates, perfumes, bebidas (claro, é a Rússia!), mas não comprei nada, mesmo achando os preços bons. Por exemplo, o perfume Prada Milano grande estava só 52 euros. Em Paris, eu achei esse perfume só mais que 70 euros. Agora vai comprar um Prada Milano aqui em Manaus pra te ver…

Fora o free shop, só haviam uns dois lanches abertos, mas eles eram estranhos. Acho que um era só de comida saudável, e o outro, de doces. Sinceramente, não gostei da aparência de nada dali, e comprei só uma Coca Cola, e uma espécie de Club Social russo em uma maquininha tipo vending machine.

Isso já era quase 5 da manhã, e meus olhos estavam fechando. O Pedro perguntou se ele poderia pegar as fotos que eu tinha do nosso intercâmbio no computador, e enquanto isso, deitei minha cabeça na mesa e tirei uma soneca. Alguns minutos depois, o Pedro pergunta se não era a hora de nós irmos, pois as companhias aéreas já estavam se organizando. Quando as filas começaram a crescer, nos levantamos, e me despedi dele.

Sabe, foi um aperto no coração muito grande, não só pelo Pedro ter se tornado um grande amigo durante a viagem, mas também por ele ser o último. O último! Quando iria voltar pra Rússia? Quando eu veria novamente algumas daquelas pessoas? Desde a minha host family, os meus estudantes, os professores, o meu amigo que me buscou na chegada, o pessoal da AIESEC e todos os amigos trainees que fiz? Eu senti que havia chegando na reta final, e eu tinha acabado de desapegar da última pessoa.

No meio da fila de embarque, eu não resisti. Eu chorei que nem uma criança! Todos aqueles momentos me vieram à mente, e chorava horrores! Senti uma pena vindo das aeromoças que me viram entrar no avião. Fiquei triste sim, mas engoli o choro quando vi a situação lá fora. Estava nevando forte, e comecei a pensar como o avião subiria naquelas condições. O medo de avião voltou, e por um momento esqueci a saudade e comecei a ficar apreensiva. Não sei se ficava feliz ou não, quando o piloto, com um sotaque turco bem forte, falou, com uma voz de preocupação que o avião estava fazendo o degelo das asas. E se aquele degelo não fosse bem feito? Socorro!

O avião decolou. Minutos depois, acabei relaxando, e voltei a ficar triste. Comecei a assistir um filmezinho, e fiquei esperando a minha chegada a Istambul, mas por algum motivo, todas aquelas imagens não saíam da minha cabeça. Horas depois, peguei a minha conexão a Paris, e fui aproveitar meus dias na França.

Nada melhor que a sensação de estar um passo mais perto de casa, mas saber que lá do outro lado do mundo, existem pessoas que você vai guardar no seu coração pra sempre é quase inacreditável.

Assim que percebemos a honestidade!

Quando nós pensamos em uma sociedade honesta, a primeira característica que podemos associar é justamente a educação. Mas que educação é essa que diferencia certos povos de outros, ou pessoas de criação diferentes, ou até de estratos sociais opostos?

Vou contar uma historinha. Lá em Saratov, e em outras cidades russas, você sempre ganha um ticket numerado ao andar no transporte público. Esse ticket valia 12 rublos para as vans, e 10 rublos para os ônibus e bondes. Um valor de transporte público barato, considerando que 1 real vale pouco mais de 15 rublos, ou seja, 98 centavos para uma passagem em um transporte público precário, em alguns casos, mas extremamente eficiente.

Alguns dos meus tickets de ônibus

Para os bondes, todos que entravam, logo eram abordados pela cobradora. Ela andava com uma pochete com dinheiro trocado e um rolinho com mais tickets. O mais impressionante era que ela sempre conseguia cobrar de todo mundo, mesmo quando os ônibus estavam lotados, e jamais essas cobradoras abordavam uma pessoa duas vezes! Haja memória fotográfica…

Nos ônibus, o pagamento só era feito na saída. Nesse caso, cobradores já não existiam, e quem fazia esse papel era o próprio motorista. Como a saída do ônibus só era permitida pela frente, ele tinha o controle de todo mundo lá dentro, e fazia o mesmo: dava o ticket, recebia o dinheiro, e dava o troco, se tivesse.

Nas vans a situação era bem mais curiosa. Lá também o motorista também atuava como cobrador de ônibus, e a passagem era paga ali, na hora, com o carro em movimento, e tudo! Por exemplo, se só tivesse lugar na parte de trás da van, eu me sentaria ali, pegava o dinheiro do ônibus, e passaria para a pessoa da frente, que passaria o dinheiro até chegar no motorista. Alguns minutos depois, o ticket voltava pra trás, e se houvesse troco, ele também voltaria, e certinho, através das mãos de todos no ônibus.

Uma vez, vi uma cena interessante sobre isso. Numa van lotada, sem lugar pra sentar, e com várias pessoas de pé, entrou uma moça que passou algum tempo procurando na carteira o dinheiro do ônibus. Só que ela só tinha uma nota de 5000 rublos com ela (o equivalente a 327 reais)! Ela passou o dinheiro, e após um tempo (cerca de uns 5 minutos), um bolinho de moedas começou a passar de mão em mão até voltar na moça. Como a passagem era 12 rublos, eu aposto que lá haviam exatamente 4988 rublos, sem nenhum centavo a menos!

Outra vez, dentro de uma van, eu estava segurando o meu celular com a mão, e tive que tirar a luva pra pegar o dinheiro pro pagamento da passagem de dentro da minha bolsa. Paguei, e percebi que nem a minha luva, e nem o meu celular estavam comigo. A estrangeira fez um clamor dentro da van pra saber se alguém tinha visto cair as coisas. Todo mundo começou a procurar, e uma moça que estava na frente achou ambos, e me entregou. Fiquei pensando se uma situação dentro dos ônibus aqui em Manaus teria esse desfecho igual. Creio que uma ou outra pessoa eventualmente ajudaria, mas na grande maioria dos casos, se alguém tivesse achado o meu celular, essa pessoa provavelmente acharia, esconderia, e ficaria de bico calado.

Com essas pequenas atitudes, percebi que o povo russo em geral é extremamente honesto e prestativo com certas situações. Vejo isso como uma boa herança deixada pelos soviéticos, que “tentavam” passar uma ideia de socialismo real – algo que não realmente existia, e que era deturpada pela propaganda soviética – conseguindo passar pro povo a pura ideia do socialismo, a igualdade de todas as pessoas perante ao estado.

Mesmo a Rússia sendo atualmente conhecida como um dos países mais corruptos do mundo (bem mais rankeada que o Brasil, inclusive), vale ressaltar que essas ações são cometidas por um grupo pequeno, mas poderoso da sociedade. Mas em geral, o povo russo é extremamente prestativo com as pessoas, algo que muitos não conseguem imaginar devido a aparência passada pela mídia durante vários anos.

Essas duas situações podem ilustrar muito bem isso, assim como a história do meu amigo que me buscou no aeroporto, que já contei, e outras que vivi por lá. Então já fica a dica. Se porventura você ficar amigo(a) de um russo, pode contar, que essa amizade é vitalícia!

Ah, e voltando a falar dos tickets, tem um outro fato curioso sobre eles! Caso a soma dos três primeiros números fosse igual à soma dos três últimos, esse ticket é da sorte! Pra tentar ganhar alguma coisa com eles, eu coloquei algumas dessas passagens sortudas dentro da minha carteira… vai que, né?! :)

Saratov, a capital do Volga

Eu já citei algumas vezes que eu fui fazer intercâmbio na Rússia, que eu gostei muito, e tal, mas não falei muito da cidade em que passei alguns dos momentos mais divertidos da minha vida!

Saratov é uma cidade de 840 000 habitantes situada na margem esquerda do rio Volga, na região centro-sul da Rússia. Eu pesquisei bastante antes de decidir ir até lá, especialmente por que estava em dúvida pra ir numa cidade na Polônia, e para Novosibirsk, a “Chicago da Sibéria”.

Na verdade, eu queria muito ter ido pra Novosibirsk no início desse processo de intercâmbio. Eu me lembro que quando eu era pequena, gostava de ficar observando atlas, e eu fiquei bem confusa ao abrir na página que mostrava o mapa da União Soviética, já que era um país enorme com outros países pequeninos ao redor. Bem no meio do mapa, eu vi o nome dessa cidade e comecei a imaginar que raios teria em Novosibirsk, e que país louco era aquele! Creio que devia ter uns 4 anos e não entendia nada ainda de geopolítica internacional. Hehe.

Quase que eu fui pra Novosibirsk, mas não teria como ir para União Soviética por motivos óbvios, já que o ano de 2011 estava entrando na reta final. Quando eu estava quase indo convencer a minha mãe a ir pra essa cidade que sempre me intrigou, eu comecei a sondar Saratov. Acho que nunca tinha ouvido falar dessa cidade antes, e fui pesquisar.

Gostei muito da história dela, e senti uma necessidade imensa de ir pra lá. Agora o porquê disso foi bem intrigante pra mim desde o início.

No início do Século XX, o Império Russo era a potência mais ameaçadora do continente europeu. Embora alguns autores afirmem que o Império era sempre o mais atrasado e retrógrado, a verdade é que numa situação de sobreposição de poderes criada por Bismarck no fim do século XIX, onde a França arrasada pelo Congresso de Viena conseguiu se manter à altura e manter a paz com uma Inglaterra bagunçada, mas poderosa devido ao sucesso da era Vitoriana, enfraqueceu a recém unificada Alemanha, comandada por um Kaiser louco e que destruiu o quebra-cabeça de Bismarck com algumas gafes sem sentido. Nesse contexto, o Império Russo era o país mais estável de todos os Europeus, e havia ganhado moral com a esmagadora vitória sobre Napoleão.

Enfim, no país mais temido da Europa, Saratov era um centro cultural ascendente no período pré-revolução russa, com renomadas universidades e conservatórios de música, além de possuir pelo menos 4 séculos de história. Ali, era a terceira maior cidade do país, apenas perdendo para então capital, e na época, uma das maiores cidades do mundo, São Petersburgo, e o centro industrial de Moscou.

Como todos sabem, a revolução começou, e em 1922 a União Soviética nasceu, e com ela, algumas políticas militares começaram a aparecer. Para Saratov, pouca coisa mudou até a Segunda Guerra Mundial e a batalha de Stalingrado.

A cidade de Stalingrado (hoje, Volgogrado) era o coração industrial da URSS, e os comandantes nazistas acreditavam que após tomar essa cidade, eles enfraqueceriam os soviéticos significativamente, e logo chegariam aos ricos poços de petróleo do Azerbaijão, onde deixariam o plano de conquista mundial e da “superioridade da raça ariana” a um passo de ser concluído.

Por sorte, a resiliência e bravura do povo soviético, aliada às táticas militares do general Jukov, os nazistas foram derrotados, enfraquecendo significativamente Hitler, e abrindo espaço à União Soviética e aos aliados a tomada de Berlim em 1945. Mas o que Saratov tem a ver com isso?

Saratov é uma cidade vizinha de Volgogrado, e muitas das batalhas foram travadas próximas ao círculo urbano da cidade, o que abriu a possibilidade aos soviéticos de instalarem uma base militar estratégica ali. Após a guerra, Stalin ordenou que a cidade fosse considerada “fechada” aos estrangeiros e outras nacionalidades soviéticas. Esse isolamento do mundo selou o destino atual da cidade, que passou anos sem ter um desenvolvimento tecnológico, e com pouquíssima infraestrutura estratégica. Por exemplo, o aeroporto da cidade é super subestimado, mesmo estando numa região com potencial turístico.

Apenas com a dissolução da União Soviética no natal de 1991, Saratov foi aberta aos estrangeiros, e à maioria dos soviéticos. Quando eu me toquei que eu poderia ir para um lugar que vedaria a minha presença há 20 anos, logo fiquei animada (por incrível que pareça!). Outros fatos me chamaram a atenção. Por eu ser estrangeira, poderia chamar mais a atenção, e ao invés de me preocupar com isso, mais estímulo recebi pra ir até lá!

Fiquei matched, ou seja, aquela vaga era minha! Comprei minha passagem até Moscou e cheguei lá após uma viagem de quase 19 horas de trem, fato que já contei por aqui.

Após chegar lá, eu vi algumas coisas que eu já esperava, e outras não. Eu já esperava ver neve por todo o lado, pessoas com aparência reservada, coisas exaltando a época soviética, dentre outras. Mas eu jamais esperaria receber tanto carinho da minha host mother, e amizades verdadeiras vindas dos outros trainees! Às vezes, quando eu saía da casa da minha host mother, triste por ter passado um dia sem ter conversado com alguém daqui de casa, ela me dava um abraço, um beijo, e um boa noite em russo! Fora as vezes que ela me emprestava algum chapéu de pelo de raposa pra proteger a minha cabeça, ou algum casaco mais grosso quando estava mais frio. Sem contar todos os jantares, frutas, e todos os MM’s que eu recebia todo dia. :)

A cidade é linda! Se já a achei incrível durante o inverno, não sei nem o que esperar durante o verão! Saratov é um balneário turístico bem importante na beira do rio Volga, e segundo a minha host, ela passa o verão inteiro deitada na praia. E pela cidade ser antiga, muitos prédios da época ainda continuam. Construídos em madeira, e pintados sempre com cores brilhantes, esses prédios lembram um pouco aquilo que eu costumava ver na TV como construções da época czarista.

Se alguém me perguntar se vale a pena ir pra Saratov fazer seu intercâmbio, a resposta com certeza é sim, apesar das dificuldades que passei para ter a definição de onde eu iria trabalhar. Pra mim, a recepção daquelas pessoas, as amizades que criei, todo o carinho dos professores e alunos da escola que trabalhei e todo aquele ar cultural do interior da Rússia vale todo e qualquer esforço. Já prometi pros meus amigos que eu voltaria lá. Gostaria saber quando, mas ainda irei.

Ninguém me entende!

Ser inquieta me proporcionou algumas das experiências mais importantes da minha vida, assim como me fez (ou faz) passar vergonha por aí.

Geralmente eu gosto de brincar com meus amigos, falando que “ninguém me entende”, quando a realidade é por isso mesmo! Por exemplo, a única pessoa que eu conheço que não gosta de ir ao cinema é… eu mesma! Por mais incrível que pareça, eu não consigo ficar quieta por duas horas sentada numa cadeira prestando atenção em um enredo… e ninguém me entende!

Faz algum tempo, eu sonho em trabalhar pela ONU. Claro que sonhei em morar em grandes centros urbanos e/ou culturais. Quem aqui não gostaria de morar em Londres, em New York, em Viena? Depois de refletir muito, me veio à cabeça a importância de viver em um centro em desenvolvimento, com a economia em potencial de crescimento, ao mesmo tempo com um certo conforto e qualidade de vida. Mas com o amadurecimento de certas ideias, comecei a pensar que talvez seria interessante passar uma temporada na África, para ajudar no crescimento de pessoas com dificuldades que talvez jamais alguns de nós passaríamos. Ao falar dessa vontade para algumas pessoas que fazem francês comigo, eu senti a vontade deles de rir da minha cara. “África?! Tá louca?!”

Mas parte da minha agitação me levou a arriscar situações totalmente fora da minha zona de conforto. Por sentir que eu posso conquistar o meu além através de pequenas ações, eu comprei minha passagem pra Budapeste, onde vou passar um mês e meio trabalhando em prol da cultura brasileira, se desafiando mais uma vez.

Eu vou pra Budapeste sem 100% de apoio da minha família, já que eles queriam que eu fosse passar 10 dias na Disney com eles. Eu sinceramente coloquei as duas viagens na balança, e cheguei à conclusão que seria muito mais importante pra mim se eu fosse ter um engrandecimento pessoal através do intercâmbio do que viver uma vida de turista por alguns dias em um lugar que quase todo mundo conhece, ou sonha em ir.

Algumas pessoas, além das que “iam” viajar comigo pra Disney, acharam confusa a escolha de NÃO ir passar uns dias maravilhosos na Flórida do que ir para um país lindo e interessante, mas sem luxos de turista. Outras já me incentivaram muito, falando super bem da cidade, e da experiência que eu terei em Budapeste.

Aos outros que fazem intercâmbio, mas não o social, que é o que eu fiz na Rússia e voltarei a fazer na Hungria, não conseguem entender o PORQUÊ de eu não viajar para a Inglaterra ou Canadá para estudar inglês.

Bem, eu já sei falar inglês, muito bem por sinal, inclusive já dei aulas pra adolescentes e adultos, então não faz sentido estudar inglês em uma escola no exterior pra mim. Alguns podem indagar que eu posso praticar meu inglês trabalhando em um Mc Donald’s na Austrália, ou lavando o chão de uma estação de esqui em algum canto dos Estados Unidos. Com todo respeito a essas profissões, não vejo crescimento profissional para mim nisso. Além do mais, eu estudo pra ter um futuro brilhante (como trabalhar na ONU ^^), e gostaria de ver as pessoas da minha nação pensando junto comigo, e buscando reconhecimento através do esforço e estudos, ao invés de eu esbarrar com a comunidade latina sendo explorada e diminuída socialmente devido ao preconceito de estarem em um estrato social mais baixo.

Até que tem gente que me entende! Infelizmente, aquelas que não me entendem vão continuar postando suas fotos em Miami Beach no Facebook vestindo uma camisa da Hollister, com uma Louis Vuitton falsa, e todas tiradas com seu iPhone dividido em 10x em alguma loja de departamento. Tudo “bem” até aí, mas a partir do momento que eu colocar foto com as pessoas que eu impactei seja em Saratov, ou seja em Budapeste, essas mesmas pessoas vão me dizer que eu fui lesa por me deixar levar por um trabalho voluntário, o que significaria pra eles, sem valor.

Eles não me entendem, mas não tem problema.

Vivendo em um vilarejo soviético

Em fevereiro, minha hostess me chamou pra passar o fim de semana “at the village”. Sem hesitar, falei que sim, e logo me animei com a possibilidade! Fomos até a rodoviária, compramos nossas passagem de ônibus e esperamos pelo dia. Um outro brasileiro já foi me alertando dizendo que lá não tinha nada!

A princípio iriam eu, todos os intercambistas, a mãe, e o irmão da minha hostess. Acabaram indo todos os trainees, a Katya e uma amiga dela. Fomos de ônibus e partimos na sexta de manhã. O trajeto de ida não foi muito confortável, mas deu pra se relaxar. Ainda mais, fiquei conversando com um outro brasileiro, e jogamos conversa fora por umas 2 horas.

A paisagem era bem triste, já que tudo estava coberto de neve e o silêncio do ônibus me fazia sentir num vazio total. Do nada, minha hostess nos chamou, dizendo que estávamos chegando. A pergunta na minha cabeça era: chegamos onde?!

O ônibus parou no meio do nada! O que quebrava o hábito eram algumas casinhas de madeira, construídas uma longe da outra. Algumas dessas casinhas tinham as paredes tortas, lembrando muito algum cenário de filme de terror. E lá tinha muita neve, mais do que o normal em Saratov!  E era neve pura, daquelas que se podia pegar um monte e comer, já que ninguém podia ter pisado, ou passado por ali.

Vilarejo em que passei o fim de semana

Fomos deixados na estrada principal, e tínhamos que andar um bocado até chegar à casa onde passaríamos aqueles dias. E como eu era a mais sedentária, fiquei pra trás! Foi muito exaustivo (no meu caso) chegar lá. :)

Fomo logo recebidos pela “babuska” da Katya, e logo nos acomodamos nas camas à nossa disposição. O interior da casinha era interessante. As paredes eram todas cobertas com tapetes persas e imagens de santos ortodoxos. A cozinha era bem rústica, e só havia uma pia à disposição de tudo na casa! O aquecimento era feito com uma espécie de tambor gigante que ficava bem no centro da casa. Vale ressaltar que nem todos os cômodos da casa eram aquecidos. Mesmo me sentindo no meio do nada, abrigada por uma tenda siberiana, ainda me senti “perto” do mundo, já que ali tinha TV via satélite com alguns canais (todos em russo).

A casa ainda tinha um anexo onde os avós da Katya criavam um rebanhozinho de cabras. Tivemos sorte! No dia seguinte da nossa chegada, uma das cabras teve filhotinhos, e nós ajudamos a aquecê-los e a limpá-los! :)

Nunca em toda a minha vida, eu comi tanta batata quanto lá! E eles cozinham a batata de uma maneira tão especial que até hoje não sei como preparar aqui! Foi o nosso primeiro jantar, e pra fechar, comemos uns biscoitinhos maravilhosos!

Apesar do bucolismo, de toda a sensação incrível que estava sentindo naquele lugar, havia um grande problema. Não existe saneamento básico no vilarejo, sendo aquela pia da cozinha, o único cano que saía água da casa. Eu estava nos meus dias, e ir pro banheiro era, digamos, nojento. Os meninos não tiveram problema algum nas idas ao banheiro, eu, por outro lado, faltava morrer! A sorte foi que a avó da Katya possuía uma espécie de balde adaptado para urina, e esse balde ficava dentro de um cômodo da casa, que não tinha aquecimento. Apesar do frio de vários graus abaixo de zero, ir no banheiro ali era bem melhor do que ir na casinha com apenas um buraco no chão que ficava fora de casa, no escuro e mais frio ainda.

A questão do banho também era tensa. Os avós da Katya tomavam banho no “banya”, ou seja, aquela famosa sauna russa onde as pessoas ficam nuas, e se batendo com um umas folhas nas costas. Me chamaram pra ir no banya com o pessoal, e nesse caso, nem fiz questão!

No dia seguinte, fomos passear no bosque. Eu relutei muito em ir, já que eu estava me sentindo suja, e cansada por não ter dormido a noite bem. Acabei indo, e achei aquele bosque lindo! Literalmente eu me senti no filme do Bambi, no meio de uma trilha com árvores cheias de neve, e vendo uma corredeira que só não era congelada pela energia cinética. Lindo :)

Bosque

Passamos outra noite lá e tínhamos que partir às 5:30 da manhã do dia seguinte rumo à Saratov. Acordar naquela hora foi horrível. Tínhamos ido dormir muito tarde e já estávamos com preguiça do frio que iríamos sentir! Após tomar correndo um café da manhã só com panquecas, saímos no breu e frio da noite. Estava muito escuro. O vilarejo não tem iluminação pública, e naquela hora, nenhuma casa estava com as luzes acesas. Apesar do medo constante em escorregar, tive uma bela recompensa! Nunca vi um céu estrelado tão bonito, e apesar do frio, sono e fome, o firmamento me deu a mensagem de que tudo valeu a pena.

Daí, pra encerrar mesmo, esperamos o ônibus de volta. A Katya bateu o pé e disse que era melhor esperarmos um ônibus, ao invés de pedir um táxi, que sairia o mesmo preço. Só que a Katya não esperava que o ônibus demorava muito pra passar ali, um vilarejo pequeno. E outra coisa que deixou todo mundo bravo com ela foi o frio. No caminho, encontramos um senhor que disse que, segundo o termômetro da casa dele, estava fazendo -35 graus! Era o mais frio que já tínhamos ficado! Na cidade é quase impossível de fazer esse frio por causa de carros e indústrias, que lançam calor. Dois outros brasileiros estavam morrendo de frio, um não tinha calça térmica e outro não tinha luvas, e os dois não paravam de falar mal da Katya (em português, claro) por ela não ter chamado um táxi. Pra completar, a chinesa sentiu a menstruação dela saindo naquele momento! Acabei emprestando um absorvente pra ela, e ela teve que por ali, no frio!! Não sei como ela conseguiu! :)

Umas 6 da manhã passou o ônibus que estávamos esperando. Quase que esse ônibus (que era uma van) deu problema! Não havia lugar para todos. Eu e outro brasileiro corremos pra sentar, enquanto o chinês ficou de pé por quase toda a viagem, coitado! E lá tava bem frio e desconfortável, mas da situação que estávamos, conseguimos relaxar e dormir. Ao chegar em casa, a primeira coisa que eu fiz foi, definitivamente, tomar um bom banho!